O Lançamento

É hoje! É hoje, porra! É hoje o lançamento do livro do Antonio Prata. Estou nervoso, sabe como é, comprar um livro, conhecer o escritor, ganhar um autógrafo. Um autógrafo! Vai até rolar um chope, mas isso exige pontualidade. Só ganha os 150 primeiros. Sou péssimo com o relógio. Atraso deveria ser sobrenome. O meu sobrenome. Vai ter muita gente, ele é renomado. A minha ansiedade só aumenta. Livro, autógrafo, conhecer o escritor e ganhar um chope.
Seis e meia da tarde. A Cardeal está travada. O ônibus para em frente à Benedicto Calixto comigo em pé, espremido. Começou as seis horas o lançamento. Perdi o chope. Mas chego. Abandono o ônibus, caminho pela Henrique Schauman, desço a Luis Murat e chego. Finalmente!
Sete horas da noite. Cheguei, porra! Tem vários livros expostos e bastante gente. Todas conversam, dão risada, rola até abraços. Não conheço ninguém. Para ganhar fôlego dou minha última tragada. Em seguida, dirijo-me à mesa de livros e compro o meu exemplar. Consegui! Consegui também ochope! Do caralho, fui um dos 150 primeiros! Agora o dilema: primeiro beber e depois o autógrafo ou o oposto? Escolho beber. Vai quebrar minha timidez.
Desconhecido, evito a troca de olhares. Melhor passar confiança. Quem sabe até eles mudem de assunto e perguntem quem sou. Mantenho a pose, peito estufado, livro novo em mãos, atento ao balcão no fim da casa, na esperança de alguém puxar assunto. Tem fila. Porra, tem fila! Não trocar olhares vai ser difícil. Abro o livro. Primeira crônica, "Um Escritor! Um Escritor!" É engraçada, racho o bico com a ironia enquanto a fila anda. Isso, Fred, seja despretensioso. Chega a minha vez.
Entrego o vale. Desculpe, senhor, aqui é só comida, informa o atendente apontando para um outro balcão. Que mancada! Errei algo tão óbvio. Tem uma placa grande informando ali existir vários tipos de cachorro-quente e nada de bebidas. Vacilão… Enrubescido e cabisbaixo, parto para o outro lado.
Pessoas conversam com o copo na mão. Mesmo plano, olhar afastado mas ansiando por um olá. Somente um olá… Alguém me chama. É o atendente. A chopeira precisa ser trocada, pode voltar daqui a 10 minutos? Logo na minha vez… Bom, chegou a hora do autógrafo, depois eu volto.
Mais fila. É grande. Agora, todos parecem ser conhecidos do Antonio. Abraços, piadas, saudações. Será que é um evento privado e eu entrei de bico? Ele postou no Face, caralho… Voltei à adolescência mas agora morrendo de medo de ser expulso do evento. Na verdade eu nunca fui em festa sem ser convidado. Nunca mesmo. Morria de medo de ser descoberto. Não, isso não, por favor, eu prometo, só o autógrafo, o chope e eu parto…
Chega a minha vez. Muito prazer! Olá, muito obrigado, diz o Antonio após um aperto de mãos, olho no olho. Obrigado, você! retribuo em sequência, sorrindo, tentando mostrar simpatia no lugar do nervosismo. Ele assina o livro. Puta que pariu, o livro foi autografado! Novo aperto de mãos, votos de sucesso, aquela coisa toda. Passou. Passou o susto. Pra relaxar, mereço um chope. O meu chope.
Tá na mão, garoto, diz o atendente sorrindo. Lembrou de mim! Parto em sequência pensando no que não fiz, nas besteiras que não disse, feliz e contente com a conquista do dia. Pontualidade, autógrafo, conheci um escritor e ganhei um delicioso chope. Pena que acabou em duas goladas.