Cisão da NOS acusa Machado de ter “quebrado” a organização e de ser “tirano”
Notícia

Mário Machado suspendeu a Nova Ordem Social (NOS) e o mais provável é a decisão por si anunciada ser a morte camuflada da organização por si fundada em 2014. O líder neonazi argumentou que tomou a decisão por ninguém estar “disponível” para o “substituir na liderança”, mas a recém-formada cisão da NOS argumenta que Machado se viu isolado por “TODOS os militantes que faziam parte do núcleo mais fechado do movimento” o terem abandonado.
“A coluna vertebral do movimento quebrou, isolando Mário Machado na liderança a que sempre se habituou”, lê-se no comunicado emitido pela nova organização que dá pelo nome de Nova Legião Portuguesa. “Os portugueses conhecem bem a tirania de Mário Machado, mas os portugueses ainda não sabem que Mário Machado destruiu o seu próprio movimento”.
O grupo já possui um website, onde vende t-shirts com o seu logótipo, e deixa bem clara a sua inspiração: a Legião Portuguesa formada no Estado Novo do ditador Oliveira de Salazar. “A Nova Legião Portuguesa (NLP) constituiu uma organização nacional, integrando na nova milícia, que renasce em portugal baseando-se na antiga Legião Portuguesa ( LP)”, lê-se no seu website.
A página de Facebook do novo grupo foi criada a 7 de Outubro de 2019 e tinha, até à última consulta do FlashBack, 255 gostos. As suas publicações resumem-se à partilha de notícias que reforçam as suas narrativas de extrema-direita, de vídeos históricos sobre a Legião Portuguesa e do comunicado. E a página está a ser partilhada em grupos de Facebook afectos à extrema-direita.
Os membros da cisão não são suaves nas críticas ao ex-dirigente da Frente Nacional e acusam-no de “endereçar mensagens e telefonemas de cariz ameaçador aos membros que se demitiram” dos órgãos do grupo que quis ser partido e nunca o foi. Além disso, acusam-no de ter organizado a conferência neonazi de 10 de Agosto sob “várias suspeitas de burla perante os seus activistas”.
“A mais recente prova indicadora da destruição da estrutura da NOS e do ex-líder dos skinheads [boneheads], pode também ser conferida, na última acção da NOS, no passado sábado, junto aos escritórios da ACCENTURE, onde apenas o próprio não conseguiu movimentar mais que dois activistas, sendo que os mesmos nem em Portugal habitam”, acusam os membros da cisão, cujo número de integrantes se desconhece. Sabe-se, no entanto, que o grupo de Machado era bastante reduzido e que a conferência neonazi de 10 de Agosto teve 70 participantes.
Um dos integrantes da cisão é um até recentemente membro da NOS que dá pelo nome de Nuninho Gomes no Facebook e que, numa publicação irada, teceu duras críticas a Machado, que conheceu em 2004. “É o presidente que o vai destruindo, com os seus jogos e artimanhas… qualquer pessoa que tenha olhos na cara e que esteja mais ou menos dentro do “núcleo duro” do movimento sabe o que falo!!!”, escreveu. “’Os lobos não usam coleira’, tem razão presidente mas essa frase nem devia ser usada por si”.
“E a conferência presidente? O que tem a dizer sobre a conferência? Apenas queremos a verdade presidente, sabe ser verdadeiro? Duvido!!! Nem líder sabe ser, nem sequer sabe o que é liderança!!!”, continuou Gomes, referindo ter pensado “que uma dezena de anos de ‘férias’ lhe tinham feito mudar esse carácter… mas não, até piorou bastante!”. As férias são em referência aos dez anos que Machado passou na cadeia por vários crimes graves.
O estalar do verniz
O grupo emitiu o comunicado na sequência da publicação de um vídeo no YouTube em que Machado revela o seu abandono da liderança — já o tinha dado a entender na conferência — e a suspensão da organização por falta de pessoas que queiram tomar em mãos a liderança da organização nacionalista étnica.
“O grupo de pessoas a quem eu dei palco, a quem dei algum protagonismo, até para que pudessem assumir a liderança, não estão disponíveis, por motivos pessoais, ou por acharem, em alguns casos, que não são capazes de assumir essa liderança”, disse o líder neonazi condenado pela Justiça portuguesa por vários crimes graves.
Como não estava disposto a permanecer na liderança, continuou, não teve “outra alternativa” que não suspender a organização por vários membros lhe terem garantido que abandonariam a NOS se ele saísse. Para os membros da cisão, foi uma clara estratégia de ofuscar a realidade: ficou sozinho e não tinha outra alternativa que decretar a morte da NOS com uma alegada suspensão.
Machado também argumentou a favor da suspensão que não o é com o surgir do Chega e a eleição de André Ventura para a Assembleia da República. “NOS, o PNR e o Chega a concorrer praticamente na mesma área seria contraproducente. Não faz sentido nenhum”, disse no vídeo.
Como os velhos ódios resistem a desaparecer, o líder neonazi não deixou escapar a oportunidade de esgrimir contra o Partido Nacional Renovador (PNR), ao qual em tempos pertenceu e foi dirigente. “Esse partido foi um autêntico dizimador de outro partido que já existia mais ou menos na nossa área”, disse. Esse partido foi o Chega: “apareceu um partido novo que, apesar não ter a mesma linha ideológica do NOS e grande parte das suas ideias”.
O PNR, por muito tempo a principal força eleitoral de extrema-direita no país, sofreu uma avassaladora derrota nas últimas legislativas. Caiu dos 27.269 votos para os 15.272, ou seja, dos 0,50%, conquistados em 2015, para os 0,30% — perdeu 11.997 votos (40%). Em poucos meses, o Chega destruiu o trabalho que o PNR vinha a desenvolver desde a sua fundação, em 2000.
O frágil verniz na discórdia com Machado estalou no penúltimo evento da NOS em Guimarães, dizem os membros da cisão. “Mário Machado apresentou-se com uma postura fragilizada perante os seus militantes, tendo mesmo havido desacatos onde a violência imperou, deixando um rasto de destruição no local do evento. Existem relatos, em que militantes foram agredidos”, continuam no comunicado.
A NOS nunca ultrapassou as poucas dezenas de membros, não tinha grande capacidade de mobilização nas ruas e não podia concorrer a eleições por ter sido incapaz de recolher as 7500 assinaturas legais necessárias para legalizar o partido no Tribunal Constitucional. Organizou algumas manifestações — contra a Maçonaria, por exemplo — e acções “solidárias” apenas para portugueses, à semelhança da grega Aurora Dourada, no qual se inspirou.
A última acção do grupo foi um protesto contra o que dizem ser actos de censura nas redes sociais pela Accenture, onde, em frente ao edifício, queimaram uma bandeira da empresa detida por Mark Zuckerberg. Estiveram presentes seis pessoas, pelo que o FlashBack constatou pelas fotografias disponíveis no blogue da NOS. A cisão refere apenas duas pessoas no seu comunicado.

Esta cisão e o fim da NOS vêm aprofundar as divergências no seio da extrema-direita mais agressiva, uma vez que Machado já tinha rompido com os Portugal Hammerskins e viu nesta organização a sua mais recente oportunidade de singrar na política nacional. Machado está ainda mais isolado e tudo indica que não passa de um zombie político.
Há alguns meses, Machado, que tinha criado um chapter (filial) dos Los Bandidos, perdeu o apoio dos motards ligados à criminalidade organizada depois de um ataque dos Hells Angels ao restaurante do seu irmão em Loures. O líder de extrema-direita refugiou-se na casa de banho e quem estava consigo foi brutalmente espancado, entre os quais pelo menos uma pessoa dos Los Bandidos. O gangue de motards tirou-lhe o apoio pouco depois.
“Os Los Bandidos retiraram-lhe o apoio. Machado ainda foi ao estrangeiro tentar convencê-los que seria um bom líder, mas não teve sorte”, disse uma fonte policial ao Expresso.
Agora ainda mais isolado está.
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