Vamos falar de gosto

A reedição do livro clássico de Carl Wilson: Let’s Talk About Love: Why Other People Have Such Bad Taste


A década passada foi um tanto estranha para a cultura pop como um todo. Não exatamente estranha, nem bizarra (como alguns preferem chamar períodos seletos de tempo) , eu preciso retificar, mas, sim, confusa principalmente. Não nas palavras de uma Molly Lambert na Grantland escrevendo coisas, que, por si só, são confusas (ela: “os 00's foram agressivos. Toda a década orbitava ao redor do apagamento da ideia de consentimento”).

Não falo também de uma tal de confusão institucionalizada (esta, por si só, é o que vem ocorrendo há um bom tempo por aqui), mas, ainda, de uma confusão “simples” de conceitos, como os de popismo e rockismo, palavras que foram determinantes para o que chegou a ser os anos 00's. Ainda, de pop e de rock.

Foi na década passada que se tornou viável, pela primeira vez, uma discussão igualitária entre as vontades de pelo menos dois grupos de pessoas: aquelas que adoravam o rock, enquanto construção cultural bem definida, e todos os valores que ele trazia contudo (principalmente, o conceito muito importante de autenticidade, de “arte autêntica” e “arte original”), e aqueles que não se importavam com tais definições. De vez em quando, estes últimos curtiam o que saia na Billboard, em charts como o Hot 100 (canções) e Billboard 200 (discos).

O problema do rockismo apareceu pela primeira vez para a nossa geração numa matéria do New York Times, The Rap Against Rockism, em 2004, quando Kelefa Sanneh ponderou sobre a recepção que algumas pessoas tiveram ao ver Ashlee Simpson, ídolo teen na época, num lip sync de uma canção do Saturday Night Live. Primeiramente, a resposta clara foi escárnio e a cantora foi quase que deixada à obscuridade.

https://www.youtube.com/watch?v=5RrLAgi_mBY

Para Kelefa, Ashlee foi renegada à condição de estrela do rock porque ela não correspondia à estética do rock (ela não participava de concertos, não sabia tocar, não era “autêntica” — algo como o indie rock de hoje em dia). Ela fazia lip sync como uma estrela do pop faria de qualquer forma.

A partir daquele momento, em que a ideia de autenticidade do rock estava começando a ser mais do que simplesmente questionada — e sim demolida por dentro, por dentro de círculos de crítica que passaram décadas se vangloriando de seus valores e de suas ideologias — o Village Voice e o little boys club de Greil Marcus e Christgau comprova isto— o terreno ideológico estava pronto para receber uma obra que pudesse trabalhar com tal aparente batalha de conceitos.

Foi neste contexto que a Bloomberg, através de sua série de livros 33 1/3 (uma espécie de coleção, em que, individualmente, cada autor escreve sobre um álbum — clássico ou não— falando de suas experiências e mais coisas que justifiquem a publicação de um livro inteiro) lançou Let’s Talk About Love: A Journey Through The End Of Taste, de Carl Wilson, considerado o Livro do Popismo, em 2007. Dedicado a analisar a razão de tanto ódio seletivo de alguns em relação à obra de Céline Dion e à pessoa dela, Carl Wilson parte, realmente, numa jornada que mistura sociologia de Bourdieu e materialismo histórico. Tudo isto para trabalhar a noção de gosto. Relançado este ano (o único da série a conseguir este feito) com outros treze ensaios de gente admiradora do livro como Ann Powers até James Franco, ele foi, lá em 2007, um marco para esta geração pluralista e cheia de ideias democráticos prestes a eleger um déspota.

Wilson traz a noção construtivista de Bourdieu por dois motivos, eu acredito: há, aqui, uma tentativa de intelectualização (um tanto quanto mesquinha, já que tratamos aqui de um livro de menos de duzentas páginas) do que está realmente em jogo: a razão primordial do ódio à figura de Céline Dion.

Há quem diga que Dion, uma das maiores personagens do pop de algum tempo já, peca pelo excesso de teatro em suas performances (aí, de repente, diz-se que o teatro, em si, não é autêntico, mas isto é assunto para outro post). Mas Wilson faz toda uma análise sociológica, não partindo de um anacronismo de figuras como o proletariado e a burguesia), mas de um ponto de vista materialista por natureza: o capital determina o gosto. E o gosto, para isto, é relativo.

Wilson então justifica o pop como teatro e até mesmo a demagogia de Dion: não no sentido estúpido de “tudo é permitido no pop”, mas quando as próprias noções do pop podem ser embaralhadas através de conceitos como habitus, campo e capital, tudo é válido mediante acordo multilateral entre as partes. Justifica-se, assim, moralmente o gosto. O relativismo triunfa, assim como o pragmatismo do popismo, essa “teoria” que culmina nisto aqui.


Não tenho certeza se Céline Dion merece tanta relativização, mas este é apenas um pretexto para Carl discursar sobre um assunto mais “importante”: o gosto como construção social e, ainda, sobre o pop. Principalmente, sobre o pop.

Quando Carl admite que o gosto é definido culturalmente, ele fica, antes de tudo, numa posição complicada. É muito como uma posição política no final das contas. Uma em que ele é liberal, e, acima de tudo, no centro, sendo um pluralista. Aliás, Carl Wilson admite, por diversas vezes, que a questão do gosto é sim política: uma em que ele acredita em que o gosto deve ser sempre “democrático”.

Isto faz de Let’s Talk About Love uma obra de um idealista, agora no pior sentido da palavra possível. Se o livro original foi responsável pela onda de crítica primordialmente popista (vide a discussão recente do Music Tumblr (RIP 2008-2014), ele também bebe diretamente de uma ideia de pragmatismo, uma ideologia (num sentido bastante estrito da palavra) que basicamente governa o mundo hoje em dia.

Curiosamente, numa entrevista recente à Pitchfork, Carl Wilson diz que

Now, if I’m going to write negatively—or positively—about something, I feel a stronger obligation to have spent time thinking it over and looking into its context, so I can make judgements with all of that knowledge there, rather than a quick gut reaction. Because our gut reactions are a little bit programmed by world history and personal history—how I’ve identified myself, what I’ve known, and the things that I’ve felt different from. If I don’t have a goal in why I would want to make a negative argument, then I’m less interested about writing about something; maybe I thought being an argumentative intellectual was a cool part of my personality when I was young, but it’s now something that I’m very wary of—I’m very concerned when people suggest to me that I’ve been arrogant or that I haven’t listened to what someone is saying.

Agora, perceba que tudo gira em torno de uma palavra específica: consenso. Há algo de escondido na discussão que Carl Wilson faz das definições de gosto, que é de importância basilar para o entendimento de “gosto” para ele: é mais do que simplesmente análise sociológica construtivista e fajuta. Eis pragmatismo puro.

Há algo de complicado em discutir pragmatismo, até porque ele próprio já tem em si um paradoxo formado em si para todo bom entendedor: no caso de Wilson, se o gosto e conhecimento de uma pessoa é determinado, nem que seja de maneira pequena, através de um consenso geral, onde fica a consciência pessoal responsável pela formação da coletividade? Tal raciocínio é não só incompleto, e sim paradoxal. É circular.

Quando Wilson propõe a relativização do gosto, e através do que convenientemente a n+1 chamou de “muita sociologia”, ele discursa sobre uma ótica perigosa: a da aniquilação de um estudo decente sobre estética, em que ela é mutilada por uma interpretação forçada, exagerada. Em qualquer discussão sã sobre arte, o contexto e todo o que chamam de “significado social”, “significado político”, entre outros, não importa realmente. Como as pessoas tratam arte e como elas deveriam tratá-la é outra discussão diferente do que qualquer contextualização pode dizer primeiramente.

Esse desejo de Wilson de transcender o próprio gosto (ele chegar a perguntar a razão de gastar tanto tempo “analisando” arte da qual ele não gosta) é, nesse contexto gnóstico, o que entrega o livro: eis aí o pluralismo liberal apresentado em sua excelência. Nós sabemos que, numa dialética perfeita, nada mais existe além de amor e ódio.

Nessa discussão sobre gostar e não gostar de algo (e as “implicações sociais” resultantes desse gostar e desgostar), como eu disse, o autor está no centro, o que dá a ele um acesso privilegiado em relação ao pluralismo que ele tanto reivindica. O que acontece, porém, é que ele recai sempre na utopia da democracia. Ele estende seu discurso sobre Dion e toda sua gnose de rodoviária a uma conversa sobre política enfim: não falo aqui da democracia como ferramenta para pilantras e massacre da maioria em face da minoria, mas como ideologia mesmo.

Carl Wilson escreveu um bom livro sobre o popismo, uma corrente que nós respiramos enfim, mas ele chega muito perto de um pecado liberal: o sacrifício do gosto em detrimento do benefício do melhor entendimento da pessoa do próximo. Discordo dele. Não porque há egoísmo aqui, mas porque gosto não se constrói como sociologia barata conclui. Gosto há. E pronto.

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