Porque eu não devia ter aceitado o mês de assinatura grátis do Netflix

Já vivi essa situação várias vezes, mas a última foi com o Netflix. Todo mundo tinha, todo mundo falava, eu não sentia necessidade nenhuma de usar. Afinal: eu tinha internet, youtube, não precisava de uma plataforma paga para me divertir.

Até que um dia, doente em casa, resolvi aceitar o mês grátis do Netflix. Estava com preguiça de pesquisar coisas para assistir e alguém havia comentado comigo sobre um documentário legal que tinha lá. Eu pensei:

“É de graça, posso cancelar no fim do mês, não vai ter custo nenhum para mim”

Mero engano.

Na primeira utilização, já fiquei um pouco impressionada com a facilidade de uso e como me dava muito menos trabalho para assistir do que os sites gratuitos que eu utilizava. “Lógico — pensei — realmente o pago tem que ser melhor.”

Ao longo do mês, outras coisinhas foram me seduzindo. Achava o máximo que o Netflix guardava o ponto em que eu tinha parado o seriado e me permitia, depois, começar do ponto em que parei. Fui também, com o tempo, descobrindo e me encantando com algumas séries e documentários originais do Netflix. Quando vi, já estava viciada em uma série original e fazendo maratonas de episódios (algo impensável quando você tem que procurar um por um para assistir).

Mas o mês de teste acabou e eu, tentando ser fiel ao que havia me comprometido inicialmente, cancelei a assinatura. Durante duas semanas, contive meu ímpeto de assinar, mas sempre que ia ver algum vídeo ou seriado, pensava como seria mais cômodo entrar na plataforma.

Não demorou muito para eu admitir que o Netflix tinha vencido, que a tática deles tinha funcionado e que agora eu sentia a necessidade realizar a assinatura.

Pense bem: quantas propagandas eu já tinha visto sobre o Netflix? Quantas pessoas já tinham me falado que era bom? Mas, apenas quando eu experimentei o produto que eu fui seduzida pelo que ele entrega. Foi aí que entendi o que diferencia ele dos outros e foi aí que ele me ganhou.

Claro, o Netflix sabe disso. Não é à toa que ele dá um mês grátis. Para o cliente, também não é uma má opção poder testar o produto antes de se comprometer a comprá-lo. Então, onde está o problema?

O problema está quando me disponho a experimentar um produto gratuitamente sem ter qualquer intenção prévia ou necessidade de comprá-lo. Eu me deixo seduzir, acreditando que estou tirando vantagem da empresa, mas, a empresa é que está aproveitando a situação para me vincular a seu produto de uma forma muito mais próxima do que a propaganda, pela experimentação. Claro, pode acontecer de eu experimentar, achar legal e não desenvolver a necessidade de adquirir o produto. Mas, no momento de aceitar algo grátis, eu preciso ter consciência de que existe uma grande chance de eu criar uma nova “necessidade” de consumo para mim.

No caso do Netflix, o estrago financeiro foi relativamente pequeno, mas a experiência foi extremamente útil para que eu fique ainda mais atenta em relação às coisas que são “de graça”. Seja um upgrade para a primeira classe, um corte de cabelo no melhor salão da cidade ou um test drive em um carro muito além da minha realidade financeira, preciso pensar: sabendo que corro o risco de me seduzir por esse produto, estou disposta a inserir esse gasto em minha vida? Se a resposta for não, às vezes é melhor deixar de viver uma experiência do que passar o resto da vida sofrendo por algo que não se pode ter ou no sufoco por se obrigar a viver em um padrão de consumo fora da sua possibilidade.


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