Reflexões sobre Razão Instrumental e Esclarecimento

O iluminismo lança, de forma irrevogável, dentro de todo o idealismo pelo qual se dá, as bases pelas quais o ser humano passou, de forma autônoma, a submeter-se à heteronomia do sistema capitalista. Fez isso, paradoxalmente, definindo de maneira sistemática a natureza humana como iminentemente racional e deliberativa, mesmo apesar de Hobbes. Enquanto Hobbes nos definia maus, o iluminismo nos definia capazes, racionalmente, de superar esse mal para o bem geral. Foi somente, muito provavelmente, radicalizando a crítica da razão que o pensamento ocidental conseguiu perceber que Kant fora insuficiente no seu foco dado na Razão Pura. Primeiro que de pura, seja no sentido apriorístico ou em uma dimensão cristalina, a razão humana não tem nada. Para além das categorias de entendimento, nossa representação da realidade se dá por um viés ideológico pré-valorativo que se conspurca e é determinado por um dado estilo de vida, que por sua vez se reporta a um modo de produção material e pelas relações sociais engendradas por ele. É nesse âmbito, também, que se dá o recrudescimento de um aspecto da razão que os iluministas deixaram escapar e que somente mais tarde com Weber, Marx, Adorno e Horkheimer é que teremos uma descrição apropriada: a Razão Instrumental.

A forma pela qual a evolução da técnica e da tecnologia sequestra e instrumentaliza nossa razão só pode ser explicada pela condição de possibilidade em que essa técnica ou tecnologia é desenvolvida: o sistema de produção capitalista. Transformamo-nos em sujeitos sujeitados dentro de um sistema de dominação impiedoso que nos distancia (se é que um dia chegamos perto) da ideia de sujeito autônomo pretendido pelos iluministas. Amarramo-nos ao mastro, tal qual Ulisses, para não ouvirmos ou sermos tentados pelo canto das Sereias. E o pior, nos orgulhamos disso e voluntariamente nos auto-reprimimos a favor de atender às necessidades do sistema. O capitalismo não deixa de evidenciar que a vida é dura e que por mais que a civilização tenha evoluído, o sistema é aético, impessoal e implacável. A teologia que se forma por trás das características do sistema nos mostra que só seremos razoavelmente felizes no cumprimento de uma teleologia que nos faça adquirir méritos para, só assim, vencer e gozar a vida chegando à Ítaca:

O caminho da civilização era o da obediência e do trabalho, sobre o qual a satisfação não brilha senão como mera aparência, como beleza destituída de poder. O pensamento de Ulisses, igualmente hostil à sua própria morte e à sua própria felicidade, sabe disso. Ele conhece apenas duas possibilidades de escapar. Uma é a que ele prescreve aos companheiros. Ele tapa seus ouvidos com cera e obriga-os a remar com todas as forças de seus músculos. Quem quiser vencer a provação não deve prestar ouvidos ao chamado sedutor do irrecuperável e só o conseguirá se conseguir não ouvi-lo. Disso a civilização sempre cuidou. Alertas e concentrados, os trabalhadores têm que olhar para frente e esquecer o que foi posto de lado. A tendência que impele à distração, eles têm que se encarniçar em sublimá-la num esforço suplementar. É assim que se tornam práticos. A outra possibilidade é a escolhida pelo próprio Ulisses, o senhor de terras que faz os outros trabalharem para ele. Ele escuta, mas amarrado impotente ao mastro, e quanto maior se torna a sedução, tanto mais fortemente ele se deixa atar, exatamente como, muito depois, os burgueses, que recusavam a si mesmos a felicidade com tanto maior obstinação quanto mais acessível ela se tornava com o aumento de seu poderio. (HORKHEIMER e ADORNO, 1985. P. 22–23)

Não seria exagero comparar esse mastro o qual Ulisses é amarrado por vontade própria aos aparatos burocráticos do trabalho no sistema capitalista. Embora, hoje, o capitalismo se orgulhe de ter engendrado a democracia liberal para sua manutenção, a liberdade econômica tão decantada no liberalismo não parece ser condição suficiente (embora necessária) para a autonomia e, tampouco, a autonomia também não parece ser condição suficiente (embora também necessária) para um pensamento ‘cidadanista’ e preocupado com o bem da humanidade como um todo. O grande paradoxo está no fato de que a razão subjetiva pode alimentar a ideia de liberdade e autonomia e estar circunscrita totalmente sob o cativeiro de uma razão objetiva heteronômica e contrária aos interesses coletivos e sociais do homem.

Reflexões apenas…

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. A Dialética do Esclarecimento — Fragmentos Filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1985.