Respeitáveis sonhos

As angústias, as alegrias e a vida fora do picadeiro de uma família circense

A lona principal aguarda o público que em breve lotará as cadeiras para presenciar a magia e emoção do circo (Foto: Alícia Porto)

“Senta aqui. Não, não… na verdade… Bom, tu pode esperar um pouquinho?”, sugere revezando a atenção entre a repórter, a filha e o teclado do celular. “Ele quer as medidas do ombro pra a fantasia da Bela”, diz para a filha e logo se vira para a jornalista, que está ali em busca de respostas: “Tu sabe tirar medidas?”.

A conversa iniciou assim: informal, acolhedora. Simara Radel, 38 anos, é uma dos 12 artistas que dividem o picadeiro do Belíssimo Circo Italiano instalado ao lado do estádio Beira-Rio em Porto Alegre. Junto com Simara vivem suas duas filhas: Taila, de 14 anos, e Tauane, de 12.

A primeira se apresenta com o bambolê, além de encantar a criançada com uma longa trança e fantasia de Elza, personagem da Disney. “Ela tem o sonho de fazer fotografia, só que agora ela tá pegando o gosto pelo picadeiro, então tá deixando o sonho guardado numa gavetinha”, responde a mãe pela filha mais velha. A mais nova, sempre adorou trabalhar nos espetáculos com o show de bonecos e agora treina para se apresentar com a Lira, um acessório em formato de arco derivado do trapézio.

Antes de se descobrir como palhaça, Simara vivia em Nova Prata, interior do Rio Grande do Sul. Quando o circo passou pela sua cidade, foi visitar uma amiga circense. Lá, Simara conheceu um uruguaio acrobata que viria a ser seu marido. O romance durou mais que a estadia da lona em Nova Prata e ela conta: “Ele disse assim ‘A gente vai mais longe. Tu quer ir embora comigo?’ E eu disse sim e assim foi. Faz sete anos isso”.

Quando Simara decidiu seguir o caminho do picadeiro, já havia exercido diversas atividades. “Trabalhei como promoter de banda, de evento, trabalhei em fábrica de móveis, trabalhei em pizzaria. Tudo que é lugar que tu possa imaginar, trabalhei, mas que nem o circo não tem. É uma paixão”, relembra enquanto passa um café em seu trailer. “Eu descobri que era esse mundo que eu queria viver”, complementa. Para ela, ser palhaça é um processo de incorporação de um personagem e de identificação: “Às vezes tu vai perguntar pros outros da Simara e eles não sabem, mas todo mundo sabe quem é a Fofinha”.

Entretanto, essa transição não foi fácil. Ela relata que para entrar nesse meio foi preciso se adaptar a tudo e rápido. “Tu tem que aprender a trabalhar no picadeiro, tu tem que tirar um número, tem que aprender a vender, tem que aprender a lidar com o público e ainda com as pessoas que trabalham contigo”, afirma. Desde essa decisão que mudou a dinâmica da sua vida, Simara já passou por 6 circos diferentes e confessa: “Tem horas que é estressante: não a lona, mas as pessoas”.

Para sua família, a adaptação também foi complicada. “A mais velha chorava o dia inteiro, foi bem difícil”, explica a mãe. “Agora ela começou a gostar, é o amor”, disse a caçula, rindo e se referindo ao namorado da irmã. O genro, Alberto, vem de uma família circense e encerra os espetáculos com o arriscado Globo da Morte. Com sua motocicleta e ambição, ele trilha um caminho para ter o próprio circo.

Alberto já reserva parte de seu dinheiro para esse não tão distante sonho.“Se a pessoa tem estrutura e guarda o dinheiro em um ano ela consegue ter o que quiser”, revela Simara. Todos os integrantes que trabalham no picadeiro recebem semanalmente por número apresentado no espetáculo. Além dessa renda, a maior parte das famílias que ali vivem também administra uma banca de venda de lanches. As comidas são comercializadas nos intervalos, tanto na área reservada para as barracas, quanto dentro da lona levada pelos circenses. Desse valor arrecadado, metade vai para o dono do circo e o restante complementa a renda dos trabalhadores.

“Com o dinheiro, tem gente que investe em lanche, comida, outras compram roupas”, releva Simara, direcionando um sarcástico olhar materno para as filhas. “Tem outras que guardam no banco, montam a casa”, acrescenta, com um sorriso que denuncia o destino de seu próprio dinheiro. Há quatro meses ela se separou do ex-marido e agora cuida sozinha das filhas e de sua casa. “Eu tô sendo a mãe, o pai, a administradora da casa, tudo! Então o que ganho procuro investir aqui”, relata.

Há seis meses, a família de Simara enfrentou um grande obstáculo. As três, que viviam em um ônibus espaçoso para a família não tão grande, tiveram sua casa confiscada pela Prefeitura de Porto Alegre. Por algum tempo, Fofinha e suas filhas se acomodaram na carreta moradia do circo com o restante da trupe, mas Simara em três meses conseguiu um novo trailer para elas.

A mudança de um ônibus para um trailer estruturado para ser uma lanchonete não foi fácil. “Em uma semana tivemos que mudar tudo; quando ele chegou era tudo aberto, cheio de furo. Foi o que tínhamos condições de comprar naquela hora”, conta sobre a perda inesperada. “A gente já tinha uma vida toda estruturada e teve que começar do zero. Tem que aprender a viver num espaço menor, de um jeito diferente”, admite ela.

Simara também lembra de um período em que se afastou do circo. Há dois anos, ela e as filhas passaram um tempo longe do picadeiro, mas a alma circense se fez presente até na vida da cidade. “Não consegui ficar sem trabalhar com coisa de circo. Entrei em contato com as escolas e fazia show como palhaça nos colégios”, revela. “Quem é de circo não consegue ficar preso numa firma. Passarinho que é criado solto não fica em gaiola. O povo do circo é assim”.

Além das dificuldades pessoais, Simara expõe as desventuras que o Circo enfrenta atualmente. “No começo era tudo melhor, a economia tava melhor. O valor que cobramos hoje nos nossos ingressos, eram valores cobrados por circos grandes”, exemplifica. A palhaça ainda comenta que acredita que as pessoas não se interessam mais pelo circo, pelo teatro, pelos museus. “Só ficam na televisão, videogame, dentro de casa ou vão no cinema”, declara.

A diminuição do entusiasmo do público não é o único entrave enfrentado pelos circos, eles ainda encaram obstáculos burocráticos na sua trajetória. Alex Silva, antigo dono de bar, hoje é secretário do circo. Com o celular sempre à mão e fazendo pausas entre as perguntas para responder mensagens do público no Whatsapp, ele explica: “Não existe apoio para os circos aqui. O máximo que fazem, como agora, é a prefeitura ceder o terreno e olhe lá”. Mesmo com todos impostos e taxas pagas ele reclama: “Ficamos sete dias sem água, eles cobraram, mas não queriam ceder. Nossa sorte foi que a Praiana nos cedeu a água por um valor mensal”, diz o secretário, se referindo à academia de samba vizinha.

As dificuldades vividas pelos circos são reconhecidas por quem estuda o fenômeno do circo no Brasil. Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo, destaca que a lona vive verdadeiros milagres: pouco apoio de políticas culturais que disponibiliza verbas baixas em seus editais, os quais tem pouco espaço pro circo. “É a última atividade teatral que vive apenas da bilheteria”, sinaliza.

Simara descreve que um espetáculo dividido entre números circenses e shows de bonecos é uma das alternativas que o circo adota para permanecer espalhando sua magia. “O circo se adapta para poder sobreviver. Há seis anos o show do momento era a galinha pintadinha. Eram todos os números tradicionais e por último a galinha”, revela. Apesar de terem de abrir mais espaço para apresentações que não são tradicionais, ela é otimista: “quem vai pra ver os bonecos acaba vendo os números tradicionais e se encanta. Uma coisa puxa para a outra”, conclui.

O circo conta com 27 integrantes, incluindo três crianças de até 5 anos. A dinâmica interna se dá como se fossem membros de uma família. De acordo com Verônica, a família está arraigada no circo, não é uma questão de circo tradicional com uma estrutura familiar. “A maioria nasceu no circo. Nós que não, o resto é nascido e criado no circo. Quando entrei só tinha a família do meu ex-marido de fora. Quem fazia trapézio era o filho do dono, quem fazia palhaço era o dono, quem fazia contorção era a neta do dono; então, tudo era alí”, ilustra Simara.

Contudo, mesmo o circo se organizando assim, os integrantes explicam que só se encontram de verdade na hora do espetáculo. Simara aponta que cada um tem a sua rotina: “Há quem durma até às duas da tarde, há quem acorda bem cedo pra tomar chimarrão. A única obrigação aqui é tá às 7 e meia lá”. Essa dedicação é perceptível nas várias surpresas proporcionadas no palco.

“DES. PA. CI. TO. Quiero respirar tu cuello despacito”, tocavam os altofalantes dentro da lona do circo. Três escolas diferentes levavam seus alunos para apreciar o encanto das atrações circenses. O picadeiro estava cercado por centenas de crianças dançando animadamente a coreografia da música. O volume vai diminuindo, e os gritos da criançada são cortados pelo anúncio do início do espetáculo. Entre fumaças roxas e luzes rosadas, surge o palhaço, deixando todos eufóricos.

Com um apito na boca e um bambolê no braço direito, ele vai sinalizando o que fará em seu número e gesticula pedindo por um assistente. Na platéia, uma chuva de mãos e clamores. A atmosfera é de pura magia e diversão. “Tem palhaço que faz rir sem abrir a boca. Antigamente era só piada, agora só com buzinas e barulhos eles fazem gargalhar”, explica Simara.

Entretanto, a emoção não está só nos espectadores. A palhaça, com os olhos marejados, fala da alegria de se apresentar: “É gratificante quando começo a me maquiar, quando tô em cima do palco, quando vem aquela criança e te abraça e diz ‘tu é linda, eu te amo’. Quando tu encanta as pessoas”.

Apesar da comoção e alegria expressa nos sorrisos das crianças que saíam em fila da área das apresentações, por vezes o contato com os circenses não é tão tranquilo. Como já elucidava Erminia Silva e Luís Alberto de Abreu, no livro Respeitável público… O circo em cena, existe uma relação paradoxal estabelecida muitas vezes entre os artistas e seu público; em que ao mesmo tempo que os espectadores garantem a sobrevivência do circo, buscando lá o fascínio e a mágica do espetáculo, eles rejeitam socialmente essa classe de circenses.

“Eles acham que a gente é um bando de ciganos, acham que a gente é um bando de pobres coitados”, fala Simara, com indignação. Ela expõe que a opinião comum acredita que eles vivem em uma estrutura muito mais precária que a realidade. “Eles acham não temos banheiro, que não temos água encanada, que todo mundo come e dorme junto”. “E dorme dentro do circo de baixo da lona no picadeiro!”, acrescenta Tauane.

Os artistas de circo de pequeno porte ainda têm de enfrentar alguns preconceitos da sociedade. Com um estilo de vida diferente, são muitas vezes julgados e incompreendidos pelo público da cidade. Porém, a palhaça declara que amadureceu durante os anos de seu trabalho e hoje não tem vergonha alguma de dizer que é circense, pelo contrário: se orgulha e sonha com um sucesso ainda maior para suas filhas.

Simara desabafa que é impossível para um circo pequeno ter números como o Cirque du Soleil. “Para eles aprenderem e atingirem a perfeição tem seis, oito horas de ensaio por dia. Os circos de pequeno porte não podem fazer isso”. Além de treinar para seus espetáculos os artistas como a palhaça precisam reservar tempo para suas vendas de lanches, cuidar da sua casa e de seus filhos. Contudo, mesmo reconhecendo suas limitações, a mãe defende que assim como as filhas devem se esforçar para ter uma educação formal, ela também cobra o aperfeiçoamento de suas meninas no circo.

Taila agora aprende tecido para tentar uma contratação em mais esse número. Já Tauane busca aprender Lira que é seu sonho. Simara é simpática, dura, brincalhona e exigente. O que não se pode negar é toda a dedicação que ela tem por suas meninas. “Eu era uma adolescente cheia de sonhos, vivia no mundo da lua. Com 38 anos e vivendo no mundo da lua. Agora, de dois meses para cá… a realidade bateu tão forte na minha cara que tudo que eu quero é ver elas formadas, cuidar da parte financeira delas e ver elas bem. Coração, mente e saúde. Conseguir realizar os sonhos delas pra mim já tá ótimo! Perdi uma filha com 22 anos. Então tudo que quero é ver elas elas felizes”, encerra, emocionada.

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