Relato do Gérson

“visitava cemitérios no lugar dos museus. o silêncio, a calmaria e os passos lentos são iguais. o que os difere é o choro. pessoas indo e vindo substituem o guia pelo padre ou por um parente capcioso nas palavras. se homenageia histórias de vida, superação, o sorriso frente às adversidades. me intriga quem não enxerga beleza no luto, no fim. a memória é a prova da existência humana. prefere-se enterrar e lacrar o túmulo ao invés de admirá-lo. no máximo, uma lápide suntuosa, a data de nascimento e morte, alguma frase de livro. depois, abandono. na memória, apenas a nostalgia e a saudade (palavra exclusiva do vocabulário brasileiro) para alimentar a tristeza no lugar da felicidade. quem deve enterrar os mortos é o tempo, somente ele. a nós, vale admirar a beleza do nada, deixando aberta a exposição da vida.”