Arrependimento

- Você não se arrepende, Silvia?

Pergunto, deitado na cama com o cinzeiro sobre o peito. O cigarro queima lentamente entre os dedos. Silvia fica pensativa depois do sexo. Suas respostas se resumem a murmúrios e movimentos da cabeça. Me olha, fica séria, suspira. Abre a boca para falar mas o pigarro é espesso. Tenta novamente.

- Do que você fala? — pergunta.

- Você sabe muito bem… seus filhos, família…

- Está apaixonado por mim, Carlos?

- Não… por quê?

- Pois parece…

- Não estou. Só queria saber se você não se arrepende.

- Não.

Escuto os pingos do chuveiro caindo no chão. As instalações deste motel são péssimas. Quarto pequeno. Uma cama, um criado mudo, um armário, uma televisão de 14 polegadas. Acho que não funciona mais. Se funcionar, deve pegar apenas os canais abertos, alguns deles reproduzindo as cores fora de padrão e um som insuportável. Outra gota. Será que ninguém reclama disso para o dono ou para o gerente? Mais uma. Vou reclamar. Farei isso por mim e pelos demais. Esse barulho é horrível.

- Coloca uma música, Carlos.

- O quê você quer ouvir?

- Me surpreenda, gracinha…

Gracinha. Odeio ser chamado assim. Sinto o rosto pegar fogo. Pareço criança. Minhas tias me chamavam assim quando pequeno. Música, música, música… Rock? Anos 60? Já sei, psicodelia. The Seeds, Electric Prunes. Não. Acho que anos 80. Pra dançar. Em cima da cama. Ir para um lado, para o outro. Depois cair sem medo de se machucar. O colchão amortece. O colchão deste motel, com certeza não. Mas amortece. Vai amortecer.

- Coloca algo que eu nunca tenha escutado.

- E como vou saber?

- Você já fez isso antes, mas eu não te falei.

- Assim fica difícil, Silvia.

Anos 80. Fim dos anos 80. É claro que ela conhece New Order mas quero ouvir agora. Temptation dá pra dançar até cair no colchão. Mexo no celular, a internet está lenta. Ela não me olha. Fica deitada. Dá pra ver o nosso reflexo. Não estou apaixonado. Tenho certeza de que não estou apaixonado. Por ela, seria um erro. Ah!, esses pingos… Continuam a cair. Um. Dois. Três. Quatro. Achei! Temptation. Ela sorri. Diz conhecer, mas adora. Acertei.

- Você trouxe o vinho?

- Sim, está na minha mochila.

- Quero uma taça

- Vai ter que ser no bico. Aqui não deve ter copo.

- E trouxe abridor?

- Claro.

- Não é a sua primeira vez aqui, então, gracinha.

Desconverso. Pego o saca-rolhas na mochila. Gosto do som da rolha saindo da garrafa. É domingo, de manhã. Nove e quarenta e sete. Está nublado. É inverno em São Paulo. Ofereço a garrafa. Ela bebe um gole grande. Deixa uma gota escorrer pelo queixo. Atento, passo meu dedo indicador pelo queixo e chupo o líquido derramado.

- Você é um fofo, gracinha. Não pode se apaixonar por mim.

- Não estou apaixonado.

- Não está?

- Não.

- Então por quê ficou assim?

- Assim como?

- Assim.

- Estou cansado. Acordamos cedo.

- O dia começa muito mais cedo, bonitão…

- Não aos domingos.

- É, mas para nós ele já começou faz tempo.

- Na verdade o sábado não acabou.

Ela ri. Ri da minha ingenuidade. Dos meus sonhos. Da minha idade. Beija-me a testa, pega a garrafa da minha mão e toma outro gole, desta vez sem derramar. Coloca a cabeça no meu ombro e diz, baixinho: não me arrependo. Nem um pouco. Viro para o outro lado e sorrio.

- Já faz seis meses que estamos saindo — ela continua.

- É… passou rápido.

- Eu gosto de você.

- Eu também gosto.

- Então porque aquela pergunta?

- Sei lá.

- São muitas as suas questões, não é mesmo? Você pensa demais. Vamos desse jeito que dá certo. Não idealize aquilo que não sou, Carlos.

- Eu odeio idealizações, você me conhece.

- É por conhecê-lo que digo isso.

- Como assim?

- Não queira mais do que as coisas são.

- Eu não quero.

- Rimbaud escreveu “la rose est sans porquoi”.

Sorrio. Ela me pegou. Adoro Rimbaud. As coisas como elas são… Que raiva! Vendi o peixe e não entreguei o prometido. Tosco.

- Hoje não vamos almoçar juntos.

- Por quê?

- Preciso buscar meu marido e meus filhos no aeroporto.

- Eles não iam voltar amanhã?

- Iam, mas ele decidiu antecipar, hoje completamos 9 anos de casados e provavelmente armou alguma surpresa, talvez um jantar em um restaurante fino, chique e muito caro.

- Por quê me conta isso?

- Gosto da sinceridade.

- Não quero saber de detalhes.

- São os detalhes que marcam a vida.

- Esses não me interessam. E sim!, estou apaixonado por você.

- O começo do nosso fim.

- Imaginei… mas não quero.

- Então vai com calma.

Me levanto. Nu. Visto a cueca e vou até a janela. Continuo ouvindo os pingos caírem no box do banheiro. Que ódio. Talvez um banho. O barulho da água em enxurrada, quentinha, nas costas, vai ser bom. Sim. Um banho vai ser bom. E vai acabar com os malditos pingos.

- Quer companhia? — gritou Raquel.

- É sempre bom.


Na porta do motel nos despedimos. Um beijo no rosto, um prazer, foi muito legal, obrigado. Cada um para o seu lado.

- A gente se fala…

- Até mais, Carlos.