Parque da Autonomia e a resistência do Coletivo O¹²

Entrevista a partir da visão

Fluxonomia 4D
Jul 24, 2017 · 6 min read

Antes da Fluxonomia 4D existir, Lala Deheinzelin, estudou casos de iniciativas que eram sistêmicas, estavam ligadas ao futuro e às novas economias. Uma delas foi o Coletivo de dança O¹², que conheceu por um dos integrantes, Thiago Alixandre, professor de dança, produtor cultural e escritor de crítica de arte. Ele foi produtor do SPFW a partir de 2008 e dentro da programação realizava encontros de Economia Criativa que reuniam especialistas para discutirem o tema. Conheceu Lala em 2010, um dos anos em que ela palestrou.

“Quando encontrei a Lala foi um encontro muito feliz, pois quando ouvia ela e outros(as) economistas falando o que poderia ser feito, comecei a entender que era o que eu já vinha desenvolvendo. Demorei um tempo para tomar coragem e contar para ela.

Devo ter esperado umas 4 edições praticamente. Eu não queria ser pretensioso de achar que eu tava fazendo coisas tão bacanas quanto aqueles especialistas estavam comentando, mas ao contar para a Lala, ela teve a sensibilidade de perceber que o que eu estava falando não era besteira e estava na direção certa” — Thiago

Viraram amigos, mesmo que a distância. Ele no interior e ela na capital de São Paulo. Lala visitou Votorantim e Thiago apresentou-se em seu ateliê no Butantã.

Tanto Thiago, quanto Preta Ribeiro e Tati Almeida, trio de bailarinos que coordena o O¹², tiveram participação no financiamento coletivo do livro de Lala, Desejável Mundo Novo, assessorando na captação de recursos. Reuniram-se na casa dela dia e noite fazendo listas para mailing e Facebook. “Foi um sucesso na época, antes do prazo conseguimos mais do que o valor previsto!”, conta o produtor.

O grupo tinha uma prática de captação de recursos que se iniciou antes de 2008, quando crowdfunding ainda não tinha força no Brasil. Chamava-se Associação dos Amigos do O¹². Enviavam um convite por e-mail para todos que conheciam: artistas, produtores culturais, críticos de arte, diretores de festivais, professores e pesquisadores universitários…formando uma rede em torno do Brasil e do mundo. As pessoas que acreditavam no trabalho podiam se associar depositando um valor a partir de cem reais. Por alguns anos foi o fôlego que garantiu a continuidade da iniciativa. Tempos depois ficaram reconhecidos pelas esferas estaduais e federais recebendo prêmios.

O Coletivo O¹² e o Parque da Autonomia

O Coletivo O¹² de dança contemporânea trabalha pesquisando processos em torno de conquista e prática de autonomia em sistemas vivos. Teve início quando, em outro projeto de dança, estavam insatisfeitos com a lógica de produção. Decidiram formar o novo grupo em fevereiro de 2008, mas faltava apoio e espaço para criar. Viram na cidade um espaço ecológico abandonado que teria possibilidade de ser cedido pelo poder público. Tentaram e conseguiram fazer de sua sede o Parque do Matão, uma área de 63 mil metros quadrados com animais silvestres, plantas exóticas, trilhas, lagos, pistas de caminhada e aparelhos de ginástica.

Otimizando o local, ocuparam uma sala até 2008, posteriormente um escritório, sala de artes, sala de idiomas, lanchonete e teatro de arena, que tinha espetáculos ao ar livre. Por ser tratar de um local público os espaços eram compartilhados, exceto o escritório.

A principal iniciativa do O¹² é o Parque da Autonomia, nascido praticamente ao mesmo instante para cuidar da arte e educação. Oferece para crianças, adolescentes e adultos aulas de inglês e francês, canto popular, coral infanto-juvenil, violão, exibição de filmes, Plataforma de Estudos Indisciplinares, dança-teatro e dança contemporânea. Os núcleos de dança para crianças e adolescentes são mais fortes, onde o próprio coletivo ministra as aulas.

Além das aulas, todos os meses tem programação de espetáculos e mostra de cinema. Ao final de cada semestre celebram com uma mostra estudantil, cada núcleo faz uma apresentação, talk show, aula aberta. Para que os artistas criem uma carreira sustentável e tenham público, o grupo visita escolas da região para dar base teórica para apreciação artística.

Diversos artistas nacionais e internacionais são convidados para se apresentar, mas o foco são as atrações de Votoratim. Já receberam artistas de Porto Alegre, Recife, Minas Gerais, São Paulo e Montreuil (Ilha de França).

Por decisão da nova gestão de Votorantim, o Parque da Autonomia recebeu em fevereiro de 2017 um ofício para se retirar do Parque do Matão. No período iriam começar as aulas, mas tiveram um mês até a instalação na nova sede, um galpão de 300 metros quadrados sem divisórias, que impede a realização de aulas simultâneas.

A saída para ofertar mais cursos foi procurar o Colégio Bela Alvorada, a 20 metros do portão do local. O dono, Sr. Lawrence, cedeu salas para aulas de violão e idiomas em horários que não estão em uso. O Colégio também apoia com um segurança e um porteiro durante a noite. Em 2018 também terão em comum um professor de Mandarim.

Anteriormente tinham no ecossistema a Secretaria de Cultura, Secretaria de Meio Ambiente, Prefeitura, amigos da Associação dos Amigos do O¹² e artistas voluntários. Em 2015 começaram a receber investimento da Votorantim Cimentos e além dela hoje contam apenas com a escola privada e os participantes do projeto, que passaram a contribuir com R$ 20 mensais para cobertura de custos.

A comunicação da iniciativa é feita por boca a boca, WhatsApp, Facebook, blog. Contam com assessoria de imprensa e são parceiros da BUSTV, que todos os meses tem programação divulgando vagas.

O grupo compreende que não existe sistema no mundo que não tenha hierarquia, mas acredita que hierarquias podem ser móveis. A liderança do O¹² é situacional e de acordo com as habilidades de cada pessoa.

Possuem desde 2010 um aplicativo próprio chamado Valor em Contexto, uma metodologia de precificação de trabalho com piso e teto salarial. No sistema cada integrante cadastra todos os dias as atividades realizadas e posteriormente participa de assembléia para dar notas (1 a 10), cada um avalia por bom senso e fazem uma regra de três. Após ser retirado o valor do pagamento de contas, o sistema calcula os valores e define o valor individual a receber, reduzindo assim discussões. A plataforma também é utilizada por um coletivo de artistas e uma agência de Design.

A utilização de recursos não-monetários acontece com as parcerias com a empresa de TV em ônibus que oferece espaço na programação, voluntários que fazem manutenção do prédio, o Bela Alvorada, imprensa local que veicula releases. Quando inauguraram o espaço atual contaram com outros voluntários da comunidade e alunos na limpeza.

Os resultados do projeto vem em forma financeira, pois a equipe de professores é remunerada, também tem impacto educacional por conta da educação continuada, ambiental com a recuperação do Parque do Matão e a pedreira. Conseguiram mudar a memória geográfica afetiva de quem passa na rua do Matão, trazendo bem estar e confiança aos visitantes nos finais de semana. Também melhoraram a segurança pública, pois com os eventos reduziram-se delitos, chegando a zero em 2016.

Thiago conta que as transformações nas vidas dos alunos são de ordem qualitativa. Cita o exemplo de dois alunos que terminaram o curso de dança e tinham desejo de iniciar graduação de nível superior, mas não existe o curso na cidade e nem teriam condições financeiras de cursar na capital. Então prestaram vestibular concorrendo bolsas de 100% em universidade privada e conseguiram as vagas.


Como o Coletivo vai continuar a partir de agora?

Corre o risco de acabar todos os anos, é um trabalho de resistência! O nosso trabalho não cabe num roteiro de filme Hollywoodiano. A nossa história tem certos sucessos, mas é efetivamente sustentada na perspectiva dos fracassos. Para a gente construir esse sonho do Parque da Autonomia, para ser autônomo de fato, vamos ter que conquistar um espaço particular, não dá pra ficar a mercê do poder público ou o fim de um contrato de aluguel. Queremos ter uma propriedade de uso público e compartilhada, e assim autonomia para um futuro desejável — Thiago Alixandre.


Coletivo O¹² e Parque da Autonomia

Área — Educação e Arte.

Resultados 4D — Educação continuada, recuperação de espaços públicas que estavam subutilizados, formação de público, remuneração da equipe e melhoria de memória geográfica afetiva e segurança pública.

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Viabilizando futuros através das novas economias. Perfil editor do blog Fluxonomia 4D.

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