Flor de Sal — Memórias de um Hedonista — Livro I — Capítulo 4

O TÉDIO

De qualquer forma eis aqui, de pronto revelado — e que fique somente entre nós — a principal causa de minha total falta de adequação ao nosso sistema social: o tédio. Para Oscar Wilde: “Eis o único pecado para o qual não há perdão”.

Vez por outra, quando ainda consigo forças para estabelecer algum tipo de contato interpessoal, deparo-me com o tédio bem no meio de alguma tentativa sincera de troca intelectual com um outro ser humano. Essa interação fluida que está acontecendo agora entre nós, neste exato momento, é um fato extremamente raro para mim. Talvez você não me cause desconforto algum por possuir a paciência de um monge tibetano para ouvir e um ego do tamanho de uma noz. Você é de fato um ótimo ouvinte e minha própria voz não me causa desconforto algum. Modéstia à parte, gosto do som de minha própria voz.

Quase sempre, independente do quão interessante possa ser meu interlocutor, fantasio partir grosseiramente, sem ao menos me despedir do incauto. Ultimamente tenho me percebido mais antissocial do que nunca.

As pessoas estão tão presas ao seu próprio ego que me causam um imenso tédio. Estamos todos sempre querendo chamar a atenção para nossas vidas apequenadas e nossas mazelas mesquinhas. Desejamos falar sem parar de nossos próprios umbigos, na vã tentativa de provar que somos melhores do que os demais. Quase todos nós vivemos em busca de ouvidos atentos, de aceitação, por pura carência afetiva. Sei que é exatamente isso que eu estou fazendo com você, agora, neste exato momento. Mas, tenho a dizer em minha defesa que minha carência momentânea tem como único objetivo a salvação de almas.

Mas, você terá que se comprometer em divulgar tudo o que está sendo dito aqui, está me ouvindo? Troque alguns nomes e terá uma história bem interessante, mas deixe o mundo saber que existem outras pessoas que, como elas, sofrem com o tédio, na ilusória busca de fugir de suas próprias angústias.

Mas, voltando ao assunto…

Sempre penso em abandonar meu interlocutor de uma forma abrupta. Se a pessoa for desinteressante então, entro em pânico, perco o norte. Corro o risco de quebrar todos os cristais de elegância durante um repentino surto psicótico e antissocial.

Ultimamente tenho utilizado um jogo intelectual que eu mesmo inventei, para resistir a este impulso perverso: vomito impropérios para o meu interlocutor, defendendo o vazio de forma incisiva, debato o sexo dos anjos de forma insistentemente retórica — eu diria até mesmo inconsequente, para tirar o meu inseguro interlocutor de sua impostura intelectual. A partir daí é só observar a postura do farsante e contra-atacar com mais uma tergiversação deliberada e insidiosa.

Mas, não faço isso por maldade ou implicância, apenas.

Antes, o faço por puro tédio.

Às vezes erro na dose, é claro, e capitulo: “O remorso é no moral o que a dor é no físico: advertência de desordens que se deve reparar.”, essa é do Marquês de Maricá.


Talvez tudo o que eu tenha feito até hoje — se é que fiz alguma coisa em minha medíocre vida — , tenha sido com o objetivo de me livrar de um tédio lancinante, que me persegue e me carcome ao longo de toda a minha curta existência.

“Reflita sobre os pecados que não cometeu e que gostaria de ter cometido. Isso poderá, eventualmente, curá-lo dos seus sentimentos de culpa”, Yung.

A constatação disso, é que não consegui me manter em emprego algum ou me interessar de verdade, por nada, de forma permanente em função, acho eu, dos contornos inconfessáveis de minha alma, em função do tédio mais absoluto.

Mas, tudo bem.

“A ética do trabalho é a ética dos escravos e o mundo moderno não precisa mais de escravos.”, já dizia Bertrand Russel.

Espero não estar te aborrecendo com esta minha tara por citações.

De qualquer forma, reitero que tentarei me segurar.

Talvez essa coisa de citações seja apenas mais um de meus truques contra o tédio, pensando bem.

E talvez (quem sabe?), por causa da presunção de tédio que eu tenha insistentemente me arriscado ao fracasso e feito tantas coisas fora do padrão do que se convencionou chamar, ou normalidade.

Normalidade?

Mas, o que eu estou dizendo?

O que é essa porra de normalidade?

Foda-se a normalidade.

“Ser normal é a meta dos fracassados.”, Carl Gustav Jung.

Desculpa novamente, mas não consegui me segurar. Quando fico muito irritado, essa coisa toda de frases em minha cabeça fica ainda mais compulsiva.

Permita-me só mais uma para relaxar: “Frequentemente um homem é considerado como um homem de bom senso apenas porque ele não tem talento.”, Henry Taylor.

O fato é que prefiro ser quem eu sou a vender a minha alma ao diabo, ou ao sistema — que talvez sejam, como pensam alguns, a mesma merda.

Mas, como eu ia dizendo?


É fato que eu não sei realmente manter uma conversa superficialmente rasa, social apenas. Parto logo para um ataque verbal furioso contra o meu interlocutor desavisado, tocando em feridas expostas que (muito provavelmente) nem mesmo ele sabia que as possuísse, mas que eu sou capaz de identificar em poucos segundos. Na sequencia, começo a falar barbaridades para estudar o impacto de minhas rudes e inesperadas palavras na alma daquele pobre representante dos bancários adestrados pelo sistema.

É um jogo interessante, intelectualmente estimulante e extremamente excitante. Não só mentalmente, mas fisicamente também. Dependendo do grau do entrevero mental chego até mesmo a ficar, literalmente, de pau duro… imagina?

Mas, infelizmente, não é algo simples de se tentar.

É por demais desgastante e perigoso (o que só aumenta o meu prazer).

É um jogo arriscado, que requer prática, autoconhecimento e habilidade mental.

Mas, mesmo arriscado (ou talvez exatamente por isso), aplaca temporariamente o meu tédio, como se fosse uma baforada de crack.

Porém, tal proeza, exige (ou desenvolve… tenho dúvidas se não é uma habilidade inata) um grande senso de observação da alma humana.

É sabido que apenas cinco por cento da comunicação humana é verbal, o resto vem da sonoridade de uma voz, o odor suave de um perfume, da textura dos tecidos que vestimos, da umidade do ar, de um leve toque de mãos, da maneira como nos movemos enquanto falamos, além de diversos outros estímulos subjetivos e não restrito os sentidos conhecidos. Para se tentar um confronto intelectual desse nível, é necessário uma percepção bem mais profunda do outro, algo que transcenda os cinco sentidos conhecidos. Uma coisa telúrica, como uma intuição emocional através da leitura corporal, um sexto sentido interpessoal.

No caso desse tipo de embate intelectual perverso, desenvolvido por mim, vale a máxima de que a prática leva à perfeição. Quanto mais se pratica esse tipo de jogo ,mental, mais o praticante torna-se um exímio observador das reações humanas. Sinceramente acredito que tudo na vida funciona assim, a prática leva à perfeição. Coincidência ou não, o fato é que eu me tornei um ótimo perscrutador de almas. Sei o que as pessoas pensam antes delas mesmas… louco, não é?

Desculpe-me por não resistir a mais esse autoelogio, mas é bom que você aprenda logo que a modéstia é uma prerrogativa dos fracassados. E que esse não é, exatamente, o meu caso (de uma maneira geral, claro).

Como eu já disse, apenas me divirto com esse jogo idiota para aplacar o meu tédio — e não por maldade absoluta — estou me repetindo aqui para afastar um tédio lancinante que me invadiu neste exato momento. Estou sendo invadido por uma preguiça absurda de falar, mas preciso me concentrar e não me entregar ao tédio, se desejo transferir para você minhas idiossincrasias existenciais com precisão. Preciso buscar o tempo todo uma distração mental, senão eu não conseguirei prosseguir… é neste momento que eu estou… e não é bom.


Sim.

Você provavelmente estará certo se estiver insinuando mentalmente que eu me acho superior aos demais.

Fato.

Mas, nesse jogo interpessoal, quem sabe, a minha fantasia mais profunda seja a de que o meu interlocutor revide minhas grosserias à altura do meu merecimento: fisicamente. Com isso o meu prazer (certamente) será despertado, meu tédio diminuirá com a sorte de termos chegado às vias de fato (ah, eis aqui mais algumas coisas que me tiram imediatamente do tédio: a humilhação, o sexo violento e a dor física — se possível tudo ao mesmo tempo, agora). É a melhor forma de subjugar o meu ego, caso contrário ele me convencerá de que eu sou ele (aprendi isso com a Cabala).

Mas, concentremo-nos.

Não vou suavizar o entendimento de minha personagem com arquétipos sexuais primitivos e primários.

Precisamos avançar ainda mais fundo nos porões da alma humana, se quisermos desvendar os mistérios dos buracos negros existenciais.

Atualmente, não por acaso, tenho jogado esse pôquer intelectual apenas comigo mesmo — final, como já disse, não tenho me arriscado muito, ultimamente, na companhia de mais ninguém. Mas, adianto logo que este jogo não tem a mesma graça com apenas um jogador, pois sempre tende ao empate.

Será que o que eu tenho é algum tipo de sociopatia?

Você deve estar se perguntando neste momento e imaginando que já identificou minha doença com minha exposição parcial e tendenciosa, de alguns de meus sintomas emocionais.

Mas, infelizmente para você, eu não sou tão raso assim.

Guarde, em notas mentais, suas recém descobertas (ao menos por enquanto). Pois com a única certeza é de que padeço de uma superposição de patologias da alma (eu sou um exemplar único de ser humano).

O que nos leva diretamente à velha questão filosófica da Grécia antiga, conhecida como Problema XXX de Aristóteles: “por que todos os homens que foram excepcionais no que concerne à filosofia, à política, à poesia ou às artes são manifestamente seres melancólicos?”.

Bem que o filósofo Pondé sinalizou que: “..o grito de liberdade do melancólico consiste em desistir da felicidade”.

Nelson Rodrigues diria que “Nossa opção é entre a angústia e a gangrena. Ou o sujeito se angustia ou apodrece”.


Está gravando tudo?

Tem certeza de que não perdeu nada?

Fique atento, pois quero que o leitor do seu livro tenha uma percepção muito próxima de quem eu sou e de como eu penso.

Afinal, já dizia Platão: “Na vida o homem precisa saber, apenas, duas coisas: ler e nadar”.