Zagueiro

Toca de um lado, corre para o outro, lança no vazio. O futebol tem disso. Frases prontas. Frases do professor. Faz o corta-luz, entra na área e cabeceia. O ponta esquerda, hoje um ala, cruza na medida. Quer outra? Cruzamento no primeiro pau, sobe o atacante. Na sobra, o volante manda pro gol. Sim. As frases são sempre pro ataque. Planeja-se tudo para os mais habilidosos.

Mas e pra defesa? Vai mandar o zagueiro preencher o vazio? Correr pro outro lado e enganar o meia? Como antecipar um possível corta-luz? É, essa posição é ingrata. Ingrata porque os técnicos e seus meninos jogam do mesmo jeito. Futebol de resultado, você sabe como é, né? Eu nunca soube, até outro dia aí.

Quando pequeno odiava a zaga. Preferia ser o último a ser escolhido, ou o primeiro goleiro, mas defesa? jamais. Ninguém falava comigo. Ninguém me dava dica. Bronca eu tomava pra caralho. Fazia cara de bravo, tentava um carrinho, uma rasteira, um mísero toque no calcanhar do atacante… Nada adiantava. Era minha posição. Pros grossos, o lugar é ali.

Olhava pro banco de reservas e pedia, silenciosamente, pra sair. Ninguém me olhava. Minto. Olhavam, quando a gente tomava um gol, uma caneta, um chapéu… De um lado o bando ria. Do outro, xingavam. Sempre na jogada ensaiada, no toca de um lado, corre para o outro. Como eu não percebi? Como pude ser enganado por aquele garoto magro e mais novo, da quarta-série?

O goleiro podia falhar, o lateral subir a vontade e largar a avenida (se fosse canhoto, era aspirante à 10), o volante arriscar um gol de fora da área. O meia, ah! o meia, podia encerar o jogo e abusar da habilidade, mesmo que não a possuísse. Toca no vazio! Se der errado, o outro não acompanhou seu raciocínio. Já o atacante, você já sabe, toca de um lado, corre pro outro, faz o corta-luz. O zagueiro, não. Era piada. Ainda é. Até juiz eu preferiria ser, caso houvesse a necessidade de um no jogo da escola, da rua. Mas não. não! Fred, é você e mais 10. Xerife! Dono da área… da defesa.

Tenho apreço por zagueiro ruim. Do Corinthians, lembro de vários. Valdson, João Carlos, Betão, Batata, Zelão, Wescley, Capone… a lista é grande. Esses sim foram corajosos. Já eu, larguei tudo. Melhor ficar do lado de cá do alambrado. Xingar o zagueiro é sempre mais gostoso.