Libertando-se da dor

Em um planeta de contrastes como a Terra, onde parecemos precisar do ruim para nos lembrar que existe o bom, muitos de nós teimam em não ouvir a teoria e o resultado é o aprender na prática — ou na marra — e isso, não raro, leva ao caminho da dor.
Nada é absoluto.
Analisando hoje o porquê sofremos em alguma situação, me pego imaginando se não ignoramos os vários alertas que nos foram dados antes de aprendermos a lição da pior forma possível. E tal aprendizado por vezes se expressa por meio da dor.
A dor é professora severa, porém infalível. Demore dias, anos, séculos ou milênios: em algum momento ela nos alcança quando os apelos do amor e da reconciliação falham. Pode chegar ao ponto em que nos cansaremos de senti-la questionando o porquê de termos chegado ali.
Começaremos a pensar que se talvez tivéssemos tomado um caminho diferente — ouvido os conselhos de pessoas que realmente nos amam, aplicando na prática os ensinamentos que estamos recebendo há milênios de alguns mestres da sabedoria, como Jesus, Buda, Gandhi, Osho, Platão, ou seja lá qual referência você considere um modelo — aquela dor não seria necessária.
Podemos não ouvir, mas o tempo todo temos ao nosso lado a voz da razão nos pedindo para aprender com as experiências e erros alheios sempre que possível, evitando que desnecessariamente passemos por um caminho que também levará ao aprendizado, porém de forma bem mais difícil. Um exemplo bobo é que você não precisa colocar sua mão no fogo para saber que vai se queimar e sentir dor, ou que se você atravessar a rua no meio dos carros tem grande chance de ser atropelado. Desde crianças, ouvimos essas recomendações e não precisamos testá-las pra ver se realmente vão nos fazer mal.
Para simplificar, é só pensar na nossa passagem pela vida como um enorme bumerangue: na mesma velocidade que o jogarmos, ele voltará para nós, então precisamos ser cautelosos quanto à força com que vamos jogá-lo. Não recebemos punições ou castigos, apenas colhemos o que plantamos, e isso se estende em todos os níveis, não apenas quando falamos de algo grave, como roubar, matar ou prejudicar alguém.
Você pode pensar que não há mal algum em ignorar deliberadamente um pedido de ajuda quando o amigo quer desabafar, ou em furar a fila quando ninguém está olhando e ainda contar aquela mentirinha vez ou outra. São atitudes que cometemos todos os dias, pois já se tornou natural achar que isso não é nada demais. Realmente, são hábitos a que todos nós estamos sujeitos. Exigir a perfeição em cada atitude dessa seria tão penoso e cansativo quanto contar cada pensamento que temos durante um dia inteiro.
Nós vamos cometer essas pequenas falhas em algum momento, sim. O que a espiritualidade nos propõe é que nos tornemos conscientes dessas atitudes quando elas ocorrerem, sem auto punição, ao assumir que aquele é um pensamento/atitude de autoria nossa, e que trabalharemos para que não se repitam com tanta frequência. Esses exemplos simples são apenas para demonstrar que a forma de driblar o aprendizado através da dor é ter mais atenção ao que estamos emitindo para o universo.
Você não precisa ser perfeito, estamos muito longe disso. Sem contar que definir o que é a perfeição está além do nosso alcance e abriria um outro debate sobre quem decide onde a perfeição começa e termina. O que precisamos urgentemente é sermos mais vigilantes com nossas atitudes. Sem querer dar passos muito largos, apenas fazendo o melhor que pudermos naquele dia pois é de pequenas atitudes e hábitos que vamos moldando nosso caráter e realizando uma transformação sólida e verdadeira.
Já está se esgotando o tempo de nos escondermos atrás de dogmas religiosos e acreditar que está tudo bem em seguir uma fórmula mágica (tomar um passe, uma hóstia, aceitar Jesus, comprar cristais, aprender reiki, etc) e não olharmos para dentro, nos conhecermos a fundo, de tentarmos nos relacionar da melhor forma com tudo e todos que nos cercam. A salvação vem de dentro. Todos os elementos religiosos ou filosóficos que impulsionam isso ajudam, mas se a essência não acompanhar o processo, ele vai ser tão inútil quanto um relógio sem os ponteiros.
A teoria é fácil, você pode pensar. Ninguém conhece profundamente sua história, suas marcas, suas influências para ser do jeito que você é. Isso é verdade. É por isso que você, antes de qualquer um, precisa conhecer os seus próprios gatilhos e reconhecer uma falha antes dela vir à tona. E, se vier, não se martirizar ou reprimir, senti-la e tirar a lição que for necessária dela, sem apego ou culpa. Isso é auto conhecimento, isso é evolução.
As cicatrizes que o aprendizado pela dor nos causa também possuem seu valor, só que vem com um preço. O tempo que elas levarão para cicatrizar entre uma lição e outra, você está disposto a perder?
