Flor de Sal — Memórias de um Hedonista — Livro I — Capítulo 12

O ANATOMISTA

Tive uma iniciação sexual que poderíamos classificar como normal. Comecei como todo garoto de quatorze ou quinze anos, da minha época: com uma prostituta.

Lembro-me vagamente da experiente dama da noite, que eu não saberia precisar a idade, mas lembro-me que a dona era, quase, uma anciã (é engraçado, mas quando temos quinze anos, o mundo todo nos parece à beira da morte).

Desprovida de autoestima e de alguns dentes, essa boa senhora me iniciou sexualmente em um puteiro fétido e sórdido da Rua Senador Dantas.

Cenário perfeito para Nelson Rodrigues: “O desejo é sempre triste e sofre do tédio melancólico da carne”.

Minha iniciação sexual não foi exatamente romântica, carinhosa ou ao menos didática.

Ao contrário.

Foi direto ao ponto, sem firulas.

Mas, logo depois eu viveria uma outra experiência, um pouco mais (como direi?) sensível, embora, ainda assim, bastante peculiar.


Rosilene era uma mulher bem torneada, carnuda, seios grandes, profundos, volumosos e cabelos castanhos encaracolados (naquela época ainda encontrávamos mulheres com cabelos encaracolados. Hoje em dia, é algo muito raro, e por isso mesmo, algo como um fetiche para mim).

Rosilene possuía quadris largos e uma bunda grande, muito grande mesmo… enorme. Ela era dona, só para frisar, de uma bonita e avantajada e bem desenhada retaguarda. Porém havia um detalhe que diferenciava sua bela bunda das demais: uma profunda falha na banda esquerda daquela escultura calipígia. Ela me confidenciaria mais tarde que, ainda adolescente, havia sido atingida na região glútea por uma prancha de surfe desgovernada. O que a levou a ganhar vários pontos na bunda que se transformariam algum tempo depois, por problemas de cicatrização, em um buraco profundo.

Mas, ainda assim (ou talvez por isso mesmo), sua região glútea me enchia os olhos — e as mãos — para um garoto franzino como eu fui e, ainda, iniciante nas artes do amor, era o céu na terra.

Havia, com certeza, uma certa dose da teoria dos opostos.

Desde criança eu fui muito magro, magérrimo como um bambu.

Todos os meus apelidos faziam referência à minha magreza excessiva, que sempre era perversamente confundida com desnutrição, pelos garotos da escola.

Não me lembro muito bem de como nos conhecemos.

Certamente amigos em comum, do colégio ou do bairro, coisa assim.

Mas, lembro bem de que Rosilene tinha uma amiga com um perfil idêntico ao seu: corpulenta e de quadris largos.

A única diferença entre as duas era que sua amiga tinha os cabelos loiros, porém igualmente encaracolados (talvez fosse esse o padrão de beleza da daquela década de oitenta: corpos naturalmente carnudos e redondos, como as mulheres de Botero, e cabelos, também, naturalmente encaracolados).

Rezava a lenda que as duas se “pegavam”.

Mas, isso é um detalhe.

O fato é que as duas eram um pouco mais velhas do que nós (tipo vinte e oito anos) e, talvez por isso, faziam um sucesso enorme em meu colégio, com adolescentes com algo em torno de dezesseis, dezessete anos.

As mulheres de Botero iniciaram muitos garotos do meu colégio nos prazeres da carne.

Revezávamos-nos feito abelhas no mel até, claro, eu me apaixonar por Rosilene — sempre tive certa tendência a confundir sexo com amor (o que se revelaria, anos depois, um padrão emocional).

Tornei-me escravo sexual de Rosilene.

Porém, nossa relação se resumia ao sexo oral.

Eu passava horas lambendo Rosilene.

Lambia, lambia, até não poder mais.

Rosilene me convenceu de que sexo era sinônimo de um sessenta e nove bem feito, mas a verdade é que ela não gostava, mesmo, de penetração.

De jeito nenhum.

Com o tempo, eu deixei de tentar penetrá-la, e o sexo oral passou, também, a me saciar completamente.

Eu realmente adorava me esvair de prazer em sua boca.

E Rosilene bebia, sorrindo, todo o meu néctar, não deixando escapar nenhuma gota.

Eu, por minha conta, lembro-me de que ficava uns três ou quatro dias sem comer sal, pois o estado de minha língua pós uma noite tórrida de sexo (oral) era sempre lastimável.

Era uma troca, mais ou menos, justa.

Meus hormônios estavam transbordando e eu precisava descarregá-los, e ela precisava de um escravo sexual para satisfazê-la dia e noite, somente com a língua e a boca.

Satisfazer Rosilene passou a ser minha razão de viver, uma compulsão.

Eu me esforçava muito para nunca correr o risco de parar de me esvair em seus lábios carnudos.

Acreditei, com o tempo, que eu havia nascido, apenas, para aquela função: lamber a nesga vermelha escondida entre as pernas de Rosilene até não aguentar mais.

Levei algum tempo até aprender (ou me lembrar) de que sexo incluía, também, penetração.

Um dia Rosilene me contou o motivo do sua total ojeriza por penetração.

Quando criança, aos oito anos mais ou menos, ela foi a um passeio na escola naval e ao descer de um escorregador não percebeu que ao final havia um pino de ferro e bateu, de pernas abertas, naquele objeto sólido que não deveria estar ali.

Ela me contou, chorando como uma crinaça, a dor lancinante que sentiu em seu sexo e em sua dignidade infantil.

Ficou, obviamente, traumatizada, passando longe de qualquer tipo de penetração vaginal.

Infelizmente (para mim) nem o sexo anal era uma opção para Rosilene.

Por tudo isso, ela se dizia uma mulher limitada.

Eu pensava, àquela altura de minha vida, que para mim estava bem.

Naquele tempo eu me contentava em penetrar, apenas, a sua boca.

Certa feita, em uma viagem de Carnaval a Cabo Frio, alugamos com alguns amigos uma casa perto da praia.

Como era muita gente e a casa estava sempre superlotada, eu e Rosilene fomos passar a noite acampados na praia, para saciar nosso desejo constante.

Foi complicada a vida de escravo sexual oral naquela praia de Cabo Frio com tanto sal, vento e areia na cara, viu?

E para completar, ainda choveu a noite inteira.

Enquanto eu a sorvia — e era sorvido por ela — levávamos chicotadas de vento com areia e sal por todo o corpo.

A partir daí nunca mais acampei em toda minha vida.

Peguei trauma.

Mas, mesmo assim, não deixei de dar prazer oral à Rosilene.

Eu, moleque franzino, tirava onda com Rosilene à tiracolo.

Nossa relação durou um bom tempo.

Afastamo-nos quando comecei a me relacionar com Andressa, e voltamos a nos reaproximar quando me separei dela. Porém, à esta altura, o truque já não funcionava mais. A mágica havia acabado. Não era culpa de ninguém. O fato é que nós dois havíamos mudado, eu muito mais do que ela, pois eu já havia descoberto a verdadeira função do pênis.

Andressa, ensinou-me várias coisas que Rosilene não sabia — ou não queria — me ensinar, por não gostar de penetração.

Andressa era o estágio seguinte do jogo perverso do amor.

Com ela eu me sentia aninhado, de volta ao útero materno.

Andressa me esquentou com sua vagina quente e úmida, enquanto Rosilene só tinha a boca para me aquecer.

O sexo com Andressa era como se eu pudesse, finalmente, comer a minha própria mãe (freudianamente falando, é claro).

Talvez, por conta disso, nossa relação tenha sido tão intensa.

Andressa me elevou ao nível máximo do jogo do amor.

Ela tirou–me os pudores que me restavam, arrancou-me os nojinhos de playboy, filhinho de mamãe.

Andressa apresentou-me à sujeira do sexo.

Com ela eu tive penetração em todos os sentidos e em todos os buracos.

Houve um dia em que, ao me chupar, Andressa enfiou seu dedo anular — com uma unha extremamente grande, pintada de vermelho, e um anel enorme — em meu cu.

E, ficou ali, cutucando, rodando fundo, até que meu sangue — tão vermelho quanto seu esmalte — escorresse por todo o seu dedo e mão.

Ao mesmo tempo em que sangrava pelo cu, eu descarregava todo o meu líquido precioso em sua boca, esvaindo-me em um jorro enorme de porra.

Meu sangue escorria por entre seus dedos e eu gozando alucinadamente, como se não houvesse amanhã.

Traumatizei, é claro.

Depois disso, mesmo que eu quisesse virar veado, eu não conseguiria dar o cu.

Eu seria um veado igualmente limitado, como Rosilene.

Andressa deixava que eu a enrabasse e a cavalgasse como se ela fosse um animal a ser domado.

Os últimos meses de gravidez, quando, quase, nenhuma outra posição sexual nos era mais possível, a não ser o sexo country, foi uma loucura.

Andressa, sim, era uma mulher completinha.

Mas, apesar de todas as suas limitações, guardo boas lembranças de Rosilene.

Naquela época, assim como os cabelos encaracolados não era algo em extinção, também não havia tanta preocupação estética e com alimentação saudável.

E como o sexo tem tudo a ver com comida, também faz parte de minhas lembranças sexuais o fato de Rosilene não ser uma mulher de saladinhas.

Rosilene era uma mulher de muitos talheres.

Na verdade ela comia feito um pedreiro.

Em sua cabeça, a beleza recebida por Deus, não puderia ser tirada por mais ninguém, a não ser o Todo Poderoso.

Talvez Rosilene realmente acreditasse que nem mesmo ela conseguiria destruir sua beleza física.

É fato que era uma época em que a beleza feminina era medida pela quantidade de carne que uma mulher conseguia acumular em seu corpo, sem perder as curvas.

Mas, esta falta de critério gastronômico deve ter lhe custado muito caro.

Hoje em dia, se estiver viva, ela deve sofrer de obesidade, diabetes e pressão alta, coisas assim, derivadas da falta de cuidado alimentar.

Mas, naquela época — ah, aquela época — tudo era um grande foda-se.

Vivíamos como personagens inconsequentes, sem preocupações com a moda, hábitos, cintos de seguranças ou lei seca.

Vivíamos sem a neurose atual da onda do ‘politicamente correto’ — essa bizarra e angustiante palhaçada institucionalizada de padronização fascista de comportamentos, do autoritarismo da regulação de normas de conduta e receituários de como se viver.

Se Rosilene tiver acabado com a sua saúde em função da anarquia gastronômica daquela época, ao menos ela ainda poderá morrer tranquila, sabendo que viveu bem sua juventude, pois teve o prazer de comer de tudo e iniciou sexualmente vários adolescentes, inclusive eu, seu eterno discípulo.

Orgulho-me de ter sido um de seus melhores alunos em sexo oral — isso dito por ela mesma.

Pensando bem… talvez eu fosse, na verdade, apenas mais um escravo sexual dela.

Tudo bem, também.

Pouco me importa, agora.

Minha medalha de ouro olímpica me foi dada por ela — e nunca mais me será tirada do peito — pelo meu desempenho singular (meu e de minha língua, que vivia constantemente esfolada e feliz como eu) no sexo oral.

Eu me orgulho mesmo de ter sido escravo sexual de Rosilene.

Devo muito àquela mulher, que foi o primeiro alvo de minha compulsão oral.

Naquela época o que eu queria mesmo era lamber sua boceta o dia todo, a toda hora, e ouvir sua voz rouca em meu ouvido, enquanto eu me contorcia em sua boca, aos seus comandos, feito uma cobra hipnotizada.

Porém Foucault, parafraseando Hegel, ensinou-nos que:

“A dialética mestre-escravo é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo poder porque cessou de exercê-lo”.

Ainda sobre isso, outro dia, li num livro que o único órgão capaz de fazer uma mulher apaixonar-se, de fato, é o clitóris.

E o tal livro provava sua tese por ‘A+B’.

‘O Anatomista’ era o seu nome, se não me engano, mas o nome do autor não vou me lembrar mesmo.

Fiquei ainda mais orgulhoso e grato à Rosilene, pela minha iniciação quando li essa tese tão detalhada sobre o poder mágico do clitóris.

Um dos méritos de Rosilene foi me tornar um pouco menos egoísta — sexualmente falando — do que a maioria dos homens.

Até hoje primo em dar prazer primeiro à mulher.

Não penso logo em espalhar minhas sementes, como todo macho.

Claro que depois aprendi que sexo também inclui penetração, mas Rosilene me ensinou que sexo não é (apenas) ‘nervo duro no buraco escuro’.

Ela foi a minha primeira Kamala e me ensinou que sexo também pode ser esporte, mas sempre praticado de forma amorosa.

O sexo não é um esporte de competição pura e simples como uma partida de tênis.

Não!

Rosilene me ensinou que o sexo precisa se assemelhar ao frescobol, onde o esforço dos parceiros é recompensado com um prazer mútuo, sem ganhadores ou perdedores.

Tenho certa saudade melancólica do tempo de minha escravidão sexual à Rosilene.

Mas, a sexualidade feminina também mudou muito desde aquela época.

Hoje em dia, as mulheres desejam, tanto quanto os homens, uma penetração violenta e um orgasmo rápido.

O fato é que o sexo oral perdeu o seu valor de mercado.

Virou algo como a demonstração da opressão masculina na cultura machista em que vivemos.

Apesar disso, sigo a cartilha de Rosilene, sem me importar muito com as mudanças culturais atuais.

Mas, é fato que hoje em dia só mesmo as lésbicas parecem dar valor ao sexo oral.

Graças à Rosilene, eu tenho um capital erótico diferenciado — peço perdão, diante mão, pela cafonice verbal… por que será que ninguém mais usa a palavra ‘diferente’?

É realmente ma pena o sexo oral não ser mais tão valorizado assim.

Mas, tudo bem.

Como eu mesmo já disse: os tempos são outros.

Infelizmente, também, não existem mais hoje em dia, mulheres tão organicamente calipígias, bem torneadas e naturalmente carnudas — e com as inconsequências gastronômicas –, como as de antigamente.

As mulheres estão com corpos de estivadores anabolizados, e parecem mais afeitas às folhinhas de alface e aos suplementos alimentares, do que nos acompanhar em uma boa feijoada.

Aqui cabe mais um aviso do filósofo Pondé: “Ser demasiadamente saudável depõe contra você”.

Talvez Rosilene fosse mesmo uma anomalia feminina, um ponto fora da curva, um personagem datado; com quem eu tive a sorte de compartilhar memoráveis momentos de prazer.

De qualquer forma, eu sou mais capacitado a dar prazer às mulheres em geral, graças a ela.

Mesmo que um dia, de uma hora para outra, eu fique irreversivelmente impotente, ainda poderei usar a língua como órgão sexual.

E devo esse poder à minha grande mestra, que tanto me ensinou sobre os desígnios orais do prazer.

Nunca, na minha vida, me esquecerei de que fui (e para sempre serei), um dos melhores alunos da turma-do-lambe-lambe da ‘tiaRosilene.