NANOPOP: This Must Be ___


A ideia de uma coluna para falar de pop e tudo o que cerca esta palavra vem de muito tempo. Vem desde quando eu decidi que eu deveria escrever mais sobre música e como as pessoas interagem com ela em si, tanto num nível antropológico quanto sociológico, do que escrever resenhas sobre discos que eu escutei ontem.

O formato de uma resenha é fechada em si própria. Você escreve o parágrafo de introdução. Fala do artista. Tenta contextualizar. Pula para o próximo, em que você começaaa “falar de música” em si. Termina tudo com uma frase de efeito. Tão mecânico que alguns dize, que conseguem fazer tudo em três minutos. Por mais que eu goste de escrever em um formato assim, ela não permite que eu alcance outros tipos de ideias. E essa ruptura também marca uma nova geração sobre o que eu quero escrever e pesquisar — menos discos prontos, mais ideias a serem trabalhados. Mais pop a ser decifrado e recontextualizado em novas maneiras de escutar música.

Basicamente, este é o NANOPOP, um nome que é, sim, incrivelmente pretensioso, mas que vai permitir que eu exponha mais ideias dentro de um período de tempo mais flexível. A coluna vai ser mensal e, inicialmente, eu quero tratar de um assunto polêmico que quase ninguém quer discutir seriamente por aqui na blogosfera. Ou por questões de elitismo burro ou porque não entendem a noção moderna da palavra “gosto” e como ela perdeu validade numa era em que um Tumblr ou um blog no WordPress dá tanto alvará crítico quanto um emprego de staff writer num jornal local te dava na década de oitenta.

Nos meses seguintes (ainda não sei em quanto tempo terminarei de escrever o que eu tenho a dizer sobre o tema, primário, em questão), o assunto vira outro: como as pessoas lidam com a tecnologia e a sua própria relação com a música. Basicamente, tudo pode ser lido na frase “como a Internet acabou com a relação dos fãs com a música em si”.

NANOPOP vem de nanocultura, também conhecida como cultura do stream. É uma forma de estudo que valoriza o conteúdo compartilhado através de blocos de informação e como as pessoas interagem com eles. É uma cultura que domina a manifestação de pensamento nas redes sociais.

A questão que eu quero abordar mais aqui não é em relação ao fato da nanocultura ser boa ou ruim para a sociedade ou para a individualidade das pessoas. Assim como o próprio pop, tudo isto é melhor discutido quando se leva em consideração o fato de que há, no stream, uma cultura em si e que os juízos de valor são melhores quando deixados de lado. É isto o que eu, essencialmente, quero passar.


O elemento subversivo na cultura de massa não é só uma questão de conteúdo, de convites explícitos para indução e/ou rebeldia; também tem a ver com as propriedades formais com a arte de massa.” Ellen Willis, Beggining to See the Light

Uma das primeiras questões e uma das mais interessantes que eu quero abordar tem a ver com o próprio propósito da iniciativa de algo chamado NANOP. O popismo é, eu entendo, uma palavra que ganhou diversas conotações com o passar do tempo e que, agora, significa uma espécie de postura que alguns fãs de música apresentam. Mas nem sempre foi assim.

Popismo nem sempre foi popismo. Na verdade, a “terminologia” correta tem mais a ver como “poptimismo”, que serve para exemplificar o otimismo em relação ao pop e à cultura que envolve a música em questão. A palavra foi cunhada por Simon Reynolds, o mesmo sujeito que cunhou o termo “post-rock” ou“pós-rock” em 1994 numa resenha do disco Hex, da banda inglesa Bark Psychosis. O poptmismo de Reynolds foi, depois de um tempo, motivo de piada e o termo “popismo” foi criado, em analogia ao “rockismo”, um tipo de pensamento crítico que valoriza os ideais do rock.

A minha primeira experiência com o pop foi lendo o Freaky Trigger e escrevendo no I Love Music, ambas instituições da blogosfera que caminhavam junto. O Freaky Trigger foi lançado em 1999 como um site que comenta acerca de, basicamente, cultura pop. Quadrinhos e música são o ponto forte do site. Em 2000, o ilXor, mais especificamente o legendário I Love Music, foi lançado como uma forma de companhia ao Freaky Trigger. Ele foi um dos primeiros fóruns de discussão sobre música e, embora tenha perdido sua importância ao longo da década passada por causa de meios mais descentralizados de discussão — como nós passamos de fóruns para chats para grupos, etc — ele ainda é uma forma vital de representação do que o popismo e o pensamento que ele traz consigo são.

O popismo pode ser tido como uma linha pensamento. Uma forma de encarar a música e a cultura que a rodeia. É, basicamente, de início, uma expressão que quer levar a sério, criticamente, qualquer forma de manifestação. Não é, e é importante lembrar, uma forma de se condizer com relativismo cultural, mas uma maneira de dizer que não há mais espaço para elitismo e, claro, hierarquização cultural.

O popismo não é só um postulado, até porque postulados não são maleáveis e não conseguem representar bem as ansiedades da internet. O popismo também é a forma com que as pessoas pensam sobre determinado assunto em detrimento de outro com juízes de valores diferentes do que outras pessoas escolheriam, por exemplo. Neste caso, o assunto é o pop. O óbvio aqui é que, para quem se considera uma pessoa que é otimista em relação a algo, há algumas considerações a serem feitas acerca do conteúdo em questão. Quando falamos do popismo, o pop tem um próprio sistema de valores que é diferente do sistema de qualquer nicho. Não chega a ser uma forma de proteção, mas a criação de valores extremamente específicos é inevitável quando você acaba juntando um grupo de pessoas (com interesses comuns, sempre lembrando) por um determinado período de tempo, que, no caso, é longo.

Li em algum lugar que o popismo é, agora, “o ar que nós respiramos”. Mas a matéria em questão não deixava bem claro o porquê disto. Há uma razão e ela soa bastante como um lugar-comum agora: a internet.

O popismo nem sempre tratou o pop como um nicho, até porque os nichos, no nosso sentido atual de rede, nem sempre existiram. O popismo era mais como uma proposta e não era tratado como uma realidade dominante. Mas a internet democratizou a informação (não o conhecimento) ou, pelo menos, o acesso a ela.

Pode parecer um conceito antiquado agora, mas é preciso dizer isto: o poder de democratização da internet é tão grande quanto o de criação de restrições. A teoria disse para nós, lá nos anos noventa, que uma revolução cultural aconteceria e que ela seria aberta. Vinte anos se passaram e o efeito foi, na verdade, reverso. A rede conseguiu fazer com as pessoas restringissem a sua própria nossa de “gosto” e que restringissem seus interesses. Surge, então, uma espécie de era da especificação.

O problema central de qualquer nicho é perceber que ele não é o único. O segundo maior problema de qualquer um deles é que existem, dentro das bolhas de conteúdo, pessoas de verdade e não seres que servem para criar virais. A contradição do popismo como nicho e os problemas dele começam aí. Como ser (melhor: como é presenciar) um nicho que quer reverter as condições do que é elitista e o que não é através de uma definição do que é “gosto” se ele, em si, não pode se diferenciar de outros nichos? Se a internet foi o que criou esse mar de ideias, que, pelas próprias ideias do popismo, tão dignas de nota, como ter algum destaque quando ela própria diz que tudo precisa ser levado a sério criticamente (quando você está em só mais um nicho)? Essa é a contradição fundamental de uma ideologia que, hoje, segundo aquele mesmo texto, “nós respiramos”.


O popismo é a linguagem da internet.

O popismo se infiltrou na nossa mentalidade de forma perversa até: como o indie morreu mais especificamente em 2004, e descobriu-se que a máquina corrupta que eles tanto criticavam no mainstream era o mesmo modelo que os adeptos do termo “independente” utilizavam, houve uma inversão de valores tremenda.

Houve, porém, especificamente, um momento na década passada em que se tornou mais socialmente aceitável, pelo menos entre os críticos, escutar, por exemplo, Ke$ha (e, depois, coroá-la como uma espécie de salvadora do rock entre os fãs de pop que acompanham os charts) do que, também exemplificando para agora, um grupo como o Imagine Dragons e até o revival vazio de um The Lumineers.

As complicações começam a ficar mais aparentes quando você descobre que o poptimismo é a linguagem que a internet e os fãs de música escolheram adotar mais recentemente para se comunicarem e terem como guia nos seus juízos de valor. De novo, é a forma com que as pessoas escolheram respirar.

Isto aconteceu por alguns motivos e, de novo, nós voltamos à razão principal de uma discussão assim: a internet. Se é possível culpar a internet por alguma coisa, é definitivamente em relação à forma com que ela reestruturou a relação entre fã, artista e música (e, em alguns momentos, as gravadoras). A web de 1996 para cá quebrou estes elos: graças a sites famintos por conteúdo como a Pitchfork (longe de um ataque vazio, lembrando, para quem se inspirou na melhor coluna sobre cultura e popismo que já existiu) e FADER (basicamente um blog de MP3s que viu no Soundcloud um futuro próspero). Quando as pessoas, leia-se fãs, compravam discos digamos, entre as décadas de setenta a noventa, elas tinham uma espécie de voto, de comunhão com seu dinheiro e a música (arte para alguns mais apressados em categorização). Sites como estes citados anteriormente transformaram o fã numa commodity vendável em que o consumidor não tem nenhum papel em que exerça o mínimo de influência. Pelo menos aparentemente. O esquema diz mais respeito às gravadoras e os anunciantes do que ao fã de música.

Este é um dos modelos de negócios que estão em vigência desde o início da década passada. As publicações monetizam graças à sua atenção, não importando qual o tipo desta sua atenção. Você pode escutar algo e pensar em quão ruim a canção/o disco/a banda é, e muitas vezes esse é o objetivo: criar conteúdo musical para o contexto da internet, que é um fato que a jornalista Maura Johnston deu o nome de “trollgaze” na memory lane de 2011. Ainda assim, 2011 só apresentava, ainda, apenas uma prévia do que a internet no mainstream se tornaria: um monte de listas irrelevantes do BuzzFeed, clickbaits e, como consequência, a luta pelos mad hits.

A luta pelo conteúdo é, claro, um caminho da desonestidade humana, mas também foi responsável pela nichificação desse mesmo contéudo e, consequentemente, das pessoas envolvidas no processo de consumo desse mesmo “conteúdo”.

Foi nesse momento em que o popismo, um conjunto de ideias que ganharam força na primeira metade da década passada, passou a ser só mais um nicho. Como foi exposto num artigo por Tom Ewing, o pop em si não resistiu à fragmentação dos outros nichos e começou a se especificar. Foi um processo tardio, dado o momento (dez anos depois da introdução de um novo modelo de negócios em 1996), mas ainda assim é relevante.

A própria nichificação que ocorre dentro do pop torna a classificação do que é ou não é pop complicada. Essencialmente, “pop” é o vende ou, tornando o conceito mais maleável, o que tem a intenção de vender. E mentir também, claro.

Contextualizando: em 2011, Nicola Roberts, que fazia então parte das Girls Aloud, decidiu sair em carreira solo e lançar um disco. Cinderella’s Eyes foi um dos melhores álbuns de seu ano, mas “Beat Of My Drum” (obra-prima) não conseguiu emplacar nem na Radio 1. A pergunta que fica é o que acontece com o pop que não vende, mas mesmo assim tem a intenção de vender. Ele não deixa de ser pop, claro, mas casos como o de Nicola Roberts são importantes para sabermos que valores críticos nós precisamos levar em conta quando falamos de pop.

Ao falar de pop, é muito fácil se perder dentro das suas próprias armadilhas retóricas — assim como dentro de qualquer outro nicho que você encontre na internet. Isto serve para exemplificar o desdém que muitos têm em relação ao popismo: afinal, o que diferencia ele da adoração cega aos charts?

Recentemente, a resposta a esta questão tem ficado cada vez mais complicada. O pop tem sido cada vez mais fechado em si, eu admito, mas esta é apenas uma consequência da elitização e atitude esnobes vindas de outros nichos, mas o poptimismo (lembrando da derivação: otimismo) é muito mais uma forma de enxergar as possibilidades da crítica musical e cultural do que uma adoração cega.

O modelo do fã de música pop foi o que mais mudou nesse caso. Ele foi o que se enclausurou pela imensidão de opções que ele só teve recentemente, não a visão de mundo que o popismo procurou debater.

A questão de agora, pelo menos é o que parece, é como tudo isto vai acabar. É inegável que houve uma contradição entre a proposta original e o que acabou sendo praticado. A nichificação traiu os conceitos anteriores e tornou impossível a prática liberal que o poptimismo tinha, porque, querendo ou não, o único refúgio do fã de pop é o fanatismo no pop em si. O aparentemente entendimento global que a blogosfera deveria ter nos dado foi um retrocesso e um excesso de fé na nossa boa vontade. Mas esta não é a melhor parte a vir, até porque tudo o que nos resta é esperar. Mesmo que não haja volta, que o pop cada vez mais se restrinja em si mesmo e perca o seu apelo universal de captar uma geração toda (mais em retromania depois), eu espero que o modelo vigente volte ao fã, até porque, afinal, tudo começou nele.

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