Como aprendi a abraçar minha sombra

Abro os olhos.
A primeira coisa que tomo consciência é que estive deitada em uma rede. Olho ao redor e vejo magnífica paisagem: árvores, extenso gramado e um sem-número de flores harmoniosamente alocadas no jardim à frente. Estou na varanda de uma charmosa casa rústica. Pequenas flores azuis, as miosótis, se emaranham nas colunas da sacada. Ouço pássaros cantando e o som de água corrente que, apesar de não ser visível no horizonte, parece bem próximo.
Acordo feliz e grata por mais um dia de existência. Tenho uma pilha de livros sobre os mistérios da vida e o universo em cima da mesa ao lado da rede, uma caneca que logo encherei de chocolate quente e o notebook onde passarei boa parte da manhã escrevendo meu mais recente livro. Estou sozinha na varanda.
Meu companheiro foi atender um cliente a domicílio e minha filha está terminando o café da manhã antes de ir para a escola. O transporte escolar logo chega, dou um abraço apertado nela, desejo bom dia e, minutos depois, me encontro sozinha em casa. Deixo o chocolate esquentando e entro no banheiro para lavar o rosto e acordar de vez.
Sonolenta, encaro fixamente meu reflexo no espelho. Sou feliz. Tenho uma boa situação financeira, apesar de não ser rica. O relacionamento amoroso é ótimo, a filha cresce saudável e cada vez mais inteligente. Vivo em um local tranquilo e próximo à natureza, porém consigo alcançar as facilidades da vida moderna em 15 minutos, se quiser. Recebo amigos em casa frequentemente, pois promovo encontros entre pessoas comprometidas com autoconhecimento e expansão consciencial, em que debatemos sobre os principais desafios da vida moderna e como nos adaptar a ela sem descuidar de nossa essência divina.
Os anos correm tranquilos e edificantes, sempre trazendo aprendizados novos. Todo o passado recheado de angústia, dúvidas, dor e tristeza já não tem mais espaço em mim. Enterrei-o bem fundo e agradeço por nunca mais ser escrava dessas emoções negativas de novo. Eu era agora uma pessoa mais evoluída. Absolutamente segura e imune a toda essa negatividade. Afinal, eu tinha quase tudo o que uma pessoa poderia desejar, vivia de acordo com as leis naturais, auxiliava o outro sempre que possível, aproveitava os prazeres da vida e não fazia mal a ninguém.
Tudo isso passa por minha mente enquanto abro a torneira e faço menção de lavar o rosto. Refreio a ação ao perceber que há algo de errado com o espelho. Meu reflexo está distorcido e observo, surpresa, quando a imagem começa a se alterar.
Uma mulher, parecida comigo, surge à minha frente, mas não sou eu. Ela tem cabelos bagunçados, olhos caídos e inchados, olheiras. Olha para mim e, percebendo minha presença, seu semblante triste se transforma totalmente. Furiosa, ela estende os braços para fora do espelho, tentando me atingir com tapas e socos. Recuo alguns passos e grito. Esfrego os olhos e a imagem continua ali, e apesar de não conseguir sair do espelho, começa a me xingar, batendo no vidro.
Começo a raciocinar furiosamente.
Aquilo seria uma alucinação? Um espírito obsessor tentando me atingir? A bizarra figura some do espelho, e meu reflexo pálido e de olhos arregalados aparece à frente. Atordoada, desço as escadas tremendo e tento organizar as ideias, sem sucesso. O que poderia ter acontecido?
No espelho da sala, bem em frente à escada, a mesma imagem surge, dessa vez maior. A mesma mulher reaparece, me procurando pelo ambiente. Ao me encontrar, volta a querer me agredir, batendo furiosamente as duas mãos
no espelho. Procuro me acalmar.
“Quem é você e o que quer?”
Tento estabelecer um diálogo com a criatura atormentada, talvez fosse um espírito em sofrimento precisando de ajuda, se manifestando com minha aparência para me chamar a atenção.
A criatura do espelho ri alto.
“Você não sabe quem sou eu? Tem certeza? Não reparou que temos a mesma aparência?”
“Isso não quer dizer nada. Você pode ter plasmado essa forma para me assustar. Entendo que tem raiva de mim e provavelmente é uma inimiga de vidas passadas. Seja lá o que eu tenha te feito, me desculpe, de coração. Espero que você consiga me perdoar e encontrar seu caminho para a luz”, eu disse, me lembrando das palavras que ouvi em sessões de desobsessão dos encontros espíritas que já participei.
“Você não entendeu ainda? Eu sou você. Estive ao seu lado em todos os momentos dessa e de outras vidas, do seu nascimento até a morte. Por várias vezes eu tentei me fazer escutar, mas você me trancou aqui, abafando meus gritos. Às vezes, apareci para você em seus sonhos, mas você associou a mim o mal que necessitava ser expulso. Eu sou a sua sombra. Eu sou tudo o que você nega ainda existir em você, e quanto mais você me reprime, mais eu cresço e sinto em mim vontade de te prejudicar, a fim de que você finalmente me escute e me deixe sair daqui.”
A postura raivosa deu lugar às lágrimas, a mulher do espelho não queria mais me machucar. Encostou o rosto do vidro e soltou um suspiro cansado, como se já estivesse exausta. Encarei aquela figura com um misto de sentimentos florescendo em mim: espanto, curiosidade e, finalmente, irritação.
Como era possível que eu, já tendo superado os aspectos ruins de minha personalidade com árduo empenho em me manter centrada no bem, tivesse dentro de mim algo tão primitivo?
“Você deve estar enganada. Há muito não tenho mais uma sombra, sou muito feliz e em mim só há lugar para a luz. Sinto muito se você acha que tem alguma coisa a ver comigo, mas está claro que você se equivocou. Sua presença me incomoda, gostaria que se retirasse daqui agora.”
Tentei falar com educação, mas aquele espírito obsessor estava me irritando. Com certeza havia me confundido com alguém e se sentia no direito de me cobrar alguma coisa. Que absurdo! Logo eu, tão comprometida com a expansão da consciência.
“Ah, veja só. Agora estou lhe irritando. Sim, esse sentimento é muito familiar para mim. Sempre que algo não acontece da maneira que espera, você se irrita. E quanto mais as coisas demoram a acontecer como você quer, mais impaciente fica. Depois você se acalma pensando que as pessoas que não conseguiram entender o que desejava, ou não eram ‘evoluídas’ o suficiente para compreender suas necessidades por isso as ‘perdoa’ pelo deslize, então a irritação passa. Se eu sumir daqui agora, provavelmente você vai seguir essa linha de comportamento a meu respeito.”
Fiz menção de contestar o que a mulher dizia, mas hesitei. Algo me incomodava por dentro, sensação semelhante a de engolir um alimento que ficou preso na garganta. Eu não tinha como desmenti-la. Parei para refletir sobre o que a mulher havia falado e percebi que ela tinha razão. Em vários momentos de minha vida eu tinha me comportado daquela forma, mentindo para mim mesma por que não me permitia admitir que ficava irritada quando as coisas não aconteciam como eu queria.
Eu era intransigente.
“Você tem razão, sombra. Eu realmente ajo dessa forma, sou
uma pessoa hipócrita. Não mereço as coisas boas que me acontecem, mesmo quando elas não saem como eu planejei” admiti, triste.
“Ah, outra vez você me evoca. Vitimismo e autodepreciação. Esses são outros aspectos em mim que você não percebe crescendo, e isso me machuca. Porque você torna tão negativo e exagerado a admissão dos seus defeitos? Na verdade, você busca, com esse exagero, chamar a atenção para que seu ego diga ‘imagine, isso não é nada, existem pessoas com defeitos tão piores, além disso suas qualidades se sobressaem’ e mais uma vez, você enterra o sentimento negativo e eu ganho mais força.”
Senti que as palavras da sombra atingiam meu ser com a precisão de um instrumento cirúrgico. Deixei a postura derrotista de lado e me sentei nas escadas, pensativa, encarando a mulher no espelho. Ela também me olhou nos olhos por longos minutos, séria.
“O que eu posso fazer para compensar isso?” finalmente quebrei o silêncio entre nós.
“Você tem que parar de me negar. Todos têm luz dentro de si, mas também existem as sombras. Nós fomos criadas a partir do momento em que você nega a existências dos aspectos ruins da sua personalidade, ao invés de admiti-los e trabalhá-los de maneira saudável.”
“Mas admitir as sombras não é se deixar levar por elas? É tomar consciência de que sou uma pessoa intransigente mesmo e ponto? Como isso pode ser positivo para minha evolução?”
“Admitir que eu existo não é se acomodar na negatividade. É assumir que ainda há partes de você que precisam ser compreendidas e tratadas, a fim de que, aos poucos, sejam dissipadas naturalmente. Quando você se sentir irritada, diga para você mesma: ‘é, estou irritada por causa de XYZ, mas sei que é uma emoção passageira, devo me acalmar e entender o porquê de eu ter saído dos eixos’. Fazendo isso você admite a emoção negativa e tem mais clareza para perceber a origem dela, reconhecendo um padrão e se preparando para lidar melhor com ele quando se repetir. Caso contrário, se você fingir que não aconteceu ou apenas explodir sem tentar entender o porquê eu só vou crescer mais e mais, sempre separada de você, o que vai te trazer muito sofrimento. Eu não quero que você sofra, porque eu sou você também. Nós somos apenas uma, não entendo o porquê ter me trancado aqui e nunca mais tentado conversar comigo.”
Lágrimas me encheram os olhos. Eu estava triste, lamentando por todas as vezes em que reprimi algo que fazia parte de mim. O orgulho me impedia de enxergar o quanto eu ainda precisava aprender para evoluir, aquele encontro era prova disso. A consciência de saber que tenho aspectos negativos em mim não me faz uma pessoa má. Assim como saber de minhas qualidades não me torna boa.
O verdadeiro autoconhecimento, sem floreios, consistia em encarar também tudo de ruim que guardei em mim todo esse tempo. Enxuguei as lágrimas, determinada. Dali para frente seria diferente. Agora eu sabia que a única forma de realmente extinguir a escuridão em si é tomando consciência dela, entendendo o porquê dela ter surgido para, só então, fundi-la à luz já existente, ampliando-a ainda mais.
Fui até a mulher do espelho, a parte de mim que eu havia trancafiado tão cruelmente há eras, e tentei tocá-la. Sua mão encostou no vidro, próxima à minha, seus olhos estavam marejados, porém aliviados. Pedi perdão por todas as vezes que a neguei em mim e prometi cuidar melhor dela, a fim de que
pudéssemos nos curar juntas.
Fechei os olhos e senti que uma luz brilhante, prateada nos envolvia. Assisti, maravilhada, a sombra sair do espelho com a forma parecida com vapor. Abracei-a, e aos poucos, senti que ela se fundia à minha forma física, até estar totalmente integrada em mim. Ao olhar para o espelho não havia mais murros, gritos, olhos tristes e caídos.
A sombra havia desaparecido. Eu agora a via apenas em meu reflexo, nos olhos brilhantes e num sorriso cheio de gratidão.
