Exercício para o curso de escrita criativa da AIC

Descrição de um personagem a partir de um retrato, baseado nos ensinamentos e estilo de Michel Leiris.

Foto: Vivian Maier

amo sentir o toque dos meus dedos finos no botão de uma máquina fotográfica. como num piscar de olhos, brinco com o tempo, tornando-me senhora do passado. vejo em cada fotografia como meu rosto muda constantemente. o emprego, a fome, o sono, a velhice, tudo se modifica, dia após dia. não sorrio nas fotos. gosto do contorno da minha boca e de minhas sobrancelhas, caídos. meus olhos, opacos, preferem desviar a atenção do flash. eles carregam a cor castanha e o presente, a pontualidade, a hora exata para capturar o que já foi vivido. já minhas narinas, diferentemente dos outros, está sempre empinada. deve ser o equilíbrio necessário para não cair e dar lugar à preguiça ou à certeza de que a rotina, vivida em casas de famílias felizes, pode muito bem derrubar os medrosos. faz-me rir as caras e rostos e faces das pessoas. se nós, acostumados com a mesmice, deixamos de lado tudo para viver algo novo, por quê será não nos cansamos de nos olhar em espelhos ou em fotos reveladas? meus ombros, caídos, demonstram pouco se importarem com questões como esta e muitas outras. talvez uma foto minha, meu auto-retrato, seja isso mesmo: algo sem motivo, sem respostas, a ponto de não dizer e fazer nada.