Da vida como acontecimento

Esse texto celebra algo que alguém muito caro a mim costuma chamar de “acontecimento”. Celebra o encontro de pessoas, celebra, fundamentalmente, não apenas a Vida, mas uma vida que, diria, vale a pena realmente ser vivida. Mas toda celebração não carrega apenas o valor intrínseco do que está sendo celebrado. Ela se reporta também à percepção de termos nos despido de uma roupa velha e vestido uma limpinha, nova, que diz mais a respeito a nós do que a outra que nos foi comprada por outrem e nos obrigaram a usar. Talvez nem seja exatamente uma obrigatoriedade, mas adquire esse aspecto porque, na hora, não havia nenhuma outra naquele guarda-roupa-mundo que estava diante de nós. Talvez não seja hora ainda de andarmos totalmente nus e sequer pensarmos em termos de ‘vestimenta’, mas essa também é uma alternativa dentro dessa metáfora.

Há, porém, algo da roupa velha que precisa ser dito. Até porque, irremediavelmente, não a jogamos fora. Ela continua ali, e precisa, volte e meia, ser lavada e usada novamente. Ela ainda atende a certas ocasiões que não podemos fugir de viver. Não é somente imersos no sistema de produção a que somos submetidos que o aspecto mais perverso e ‘coisificador’ da nossa razão é acionado e constrói nossa subjetividade. É para além do que fazemos para ganhar a vida que esse aspecto passa a determinar toda e qualquer relação que estabelecemos, pois enquanto imersos no sistema de produção e de reprodução social, parte de nossa subjetividade é construída e outra parte sequestrada para que possamos lidar com a vida. Mas para que possamos lidar satisfatoriamente com isso, desde cedo somos adestrados a cumprir regras e obrigações sem pensar no ‘porquê’ ou ‘para quê’ precisamos fazê-las. Desde cedo é acionado em nós, em um círculo vicioso, a prevalência de nossa razão de meios, de nossa razão instrumental, que nos torna eficientes em tudo o que fazemos e desenvolve competências e habilidades funcionais que estabelecerão uma forma de ser até que a vida se esvaia em um futuro remoto. Vivemos assim: adestrados, contidos e treinados para sermos usados por prioridades que nunca elegemos, apenas assumimos.

Esse círculo vicioso abarca tudo e quase isenta nossos pais de certa culpa, mas não de toda a culpa. Eles reproduzem a lógica do que também estão imersos. Quando criam os filhos constroem neles a submissão à mesma lógica. A disciplina, a ordem, as obrigações diárias que forjarão um bom cidadão são acompanhadas da ideia de que é preciso ser assim, não importando saber ‘porquê’ ou ‘para quê’. Desde cedo, atarefados e preocupados com as exigências do sistema para que possam dar condições de criar seus filhos, economizam tempo impondo aos filhos coisas que eles próprios sequer pensaram o ‘porquê’ e o ‘para quê’ existem e precisam ser feitas. Aqui já nem importa se a forma como são impostas seja delicada ou agressiva, carinhosa ou coercitiva. Não são essas as distinções. Todas essas formas em geral se reúnem sob o paradigma da estimulação compulsória do pleno e exclusivo desenvolvimento da razão instrumental: sempre o ‘como’, não o ‘porquê’ ou o ‘para quê’.

Na escola, segundo grupo social que a criança dá continuidade à formação da sua subjetividade, é internalizada uma formação que valoriza a técnica, a instrução, a repetição acrítica de listas, fórmulas e conhecimentos prontos a serem aplicados da forma mais eficiente possível. Não há espaço ainda para o ‘porquê’ e para o ‘para quê’.

Nesse cenário, desde o seio da família, passando pela escola e depois na vida profissional e adulta, somos todos submetidos a vivermos sob uma racionalidade de meios, funcional, burocrata, totalmente instrumentalizada para a reprodução acrítica de toda a estrutura que constrói e mantém quase de forma metafísica as subjetividades que se encontram. Portanto, tratar-se-ão, indefectivelmente, de encontros que nada tem a ver com acontecimentos, mas encontros marcados e temporariamente adiados. Todo encontro sob a égide dessa grande estrutura funcional que rege nossa vida, são apenas encontros adiados que ocasionalmente ocorrem, não acontecem. Ocorrência não é acontecimento. A vida que ocorre é muito distinta da vida que acontece. Mas é melhor explicar.

Para efeito do que quero trazer, preciso fazer uma distinção entre Ocorrer e Acontecer. Os dicionários trazem essas palavras como sinônimas, mas não é possível entender exatamente do que se trata essa celebração se não contrapusermos Acontecimento com um tipo de evento que não tem as características que queremos destacar.


Ocorrência, do verbo Ocorrer, tem origem no latim ‘occurrere’. Traz em sua raiz o mesmo elemento mórfico da palavra ‘correr’. O ‘oc-’ como prefixo equivale ao ‘ob-’ que significa o que está adiante, anteposto, que faz parar, posição fronteiriça, dando a ideia tanto de resultado como de cessação. Ocorrência é aquilo que é fruto do que correu para que um resultado surgisse como consequência direta. Logo, o que ocorre tem um sentido, é algo redutível às partes que lhe compõe, pois é efeito direto, mesmo que complexo, de todos os elementos que culminaram nele. Refere-se a tudo o que correu e resultou em uma existência somática. Trata-se de um evento que é mera soma de suas partes, mas que pode ser isolado e ter identidade própria, porém redutível.

Portanto, quando um encontro ‘ocorre’ ao invés de ‘acontecer’, estamos diante de algo que se reduz à soma dos elementos que se encontram. Não há algo novo ali, apenas uma justaposição. Pode ser que a partir daí algo aconteça, mas enquanto ocorrência nada de significativo irá surgir, pois cada qual é o simples resultado do que correu antes dele em justaposições espaço-temporais.

Essas características não ocorrem no Acontecimento. Sua origem latina nos remete a ‘contingescere’, relacionado a ‘contingere’. O elemento mórfico ‘com-’ (junto) une-se a ‘-tangere’ (encostar, tocar). Ou seja, há aí uma reciprocidade, uma troca e não mera justaposição. O toque, o tocar, traz em si uma ambiguidade característica. Tocar junto reafirma essa ambiguidade e ultrapassa a mera justaposição criando algo novo, único, irrepetível. Quando tocamos algo não sentimos apenas o nosso toque na coisa, mas o toque da coisa em nós. Sentimos tanto a textura do que é tocado quanto a nossa sensação diante do toque. Logo, na ocorrência, da justaposição redutível ao que correu para formá-la, o acontecimento se inicia na ambiguidade do toque e culmina na criação do novo e na emergência de algo irredutível às partes que o compõe. Se pudermos exemplificar graficamente seria algo assim:

Aquilo que ocorre possui a ambivalência de ser percebido e vivido tanto em seu aspecto conjunto quanto em seu aspecto decomponível; suas partes. Cada aspecto é redutível ao outro e mesmo que a junção concorra a um novo sentido, jamais esse sentido negará qualquer uma das partes que o compõe. Já no acontecimento não há ambivalência, há uma ruptura e a formação de uma nova valência. É devido a ambiguidade constitutiva do toque que já não há mais justaposição, mas interpenetração, integração, sendo que o que acontece já não pode ser reduzido, é algo por si só irredutível e que passa a negar qualquer uma das partes de forma isolada.

O encontro, quando acontece e não apenas ocorre, é algo transformador. O toque, que dá a ambiguidade que cria o acontecer, não é literal, não precisa ser físico. O toque acontece na permissão ao outro e a um permitir-se com o outro que nos faz sensíveis e auto-sencientes ao mesmo tempo.

O acontecimento emerge quando ao mesmo tempo em que tocamos nos sentimos tocados. Perdemos essa capacidade porque transformamo-nos em Eus passivos apartados do mundo e do outro. Somos a fonte do toque sem nos sentir tocados, porque somos cobrados por objetividade, ou seja, viver cercados de objetos cujos sentidos são dados de antemão por toda uma estrutura ideológica que nos torna sujeitos passivos. Logo, não somos mais tocados, apenas tocamos, usamos e transformamos todas as relações em relações funcionais. Com isso nossa vida é uma sucessão de ocorrências a serem selecionadas e acumuladas em nossa história sem nada acontecer. Por outro lado, outros sujeitos passivos quando nos tocam, não são tocados também. Somos, destarte, objetos funcionais com um sentido dado para um sujeito passivo que pode nos usar. E assim o mundo e a realidade se fazem na justaposição de ocorrências, apenas…


Celebrar a vida como acontecimento, é celebrar uma busca, um novo processo de subjetivação que passa, necessariamente, por nos despir de roupas velhas e condicionamentos e vestir roupas novas que, no entanto, não estão prontas ou encaixadas em alguma moda ou estética nova, mas nos faz propor vesti-las enquanto construção, recombinadas e experimentadas até que possamos ter preparado coletivamente um ambiente em que possamos estar naturalmente nus. O nu, o despido, no entanto, não se constitui um objetivo, uma meta ou um resultado, mas sim mais uma das formas de se trilhar a constante construção de nossa humanidade. Nesse aspecto, ser humano não pode ser visto como resultado final de nada e nem tampouco como algum tipo de resgate de alguma natureza essencial primordial. A visão aqui é de processo contínuo. O ser humano enquanto processo social constante e dialético de subjetivação. Só assim acontecemos. Só assim possibilitamos uma vida que não seja uma sucessão de ocorrências numa cadeia causal de eventos heteronomicamente determinados. Só assim ultrapassaríamos a instrumentalização de nossa razão para pensarmos, questionarmos, sentirmos e vivermos os “porquês” e os “para quês” que nos foram tirados numa vida centrada no “como”. Só assim nos tornaríamos seres com autonomia que, no entanto, pela ambiguidade de se permitir ser tocado pelo outro, abriríamos mão da tirania e da instrumentalização de nossas relações.

Viver buscando desfazer-se das ocorrências e produzindo acontecimentos requer certo estado de atenção espontâneo, não planejado, um ‘voltar-se a…’, uma intencionalidade espontânea e voluntária que nos remete aos conceitos de Atualidade e Acontecimento em Foucault. Para Foucault, para analisar e viver a atualidade é preciso uma espécie de ‘desterritorialização’ do presente. Um substrato do presente que causa uma ruptura na sucessão cega de eventos. É a construção de um presente que não é mais um espaço de tempo consequente e antecedente linearmente do passado e do futuro, mas, sobretudo, percepção e vivência do atual enquanto abertura para um campo de possibilidades que produza significados em eventos que acontecem enquanto irrupções de singularidades agudas e irrepetíveis, únicas.

A questão aqui é que enquanto Foucault usa desse conceito para fazer uma análise da história por trás da história oficial em sua Arqueologia do Saber, estaremos nós construindo enunciados sobre nossas relações íntimas, pessoais, micropolíticas de encontros que revelam possíveis histórias por trás das histórias que contam em nosso lugar como sucessivas ocorrências determinantes de nossa subjetividade. Um desafio que retomarei numa análise mais profunda.

Esse texto é um texto introdutório de uma visão que sequer pretende ser nova ou original, embora se pretenda acontecer criando o novo em cada um que se permitir ser tocado por ele. Nunca acreditei em reflexão filosófica que não procurasse, de alguma forma, transformar a realidade, mesmo que passe, necessariamente, por diagnosticar a realidade vigente sob uma determinada perspectiva. Uma visão crítica, mesmo que negativa, precisa abrir caminhos, propor visões. Ficar na negatividade é como nos determinar naquilo que já é e, se o que é merece ser criticado, só faz sentido ao propor também uma abertura para se pensar a superação daquilo que se critica. Os ‘porquês’ e os ‘para quê’ servem para construir visões pelas quais podemos viver e acontecer em ‘como’ possíveis que valham a pena.

Não seria demais, já no fim dessa reflexão, lembramo-nos dos estoicos. Exceto pelo preconceito de que eles estariam sempre preocupados com o transcendente e não com o existente, é preciso que entendamos que sua preocupação não estava no corpo, mas no acontecimento que o encontro dos corpos proporciona. Os corpos existem enquanto que os acontecimentos que seus encontros geram insistem. ‘Ex’ e ‘In’ prefixando a ‘sistência’. Despreocuparmo-nos com os corpos e nos voltarmos aos acontecimentos que o encontro dos corpos proporciona é um ato, sobretudo, de resistência (res-sistência) que privilegia o que In-siste sobre o que Ex-siste. É o que insiste que faz com que o que existe resista. Sair das meras ocorrências para produzir acontecimento é um ato de resistência e rebeldia contra todas as determinações. É, sobretudo, um ato que dá sentido à liberdade, à ética e ao amor.

Por fim, a partir desse texto, outras questões deverão ser abordadas dentro dessa incipiente visão de acontecimento. Será preciso falar e dialogar com autores que pensaram nossa contemporaneidade e novas dimensões de nossa subjetividade. Será preciso desconstruir e abrir novas perspectivas para um pensamento conjunto em diversos aspectos: desejo, vontade, ética, relações, respeito, dignidade humana, liberdade, direitos, tolerância, preconceito, diversidade e convivência. E também, FELICIDADE. Estes serão os temas recorrentes nessa série que pretendo fazer com a ajuda daqueles que se propuserem a ler, interagir, serem tocados e me tocarem.

Por enquanto que celebremos. Celebremos a possibilidade de acontecer. Diante do cenário atual no mundo e especialmente no Brasil, prestes a convulsões e rupturas, pensar como desconstruir a recorrente esquizofrenia do nosso sistema é um desafio urgente. Precisamos acontecer.

Grato a você que se dispôs a ser tocado por tudo isso.

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