Quase um partido político… plim-plim

Texto escrito em 28 de novembro de 2013.

No Brasil — e isso não é novidade — a grande imprensa se comporta como um partido político, ou melhor, tem um posicionamento político bem marcado, porém, não se assume enquanto tal. Isso tem ficado muito claro nas últimas semanas. Vou citar, no entanto, um caso mais antigo, o caso do “mensalão”. A Rede Globo fez uma grande cobertura, com spots e tudo mais, fazendo-nos acreditar que o julgamento era um dos grandes acontecimentos do século XXI, bem como a ideia de que o PT é um partido que “criou” a corrupção no país, uma afirmação que carece de um estudo histórico. Entretanto, pouco se vê na grande mídia os jornais pressionarem e falarem sobre o “mensalão tucano”, tão ruim e nefasto para a política brasileira, quanto o “mensalão do PT”, cujo o julgamento foi cheio de sensacionalismos, como dito acima.

Não é de hoje, que a Rede Globo, por exemplo, tem blindado o PSDB, bem como o apoiado. Um exemplo clássico é na última eleição em que a emissora apoiou descabidamente o candidato José Serra, chegando ao ridículo de criar um factoide que Serra tinha sido “agredido” por militantes petistas por uma bolinha de papel.

Há algumas semanas estourou o escândalo dos cartel do metrô de São Paulo que cobre os governos tucanos de Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra. Quando o escândalo estourou, alguns blogs criticaram o silêncio da imprensa em relação ao tema. A Rede Globo, porém, vem noticiando esse fato sem se referir nas chamadas das matérias ao PSDB, como, por exemplo, essa notícia, intitulada “Ex-diretor da Siemens cita políticos em denúncia de formação de cartel”. Tenho certeza de que se a notícia fosse ligada do PT, a notícia seria a seguinte: “Ex-diretor da Siemens cita políticos do PT em formação de cartel”. Ora, é simples assim. Na atual conjuntura, dizer que um político está envolvido em um crime de corrupção (“formação de cartel” é outro eufemismo para encobrir o PSDB, na minha opinião) não é algo que chame muito a atenção. Sendo mais realista ainda, e conhecendo o naipe da Rede Globo, creio que a chamada mais indicada, caso o PT estivesse envolvido no “cartel”, seria: “Ex-diretor da Siemens cita políticos do PT em denúncia de corrupção no metrô de São Paulo”. Notem que, do ponto de vista simbólico, esse enunciado tem muito mais peso do que o primeiro.

No mesmo período, para encobrir ainda mais, a Rede Globo noticiou — tudo no mesmo período do escândalo do “trensalão”, a notícia de que o Governador Alckmin tinha sido ameaçado de morte pelo PCC, o que fez com que o governador saísse como uma vítima e um guerreiro que vai acabar ser mais rigoroso com as prisões. Notem, que a notícia é de outubro, e o escândalo do “trensalão” continuando…

Nessa semana, quando a investigação do “trensalão” começou a ficar mais forte, descobre-se uma suposta interferência do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo na investigação, surgindo o discurso de que o Governo Federal está usando esse episódio abafar as prisões do mensalão. Ora, obviamente, o fato de o ministro ter interferido, não significa que a corrupção no metrô de São Paulo não seja real. Podemos dizer, se seguirmos a mesma lógica, que o PSDB está usando as prisões do mensalão para abafar o seu “trensalão”. Além disto, mais um fato surge e a mídia dá uma imensa atenção, a saber, o salário do possível novo emprego de José Dirceu que, a meu ver, não é tão importante quanto o fato de um helicóptero, que pertence a um senador aliado antigo de Aécio Neves, ser apreendido pela polícia federal com 450 Kg de cocaína. Ora, pode ser uma questão de escolha e de importância da matéria, mas me parece que a intenção da Rede Globo é blindar o PSDB e, consequentemente, o seu futuro candidato à presidência da república, o senador Aécio Neves. Não vejo nenhum problema de um veículo de comunicação ser tendencioso em relação àquilo que acredita e propaga, todavia, se torna um problema se esse veículo não assume a sua posição, bancando de “imparcial”, coisa que nenhum veículo é. Nesse sentido, me parece louvável posições como a adotada pela Carta Capital (revista assumidamente de esquerda) na última eleição para a presidência da república que assumiu uma posição no pleito. Posições assim, tornariam a nossa mídia mais honesta e menos imbecilizante.


Originally published at marcos-goulart.blogspot.com.br on August 18, 2015.