Bola de boliche

Atílio, programador, órfão. Magro, nariz adunco e septo saliente. Olhos castanhos e tristes, reforçados pelas olheiras. O cabelo, liso e fino, não tem corte. Suas sobrancelhas são grossas e tortas. Esta é a aparência do meu colega de trabalho. Fosse por essas características, e somente elas, todos estariam satisfeitos. Entretanto, seu gênio incomoda.

É comum haver discussões na sala a respeito do cotidiano. Notícias, tendências, novidades e atos, sejam eles políticos, culturais ou esportivos, todos entram em pauta diariamente. A sala de trabalho, pequena, 37 metros quadrados divididos em 12 mesas e 9 pessoas já nos causa um sufocamento. Mas para contemplar este espaço, os comentários do nosso colega, suas piadas e suas tentativas de se aproximar dos outros faz dele um inconveniente.

Semana passada, numa calorosa discussão sobre futebol, opiniões e apontamentos fizeram da pequena startup um campo de guerra. Dois afirmavam, entre risadas, ter sido a derrota da seleção brasileira um vexame esperado. “Fomos desmascarado. O 'jeitinho' brasileiro foi debulhado pela disciplina americana!”, diziam. Outros, mais céticos, sem deixar de lado o humor, completavam. “22 homens correndo atrás da bola, uma plateia de babacas ao redor. Nada mais bonito de se ver, o povo na miséria e os jogadores milionários”. Apenas um, Samuel, os rebatia, dizendo ser o resultado uma mera força do acaso.

Atílio acompanhava tudo rindo espalhafatosamente. Forçava. Querendo marcar presença na roda, emendou: “Ah, mas pra mim essa Copa do Mundo foi boa, tomei muita caipirinha na Vila Madalena. Nem pagar eu paguei. Os bares estavam lotados, deu pra sair de fininho”. Silêncio. Cada qual age de uma forma. O Renato e o Fernando, atônitos com o comentário, esboçam o velho sorriso amarelo. A Natalia, sem graça, aumenta o volume dos fones de ouvido. Ela não gosta dessas discussões. Os demais, cada qual em seu espaço, se encolhem nas cadeiras. A quietude, bastante intimidatório, parece aumentar. “Qual é, gente? Ninguém nunca fez isso? É Copa!”

Todos voltam aos computadores. O mal estar foi instaurado no ambiente. A risada de Atílio ecoa. Ainda sorrindo pelo feito, ele volta sua atenção à programação de sistemas. Eu perco a concentração. Preciso fumar um cigarro. Ficar só e esquecer sua presença. Vou até a sacada olhar a bela vista e pensar no nada.

Eu adoro esta varanda. O décimo andar da torre é privilegiado. Encontrar em São Paulo um prédio que não tenho outro à sua frente é raro. Até mesmo o medo de altura que tenho se esvai por aqui. Hoje consigo olhar para baixo e sentir-me tranquilo. As vezes, até um pouco mais confiante. É um dos poucos lugares da capital onde avisto natureza. A serra da Cantareira está à minha frente. Acendo o cigarro e penso no que fiz e deixei de fazer. Mas a porta de vidro, com seu barulho estrondoso, surge atrás de mim. As coisas mudam. O Atílio chegou.

“Me da um cigarro?”, pede o colega. “Sim, mas você não parou de fumar?”, pergunto, com um pouco de irritação na voz. Não sou de negar cigarros mas os pedidos de Atílio são constantes. “Ah, sabe como é, parei de comprar, mas não de fumar”, responde ele, com uma risada áspera, fechando um pouco dos olhos já mirrados e abrindo as narinas. “Mentira, estou tentando parar, mas de tarde sinto vontade”. Entrego a ele o cigarro e já pego o isqueiro. “Você está rápido, só faltou o cinzeiro”, diz, e novamente ouço sua risada.

Nesta hora, dividindo o espaço com o Atílio, deixei de aproveitar aqueles 5 minutos tão necessários. Na metade de uma tragada, apago o meu cigarro na parede e seguro a bituca para jogar no lixo. “Sabe, não sei por que mas as pessoas nunca foram com a minha cara”, comenta o rapaz, agora olhando para a Cantareira. “Não sabe? Pô, as vezes você fala demais”. “Cara, eu preciso falar, já não sou muito bonito, não tenho namorada, minha família, que sobrou, mora em Sorocaba”. Uma bola de boliche parece descer pela minha garganta.

“Vou entrar, preciso voltar ao trabalho”. “Eu volto contigo, já acabei”. Ele arremessa pela sacada a sua bituca, bate a mão nos bolsos das calças e volta ao seu lugar. Até o momento, ninguém mais fala. É questão de tempo. Amanhã teremos mais debates sobre a vida. O Atílio, também.