Sobre os Conflitos da Terra — Raiz Cidadanista

Dorothy Stang (a irmã Dorothy) assassinada em 2005

É com grande pesar que recentes episódios nos fazem lembrar a triste história do assassinato de Dorothy Stang (a irmã Dorothy). No último dia 12/04 esse lastimável fato completou 11 anos. À época, estarrecidos, alimentávamos a esperança que o número de ocorrências que culminou nessa tragédia decaísse em virtude do absurdo e da negligência que ocasionaram não apenas esse desfecho como centenas de outros. Porém, ao longo do tempo, a história contada foi oposta a que gostaríamos de ter construído. O ano de 2015 foi o mais violento dos últimos 12 anos e nesse ano já são contabilizados 13 homicídios e 144 ameaças de morte, segundo a Comissão Pastoral da Terra.

Enquanto isso, condenado a 30 anos dos quais cumpriu cerca de 1 ano e 4 meses, o mandante do crime da irmã Doroty, Wilson Gonçalves Barbosa, está em liberdade aguardando seu recurso ser julgado. Algo que em qualquer mundo pensável seria vivido como uma infeliz exceção, em nossa Amazônia e adjacências se torna historicamente uma regra cotidiana, cruel e desumana. Todo o aparato jurídico e policial cumpre seu papel de proteção aos princípios que regem um sistema predatório e que beneficia sempre o interesse privado em detrimento do coletivo. Em um cenário mundial em que os recursos precisam ser utilizados de maneira sustentável, as estruturas que deveriam cuidar do futuro de nossa gente ainda estão viciadas na manutenção de uma lógica que tinge a terra do sangue dos desassistidos.

Nosso repúdio à injustiça, nossa constrição à dor nas perdas de vidas humanas e humildes e nossa visão ecossocialista nos fazem engajar solidários na luta no campo, participando ativamente da atuação política necessária para a ampliação séria da reforma agrária, do incentivo à economia familiar, da dignidade da vida no campo e da demarcação justa das terras indígenas. Que a ganância e falta de empatia sejam vencidas pela união e pelo amor, com a ajuda da luta cotidiana e enérgica para a construção de um país que olhe seus filhos com o devido respeito e acolhimento.


Originally published at www.raiz.org.br.


Gilberto Miranda Junior é licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano, estudou Ciências Econômicas na Universidade Guarulhos (UnG) e é membro pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia (CEFIL), registrado no CNPQ e ligado à Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

Participa do Círculo de Polinização do RAIZ Movimento Cidadanista, é editor do Zine Filosofando na Penumbra e escreve para as revista Maquiavel, TrendR e Portal Literativo.