O jornalismo que faz greve

Críticas à cobertura da imprensa evidencia os extremos da discussão política

O artigo da ombudsman da Folha de S.Paulo, Paula Cesarino Costa, publicado no domingo sobre a cobertura da imprensa na greve do dia 28 em todo o país contra as reformas propostas pelo governo, gerou grande repercussão por toda a internet. A jornalista critica a maneira contraditória como o jornal tratou as manifestações.

Quem teve algum compromisso no dia, sabe que esta data esteve longe de ser um dia normal. E grande parte dos veículos trataram a data como se fosse, registrando apenas “incidentes” pontuais. Visão defendida pelo governo federal, aliás.

Se por um lado, a visão da imprensa esteve focada na baderna, no conflito e no “fracasso” da paralisação, do outro lado (o dos manifestantes grevistas), o movimento foi um sucesso com “milhões de trabalhadores” aderindo a eles. Quem apenas observou o dia, sem tomar um lado, sabe que nenhuma dessas visões é verdadeira. Ou, de tanto ouvir as duas versões, passa a acreditar ferozmente que algo que não aconteceu ocorreu de fato. George Orwell faz uma analogia disso em 1984, com o conceito de duplipensamento.

Nesses extremos, falha o papel do jornalismo. Quem leu a edição de sábado da Folha, decepcionou-se com a falta de cobertura das manifestações, o impacto gerado, um “tempo real”, com os principais fatos das manifestações, imagens, gráficos, enfim, faltou informação.

A redação da CartaCapital optou por entrar em greve por 14 horas no dia 28. Se isso partiu dos profissionais, ok. Caso tenha sido uma posição editorial da revista, é algo para ser criticado. Veículos de comunicação são obrigados a informar o público independentemente do que esteja acontecendo. Deixar de fazer isso por posição política é errado.

Enfim, o que dá para ver disso tudo é que a discussão das redes sociais chegou as redações. Isso é ruim. Para o bom jornalismo e para os próprios leitores. Veículos de comunicação não podem ser porta-vozes de partidos.