Porque você (não) deve dizer a verdade.

A verdade impõe sacrifícios, entre eles o da solidão

Quantas vezes uma palavra é dita solta e descontextualizada ou então vai juntando-se a outras para transformar-se em textos para depois já não conseguirem comunicar o que queriam dizer inicialmente. Nessa problemática explico que os significados expressos neste texto sobre a verdade estarão misturados a fatos cotidianos e, por isso, partiram de pontos de vista pessoais.

Outro ponto a ser, antecipadamente, esclarecido é o título: “Porque você (não) deve dizer a verdade”. Nele o porquê é indicativo de resposta, ou melhor, é representativo da vontade individual em discutir o tema verdade. Então continuemos,

Verdade: 1. conformidade com o real; exatidão. 2. Sinceridade, franqueza. 3. Coisa verdadeira. 4. Princípio certo. (2008, p.1.175).

Algo que também quero esclarecer é que a escrita desde texto foi iniciada ontem, em pensamento, logo depois que recebi um abraço do meu filho [Gustavo]. E esclareço: Ele sempre faz questão de abraçar-me. E eu, às vezes, quero que ele seja rápido em seu abraço, mas ele teima em me envolver… E Gustavo diz em gestos: o melhor abraço é quando é demorado, apertado e chamegado…

Porém ontem o questionei: — Filho, por que queres o meu abraço? Por que sempre fazes questão de dizer que me amas? Tu me amas mesmo, verdadeiramente? Ele respondeu: — (Não) Eu (não) te amo. Que bom que ele (não) falou a verdade! E sorrindo da brincadeira dele, acrescentei: — (Nunca) Sempre diga a verdade, (minta) para as pessoas quando elas, fragilmente se entregarem para ti.

Assim fiquei eu a pensar neste amar e ser amado, sendo também que surgiu da escrita de um texto aberto às múltiplas interpretações de um (Não) Eu (não) te amo, cabendo nele tanto uma verdade (Eu te amo, mãe.) para uma provocação do ser óbvio amar-me ao ponto de não precisar mais dizer tal verdade. Isto para mim é metafórico.

E também matutei: (Não) Fales a verdade. Ou melhor, (não) fales verdades (já que estas são muito mais tuas do que dos outros). Ainda, atente que é importante que você (não) fale pro outro aquilo que você (não) quer que ele saiba [verdadeiramente]. Então, é isto: (Não) Deves falar verdades como uma atitude direcionada ao outro e, sim para ti mesmo. Todavia, é bom que você (não) se arrependa em (não) ser verdadeiro. (Não!) Seja o porvir de intencionalidade no vir a existir e compreenda que nada (ou tudo) acontecerá de repente.

E continuando pensativa em relação à dependência social do querer amar para receber algo em troca (mesmo que fosse um Eu te amo). Assim, situado este conflito existencial de querer mais do outro, estando ele (in)capaz de dar-te o que tu queres receber. Fui buscar em Viktor E. Frankl alguma explicação para o meu momento de vazio existencial, recebendo dele que,

Tatuagem no pulso em meu braço direito

“Como tem de estar feito homem, que elementos estruturais tem de haver na sua existência, para determinação das circunstâncias o levem a sofrer de uma frustração existencial?” (2003, p.13)

E Frankl continua…

“Pessoalmente, penso que tal situação só é possível se aceitarmos que o ser humano, no fundo — e, portanto, essencialmente, ou pelo menos originalmente — se move e é motivado por uma ‘vontade de sentido’ […] o homem como ‘ser à busca de sentido’, um ser que quer encontrar para toda a sua existência e para cada situação no interior da mesma um sentido — e que depois quer realizá-lo. (2003, p.13–14)

Então eu pensei se “o homem como ‘ser à busca de sentido” precisa saber-se amado pelo filho é porque, talvez, saber se se é amado verdadeiramente faça parte de um processo de validação interior depois de um longo processo de existência como pessoa maternal que dedicou tempo e muitos gestos de carinho e afeição (aos filhos, por exemplo).

Portanto, (não) falar a verdade será sempre o (calar/o não) falar o que se pensa de fato. Trata-se de um processo demorado e interdependente de construções individuais e de tantos outros fatores inerentes da convivência social.

Certamente, nesta convivência precisaremos dar ao outro o que temos verdadeiramente, quer sejam pensamentos, histórias, coisas boas ou ruins. Para tanto, poderemos dar o que imaginamos ter… Talvez, numa projeção do querer ser melhor pro outro, antes de sermos melhores para nós mesmos.

Todavia retomemos. Desta vez, trazendo o falar (ou não) a verdade, sendo que chamei Eco e Narciso para esta reflexão. Assim,

Eco era, uma bela ninfa, amante dos bosques e dos montes, onde se dedicava a distrações campestres. […] Tinha um defeito, porém: falava demais e, em qualquer conversa ou discussão, queria sempre dizer a última palavra.
Certo dia, Juno saiu à procura do marido, de quem desconfiava […]. Eco, com sua conversa, conseguiu entreter a deusa, até as ninfas fugirem. Percebendo isto, Juno a condenou com estas palavras:
— Só conservarás o uso dessa língua com que me iludiste para uma coisa de que gostas tanto: responder. Continuarás a dizer a última palavra, mas não poderás falar em primeiro lugar. […]
A ninfa viu Narciso, um belo jovem, que perseguia a caça a montanha. Apaixonou-se por ele e seguiu-lhe os passos. Quanto desejava dirigir-lhe a palavra […] Esperou, com impaciência, que ele falasse primeiro, a fim de que pudesse responder. Certo dia, o jovem, tendo se separado dos companheiros, gritou bem alto:
— Há alguém aqui?
— Aqui -respondeu Eco.
Narciso olhou em torno, e não vendo ninguém, gritou:
— Vem!
— Vem!-respondeu Eco.
— Por que foges de mim? -perguntou Narciso. Eco respondeu com a mesma pergunta.
— Vamos nos juntar -disse o jovem. A donzela repetiu, como todo o ardor, as mesmas palavras e correu para junto de Narciso, pronta a se lançar em seus braços. (BULFINCH, 2006, p.107)

Precisamos interromper este relato para pensar no que Eco fez com Narciso, sendo o possível de ser feito, isto é, repetiu as palavras dele, fazendo-as delas sua verdade. Espero que você esteja atendo ao objetivo desta discussão, sendo capaz de generalizar na atitude de Eco, algo muito comum de se fazer na atualidade. Ou seja,

Tatuagem no meu braço esquerdo

Tornar meta de existência pessoal a verdade do outro. Mas isso não nos dará garantias de termos a nossa própria verdade. E muito menos de que ela será dita ou aceita, essencialmente, pelo outro.

Continuemos a história de Eco e Narciso…

— Afasta-te! — exclamou o jovem, recuando. — Prefiro morrer a te deixar possuir-me.
— Possuir-me -disse Eco.
Mas tudo foi em vão. Narciso fugiu e ela foi esconder sua vergonha no recesso dos bosques. Daquele dia em diante, passou a viver nas cavernas e entre os rochedos das montanhas. De pesar, seu corpo definhou, até que as carnes desapareceram inteiramente. Os ossos transformaram-se em rochedos e nada mais dela restou além da voz. E, assim, ela ainda continua disposta a responder a quem que a chame e conserva o velho hábito de dizer a última palavra. (BULFINCH, 2006, p.108).

Restou a Eco a repetição de palavras após serem ditas, apenas como repetição do repertório do outro. Eu, porém elegi duas: Existência e Essência, gravando-as na pele para que representassem o que sou já que posso decidir ser parte e até me tornar palavra.

Entretanto, diferentemente de Eco, estas palavras representarão buscas individuais e possibilidades de sentido coletivo. Até porque buscar verdades só por meio de compartilhamento do caminhar durante a existência, nunca solitário.

Aqui introduzo um breve relato antes de concluir este texto. Desta vez, para contar que eu estive sem conseguir comunicar-me, com ou sem palavras, com a minha filha, a Paula. Por isso, busquei ajuda com alguém que me ensinou, o que antes eu pensava que já sabia: o significado de amar de verdade.

Infelizmente, eu não tenho a autorização expressa dela para reproduzir o seu texto enviado para mim, mas posso traduzi-lo por meio de uma interpretação livre, de paciente em terapia, assim:
O ser quando está em um relacionamento pede carinho ao outro e quem pede, necessariamente, deve exercer toneladas de carinho na direção desse outro. Além disso, ressalta que se tratam de duas pessoas primeiro devemos ser duas vezes mais carinhosos com essa pessoa da qual queremos receber carinho. Isso para mostrarmos a ela que é cuidada. Assim, cuidar do outro e mostrar que o outro é amado. Somente assim, podemos amar, fazendo com o outro se sinta seguro para que ele também ofereça segurança. E precisamos tirar o foco da gente e pensar o que nós podemos fazer em determinada situação — isto se queremos o bem comum.
  • Isso merece ser compartilhado (não apenas) para reproduzir. Por isso será deixado como reflexão de palavras adaptadas da fala da minha terapeuta, como uma possibilidade de reprodução do que elas comunicam, sendo pra mim encontro com a minha existência — como resultado da autenticidade que eu precisava conquistar a cada amanhecer.

No meu caso com a filha, atualmente somos amigas dentro da possibilidade e do querer poder ser mais, verdadeiramente, tentando dar a ela mais do que eu espero receber em troca. Desse modo, estará em jogo não as minhas verdades (a minha palavra de mãe, por exemplo) e, sim o que se escuta (ou não), o que se discute juntas (ou não) numa relação de mãe e filha — essencialmente, devendo ser cheia de cumplicidade, de segredos, de reticências... Por isso, existindo na representação de um ontem, de um hoje que continuará sempre sendo vivido num agora (bem aqui neste instante).

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REFERÊNCIAS

BULFINCH, Thomas. Mitologia: Histórias de desuses e heróis. 34.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

DICIONÁRIO BARSA da Língua portuguesa. São Paulo: Barsa Planeta, 2008.

FRANKL, Viktor F. Sede de sentido. 3.ed. São Paulo: Quadrante, 2003.

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E após ler este texto, o que você responde sobre o (não) falar a verdade? Ou melhor, podes também dizer o que é verdade… Olhe bem aí, tem um coração. Pode marcar nele? E se você achou legal compartilha, tá?