Propaganda gratuita (ou sobre a lógica liberal brasileira)

Goya, O sonho da razão produz monstros, 1799.

O Congresso do MBL, como descrito pela Folha, aparece como a nova e interessante ideologia juvenil. A manchete aponta o evento como descolado, no sentido do uso de uma linguagem que facilita o acesso a discussões por vezes difíceis e técnicas como as do campo político (deveriam ser).

O mote é interessante, mas a receita me parece a mesma de sempre: o uso de uma linguagem rasa e estereotipada para desqualificar o oponente.

Na reportagem lemos um “interessantíssimo” argumento para não ser de esquerda. Munido de uma “notícia segundo a qual os jovens da atualidade transam menos os de gerações anteriores” um dos líderes do MBL afirma que: “Ser jovem é ser de esquerda e ser de esquerda é transar menos”. Note que a Folha sequer questiona a validade da “notícia” apresentada ou mesmo a validade do argumento. Mas uma vez que o mesmo possui uma forma lógica bem definida, podemos fazê-lo.

Se se quer dizer que os jovens de esquerda transam pouco então, ou se mostra uma pesquisa empírica disso, ou então estaria a se destilar preconceitos já que não há razão vinda do vento para tal afirmação. A suposta razão seria a pesquisa citada, que diz que os jovens transam menos. Ainda que isso seja um fato (algo questionável, mas vamos assumir para fins do argumento), a conclusão possível é que jovens, de esquerda e de direita, transam menos. Contudo, o líder apresenta outra pesquisa (igualmente duvidosa, mas vamos lá) que diz que “eleitores jovens preferem opções mais à esquerda”. Talvez ele estivesse tentando formular o seguinte argumento:

Premissa 1. Todo jovem é uma pessoa de esquerda.

Premissa 2. Todo jovem é uma pessoa que transa pouco.

Conclusão 1: Logo, toda pessoa de esquerda transa pouco.

Mas o argumento é claramente inválido! Ou seja, das premissas não se segue a conclusão. Veja outro exemplo: (assuma que as premissas são verdadeiras)

Premissa 3: Todo gaúcho é uma pessoa de esquerda.

Premissa 4: Todo gaúcho é uma pessoa que come churrasco aos domingos.

Conclusão 2: Logo, toda pessoa de esquerda come churrasco aos domingos.

Se a falácia não ficou clara, eu explico: a conclusão não se segue das premissas porque, de acordo com o argumento, existem pessoas de esquerda que não comem churrascos aos domingos, a saber, os não gaúchos (paulistas, cariocas… e que são de esquerda!). Logo, nem toda pessoa de esquerda come churrasco aos domingos. Mas isso contradiz a conclusão. Logo, o argumento é inválido.

Mas, mesmo que o falaciômetro apite alto mostrando que um dos líderes está falando besteiras (e nem a Folha nem o próprio MBL questionem isso), o que é ainda mais surpreendente (sim, ainda tem mais) é que um dos palestrantes do evento, Marek Troszczynski, analista financeiro polonês, afirme que (eu cito a reportagem): “pessoas de esquerda ‘perderam qualquer habilidade de argumentar de forma lógica e inteligente’”.

Do meu ponto de vista, é muito triste ver um meio de comunicação como a Folha agindo de modo completamente enviesado e sequer fortalecendo a avaliação crítica. Não obstante as falácias lógicas travestidas de pensamento crítico do MBL, não questionadas pela Folha, lemos que “as ideias de esquerda são hegemônicas na política e na imprensa, enquanto as ideias liberais representam a normalidade ou o senso comum”. Pois bem, aí está a Folha a representar o suposto “ponto fora da curva”: acrítico e representante do senso comum (no pior sentido do termo).

O palpite (porque é só isso, um palpite) da suposta hegemonia esquerdista não tem nem base empírica, nem base filosófica. Por último, para ser provocativo com o próprio movimento, ainda não consigo ver o MBL sequer como uma alternativa crítica ou mesmo liberal. No máximo se apresenta como uma alternativa conservadora, se é que podemos chamar a ideologia conservadora, cada vez mais hegemônica na política brasileira, de alternativa para alguma coisa.