EMPREGO OU TRABALHO

(Artigo publicado originalmente na Revista Bons Fluidos)

É fundamental entender que emprego e trabalho não são sinônimos. Daqui para a frente haverá cada vez menos do primeiro. Mas não faltará o segundo.

De onde surgem as ideias inovadoras? Para responder a essa pergunta, 13 personalidades de diferentes áreas, entre elas Lala Deheinzelin, compartilham com o público os momentos de inspiração que provocaram uma virada em suas vidas e em suas carreiras.

Eu trabalho há décadas, e nunca tive emprego. Conto que isso não apenas é possível, mas também desejável. Quer ver algumas vantagens? Não tenho medo de perder emprego (algo que assombra muita gente). Noto que há uma espécie de compensação: quando a confiança vem de fora (por exemplo, emprego estável) a gente tem menos confiança em si. Fiz muitas coisas diferentes, o que me deu repertório, adaptabilidade, capacidade empreendedora. E resultou na construção de algo próprio, único, a Fluxonomia 4D. Minha vida tem o bônus de ser mais diversa. E vem junto o ônus de ser cheia de altos e baixos. Mas isso me ensinou também a confiar mais na vida, nos amigos. Me obrigou a aprender a enxergar a metade cheia dos copos (senão, estaria morta de medo o tempo todo) e a seguir me aprimorando, sempre.

Lá vão algumas dicas: primeiro, compreenda o que você tem de único, próprio. Aquilo que te diferencia e distingue. Não sabe qual é teu dom? Pergunte nas redes sociais e se surpreenda com o que os outros percebem em você.

De que você gosta? Conheço quem adora cachorros e bijuterias e vive de fazer adereços para cães, com cristais. Avance, perguntando “Gosto de cuidar de quê?” e “O quê precisa ser cuidado no mundo?”. Combine as respostas e você terá um nicho de mercado para atuar. Guloseimas para crianças feitas de produtos naturais e saudáveis? Preparar professores para ensinar e aprender através do brincar?

O diferencial e o valor do teu trabalho estará mais no “como”: cuide das relações, personalize, e você vai se dar bem. Uma bem sucedida marmiteira se diferencia por conhecer cada cliente e adequar: a deste sem carne, é vegetariano. Daquele com mais verdura, está de regime.

Não tem dinheiro? Aprenda a enxergar, usar e trocar outros tipos de recursos. Destaco alguns: o Ambiental, como espaços e materiais ociosos e disponíveis (lembre que podemos “usar”, mesmo sem possuir); o Cultural, como conhecimentos e habilidades (quem sabe o que você tem para oferecer e precisa do que você sabe?); o Social, como relações e redes (quem são parceiros? Conhece aqueles que são seu público?). Na dimensão financeira, lembre que o outro lado da moeda é o tempo: não tem dinheiro, busque quem tem tempo. Já imaginou que legal colocar em função o tempo de aposentados ou adolescentes tristes e sem ter o que fazer?

Agora, a principal chave para ter trabalho é fazer junto. Empreender, ser autônomo, é difícil mesmo, e o mundo está cada vez mais complexo. Ninguém vai conseguir fazer sozinho. Procure outras pessoas na mesma situação e compartilhe espaço, inquietações, ideias. Colabore. Em vez de cada um ter que ir ao mercado; cuidar da manutenção da casa ou escritório; cuidar dos velhos ou crianças da família, vamos dividir. Cada vez é um que faz e assim sobra mais tempo e energia para todos.

Ou seja, nem tudo é inovação. A chave do trabalho no futuro está numa “envelhação”: a velha e boa comunidade. Saia do isolamento (desligue a TV!), procure sua turma e se junta, vai pra rua, para o bairro, para o grupo.

Confie e manda ver, pois pela primeira vez na história da humanidade a gente pode pensar em do que quer viver e não apenas como vai sobreviver. E se precisar de ajuda meu trabalho é esse: a Fluxonomia serve para criar condições para que você consiga viver do que gosta e ter com quem fazer junto.