Escolas ocupadas em São Paulo: um sopro de tensão num ano pouco politizado

Você deve ter pensado: como assim o ano de 2015 foi pouco politizado? Se tivemos protestos pró e contra o governo federal, o que, supostamente, demonstra o aumento do interesse das pessoas sobre a política — aí que me distancio, não quero tratar da política institucional, essa dos Governos, mas da política como atividade humana, através da qual o ser humano produz o seu próprio cotidiano, sua própria existência. Não considero o ano de 2015 um ano bom do ponto de vista político, ele girou em torno do ser contra ou a favor de um governo. De fato, o ano de 2015 reduziu à política às ideologias e paixões, uma certa lógica de grenal, uma política reduzida à lógica das torcidas organizadas.

Fonte: http://jornaldotrem.com.br/reorganizacao-das-escolas-estaduais/

Indo direto ao assunto. O movimento inicia com uma proposta indecente do Governo Alckmin, “reorganizar” algumas escolas, inicialmente 94, oferecendo apenas um ciclo em cada uma delas, ou seja, se uma escola oferece Ensino Médio, não ofereceria Ensino Fundamental. O Governo não usa o termo “fechar escolas”, jogando apenas com a semântica e com o apoio da imprensa paulista, mais especificamente, Estadão, SPTV, Folha de São Paulo e Revista Veja. No entanto, na prática, temos o fechamento de escolas, tendo em vista que alunos seriam realocados, transferidos para outras escolas.

Acompanhando relatos de fanpages no Facebook, que começaram a pipocar (os estudantes dão uma lição no que diz respeito ao uso das tecnologias), pude perceber uma série de tensionamentos que indicam uma outra forma de repensar as escolas e, por conseguinte, os currículos. A primeira iniciativa que me chamou atenção foi as “doações de aulas”, campanha voltada para professores que tenham o interesse de desenvolver alguma atividade nas escolas — notei que os professores que doavam aulas, normalmente, trabalhavam com temas que destoavam do currículo tradicional: yoga, política e cidadania, cartoon, etc. Para se ter uma ideia, o cartunista Laerte ministrou uma aula em uma das escolas ocupadas.

Primeira lição: solidariedade, cidadania e, ao mesmo tempo, tensionamento dos currículos escolares, ou seja, outra escola inédita e viável (para usar um belíssimo conceito de Paulo Freire).

Cronograma de atividades em uma escola ocupada.

Outro tensionamento, é uma crítica à hierarquia nas escolas. Muitas escolas ocupadas denunciam as ações das direções que, em alguns casos, coagem os alunos e escondem materiais de necessidade básica: em uma escola, por exemplo, os alunos mostraram que enquanto a direção dizia que não tinha papel higiênico, no almoxarifado da escola, ao simples olhar, essa afirmação era contradita. Além disso, fazem questão de demonstrar a ocupação do espaço público como uma demonstração de um cuidado com o mesmo — uma lição diária, de organização e cuidado.

Segunda lição: problematizar hierarquias e compreender que o espaço público é de todos, e por ser de todos, deve ser cuidado, preservado.

Mutirão de limpeza em escola ocupada.

O diálogo que o Governador Alckmin tem proporcionado é polícia e repressão. Com apoio da grande imprensa, faz um esforço para transformar essas ações dos estudantes em ações “criminosas”. Assim como a greve dos professores em São Paulo, no início do ano, tratada com repressão, o governador mostra o lado PSDB de governar, pouco afeito à democracia e ao diálogo (precisariam entender melhor o que significa Social Democracia). No entanto, os alunos têm demonstrado o seu conhecimento acerca dos próprios direitos. Peitam policiais que tentam invadir as escolas sem mandado de segurança. Polícia paulista que é extremamente repressiva, que joga suspeito do telhado de prédios e executa suspeitos e forja provas contra os mesmos.

Terceira lição: eu sei dos meus direitos!

Abaixo um aluno peita um policial.

Aluno de escola ocupada questiona policiais: “Cadê o mandado?”.

Por fim, apenas para não fazer uma postagem muito longa, o movimento de ocupação das escolas criou uma forte campanha de boicote à SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), um golpe certeiro num sistema educacional voltado para a exposição e celebração de índices. No atual contexto da educação brasileira, os sistemas de avaliação do ensino, tem servido não somente como uma maneira de diagnosticar problemas de aprendizagem, mas transformarem-se em “indicadores de qualidade”, isto é, números que serão utilizados para auto publicidade do próprio governo. Neste sentido, geraram uma grande tensão que, com certeza, vão impactar nos “indicadores de qualidade da educação tucana” em 2015.

Quarta e última lição (por enquanto): Não dá para falar em qualidade da educação paulista, sem dialogar e propiciar um ensino que leve em consideração desejos e vontades dos estudantes.

Estudante faz o seu protesto na prova da Saresp.

Por que considerei esse movimento um sopro de tensão num ano pouco politizado? Pelo simples fato de ter introduzido no “espaço público” algo novo,problematizando as nossas certezas. A visão comum considera a escola um espaço em que os estudantes devem apenas assistir aulas, se esforçando, apenas, em serem bons alunos. Esse movimento, porém, questiona os modos como vem se produzindo uma escola, pouco afeita ao diálogo. Ao mesmo tempo, nos ensina que a política é feita no cotidiano, ele é molecular e transformadora. Sim, Alckmin, a ocupação das escolas pelos estudantes é uma ação política! Ainda bem…