Meio turvo. É como eu vejo as lembranças daquele ano.

Diário de Erick Banna, 3 anos depois.

Parando pra pensar direitinho, acho que eu queria que elas tivessem sido completamente apagadas igual com quase todo mundo da cidade.

Por mais que tivéssemos tentado encontrar as pessoas que sumiram, a polícia sempre dizia que havia uma investigação em andamento, mas nunca víamos eles levantar para nada. A não ser para comer rosquinhas.

Minha mãe diz eu meu pai está em uma viagem muito importante para o governo dos Estados Unidos, mas nada tira da minha cabeça que ele sumiu naquela noite.

Por sinal, aquela maldita noite… eu lembro apenas de ter chegado em casa de manhã e Hillary e mamãe estavam completamente estranhas… depois eu acordei, sem maiores lembranças de como aquilo acabou eu acordando na minha cama 2 dias depois, ao menos foi o que minha mãe disse. Claro, ela estava no seu aspecto normal depois. E até mesmo a Hillary, o que não sei bem se isso foi de todo bom.

Mas enfim, mesmo nós retratando todos os eventos que vimos, eu quase fiquei interno num hospital psiquiátrico por causa da “verdade”, que em conjunto, decidimos deixar omissa.

Nós reformamos o contêiner. Melhoramos a comunicação do grupo com walktalks mais potentes que compramos. Com um certo esforço, conseguimos com o senhor Barnes, retirar ele da área da escola e colocar perto da antiga fábrica de lápis perto da periferia da cidade, quase chegando no porto.

A localização era melhor e onde tinham tantos contêineres era menos visível às vistas.

Ficamos mais tempo juntos procurando respostas nos 2 anos seguintes que com nossas famílias.

Mas o que sempre conseguíamos era chegar a finais de trilhas que não levavam à lugar algum.

“Não sei do que está falando!”, “Tem certeza que não estava sonhando?”, “acho que está vendo filmes demais!”.

Se por cada frase dessas eu ganhasse 10 centavos, eu poderia ir para Oxford ano que vem sem maiores problemas por pelo menos 3 anos.

No começo deste ano, mais especificamente 2 dias antes da virada do ano passado para este, nós já estávamos cansados, desgastados demais por sempre chegar a estradas sem conclusões. Sempre em becos sem saídas.

Fizemos o que achamos que seria o mais certo. Fechamos nossos olhos.

Claro que eu ainda guardo todos os documentos e papéis pertinentes às nossas investigações.

Gastei boa parte de minha mesada do ano passado comprando rolos de filmes para fotografar cada página, cada recibo, cada bilhete que tínhamos e conseguimos. Fiz um sistema de colagem para que, com o tempo a imagem não se desfizesse, como nas fotos de polaroid quando não são bem conservadas. Isso vai manter os arquivos seguros por um longo tempo.

Na noite de ano novo, pouco antes das 22h, estávamos todos no contêiner quando decidimos incinerar todos os documentos e manter apenas as fotografias.

Juntamos tudo em 2 tonéis e ateamos fogo neles.

De lá, cada um foi fazer a virada do ano como achava melhor.

Não vou mentir… eu não gosto mais de andar sozinho à noite. Por isso, pelo menos 2 deles sempre me levavam até a esquina de casa, onde eu já conseguia me sentir menos inseguro.

Este ano passou muito rápido. Parece que sem o peso de nossas buscas, conseguimos nos divertir um pouco e até mesmo quase esquecer, por alguns momentos, que tudo aquilo aconteceu.

Fazem 2 meses que estamos organizando o baile de formatura. Muitos não se separar. Eu, por exemplo, vou para Harvard e vou morar por lá com minha irmã, que já estuda lá há 2 anos.

Pretendo me formar em telecomunicações. Ou algo haver com tecnologia.

Por sabermos que não estaremos tão próximos no ano que vem, nós ficamos muito mais próximos uns dos outros este ano, e quase todos os preparativos da formatura foi feito por nós mesmos, quando a maioria dos outros alunos ajudou em cerca de 20% do total de nosso trabalho.

Acho até que nós tratamos esse evento festivo como um escape.

Faltam 3 dias para a festa. Estranho! Não me sinto nervoso, mas quase que ancioso. Sei lá. Acho que algo bom vai acontecer, finalmente!

Acho que é completamente compreensível. O escuro, não oferece risco a ninguém. O medo, o verdadeiro terror é do que o escuro esconde. Sabe por que mesmo com uma lanterna ou lamparina ou candeeiro vc ainda fica com medo quando anda no escuro? Por que seus olhos estão voltados sempre pra frente, deixando suas costas exposta. O medo do escuro vem daquilo que não podemos ver e este está justamente nas suas costas. Andar num corredor claro, dá a falsa impressão que por que vc está vendo em 180° com sua visão periférica, tudo está mais seguro, mas se pensar bem, ainda assim, não está vendo o que vem nas suas costas, mas ainda assim, dá uma falsa segurança melhor e mais agradável. Já quando vc está no escuro, mesmo com uma lanterna bem potente, ainda assim, seu raio de visão decai cerca de 80% e isso faz seu psicológico trabalhar sobre a sua razão. A sensação que algo ou alguma coisa vai tocar seu ombro ou seu braço vindo por trás de vc, chega a te fazer prender a respiração. Chega a te fazer querer gritar antes mesmo que algo aconteça. É uma sensação de terror tão forte que te impede de andar de forma equilibrada e vc começa a nadar segurando pelas paredes, procurando as sensações táteis das mãos e dos braços para que seu cérebro trabalhe em cima do que está sentindo agora e não do que seu psicológico está bombardeando sua mente. Cada passo, se torna uma vitória penosa para chegar onde vc sente a maior de todas as seguranças. Mas para cada vitória uma batalha é travada fortemente. É apenas um passo, um de cada vez, cada passo, uma batalha, cada batalha, dura mais que o real segundo que acontece, mas dura cerca de uma eternidade.

Quanto mais perto vc chega de seu quarto, mais próximo está de ter a segurança hipotética de fechar a porta atrás de vc e saber que, mesmo no seu quarto, aquela sensação de toque nas costas não vai ocorrer e quando vc deitar na sua cama, seu mundo estará seguro. Ora veja, o maior de todos os escudos é o mais frágil de todos. O lençol. Minha cama foi meu castelo por anos, meu lençol minha guarda real. S centenas de sessões com psiquiatra e psicólogos ajudou em menos de 15% de tudo o que eu realmente sei que aconteceu, mas para o meu bem e dos meus amigos, precisei deixar “como fruto de minha imaginação” ou “ingestão de drogas”. Dizem que é nessa idade que começamos a fumar e ter acesso às drogas mais pesadas, e eu usei este gancho para me livrar de uma prisão hospitalar para o resto da vida. Meus medos ainda são reais. Meus temores ainda me confrontam diariamente. Todo dia uma batalha contra o medo, todo dia uma pequena vitória que eu me permito enganar. Faltam poucos meses para nossa formatura. Minha mente e minha alma estão em frangalhos. Tenho sono grande parte do dia. Mas não consigo dormir sem a ajuda de algumas medicações.

Quero ir para Oxford. Soube que lá tem os melhores cursos de tecnologia e ciências. Vida nova, novo ambiente de vida, novos amigos, eu espero, e se tudo der certo, um novo começo sem o terror que vivo desde aquele maldito dia.