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Vamos, coragem!

É preciso ânimo para enxergar (e realizar!) o possível. Ser futurista não é ver o futuro, mas não ser cego para as potencialidades do presente

Já está tudo aí. Nós é que não enxergamos. Duvida? No vídeo que sugiro a seguir é notável nossa incapacidade de ver http://nudges.org/watch-out-for-cyclists/. Nos recusamos a enxergar e assumir nosso poder coletivo, pois é muito difícil aceitar que somos responsáveis e coautores.

Que poder é maior do que bilhões de pessoas conectadas? Educação e comunicação mudam o mundo? Durante a Copa fiz um cálculo: 60% da população brasileira (120 milhões de pessoas) parou para assistir, no mínimo, duas horas de jogo. Isso dá cerca de 240 milhões de horas investidas em um jogo de futebol. Imagine agora essa mesma quantidade de horas investidas em educação. Se cada ano letivo tem 800 horas, seriam 300 mil anos letivos. É uma enormidade de tempo. Não digo para substituir lazer por educação. Mas raciocine se depois de ver o jogo fôssemos para a internet, a praça ou o boteco comunicar boas iniciativas. O que aconteceria no país depois de tal injeção de ânimo e informação?

As ferramentas de cogestão já existem. Um exemplo são os hackathons (“hack” vem de programar de forma excepcional e “thon” de maratona), imersões de um a três dias em que a tecnologia é o mecanismo para convergir a inteligência coletiva na busca de soluções. Sabemos que a transparência (ter todos os dados acessíveis) é o que regula a gestão, evita a corrupção e permite a cogestão. E se usássemos, então, essas horas para isso? Em inteligência e infraestrutura? Outro futuro possível, mesmo que improvável: dizemos “não consigo” ou “ não é possível” em vez de “não escolho” ou “não priorizo investir meu tempo, recurso, tesão, energia em algo bom”.

Em nome da diversidade e do propósito pessoal narcisista não convergimos nossas potências. Há abundância de recursos e oportunidades disponíveis. Mas eles só serão acessíveis se colaborarmos. Evitamos a síntese, a ação, o fluxo. Estamos numa sociedade em estado de constante excitação (idealização/informação) e pouca satisfação (concretização, fazer). E, por conta dessa crise, temos angústia da possibilidade de concretização: quando ela se apresenta nos refugiamos em mais uma análise, discussão ou idealização. Ficamos cada vez mais paralisados, afogados em tanta potência não realizada. Nos achamos superadultos, mas vivemos numa sociedade adolescente, que ora coloca a culpa nos pais castradores (o Estado, o capital, o poder), ora espera as mães cuidadoras (a rede, a colaboração, os “salvadores”). Lembro de uma frase: “A culpa é minha. Ponho em quem eu quiser”. Chegamos ao final do ano. E infelizmente é o momento de reconhecer que se a coisa não anda bem é porque não escolhemos bem.

E porque não partimos para a ação. Lembre-se disso e tenha visão e humildade para convergir em prol de causas comuns. Não desperdice suas potências ao fazer escolhas equivocadas. E quem sabe assim teremos de fato um ano novo feliz. Possível e desejável, agora.

Publicado em 19/01/2017 na Revista Bons Fluidos.