Um amigo da rua

Finzinho de 1992. A contragosto da minha medrosa mãe, enfim tinha nas mãos a carta de alforria de todo jovem recém-saído da adolescência: a carteira de motorista. Rapidinho tratei de comprar o meu primeiro carro. O sonho era uma Ferrari. Contentei-me com um Golzinho CL, sem ar condicionado, que não ficava muito a dever a uma sauna tipicamente saariana. Era branco, pra ficar mais barato, e caber no orçamento de quem se submetia a transformar aquele sonho de consumo em realidade mediante a um pagamento dividido em módicas 24 vezes com muitos juros — infeliz mania de 11 de cada 10 brasileiros. Tudo pela ilusão de se sentir incluído. Mas essa é uma outra história.

Na verdade, quero falar de uma amizade nascida no contexto daquele momento da minha vida, quando me sentia um Ayrton Senna pelas ruas da cidade, sem medo de bandidos e de radares de trânsito. Estava no início da minha faculdade de jornalismo.

Estudava à noite. Invariavelmente, esticava depois das aulas de queridos mestres que depois se tornaram colegas, como Bia Falbo, Ronaldo Lapa e Paula Levy — que até me chamou de bonitão no último pós-desfile do Imprensa que Eu Gamo, no carnaval.

Nascia ali um roteiro do qual sou fiel peregrino até hoje: Cervantes, Jobi, Bar Lagoa… Ou qualquer lugar onde houvesse belas gualpas, boa comida e uma coca-colinha (em tempo: não tomo bebida alcóolica, acreditem!). Outras vezes, o destino era a Lapa e o bom sambinha ali nas casas onde hoje funcionam o Carioca da Gema e o Sacrilégio. Também valia uma chegada na VM, onde, nas ruas em torno dos prostíbulos, se reuniam intelectuais, estudantes, rufiões e, claro, as moças para bate-papos que varavam a madrugada. Sempre recheados de grandes histórias.

Na volta pra casa, muitas vezes de braços dados com a aurora, tinha de abrir à mão a garagem (negócio de porta automática era pra piloto Nutella, e não pro raiz aqui). E lá estava ele, sentado no chão, à direita da entrada do estacionamento do prédio onde vivia.

Aquele senhor, em roupas maltrapilhas, quase sempre sujo, com um jeitinho de quem tinha tomado umas e outras, e um sorriso cativante, seguido sempre por um encantador “bom dia”. No começo, desconfiei ser apenas um pedinte, e deixava um qualquer sempre que sobrava depois da noite. Ele aceitava os trocados, afinal cairia como uma luva pra cachacinha matinal no boteco ali da Rua Edmundo Lins, que abriria logo em seguida.

No entanto, com o passar dos dias, percebi que ela pedia, sim. Porém, não necessariamente dinheiro. Ele queria um pouco de atenção. Aquele homem esteriotipado na figura de um mendigo via em mim alguém quem poderia se transformar num confidente. Algo raríssimo numa selva onde quem não se veste bem e não “tem” é quase um ninguém. Mas aquele “Zé Ninguém” tinha nome: Pituca.

Tá bem, não era exatamente o que constava na sua certidão de nascimento — se é que ainda existia alguma. Mas era um cidadão que, por circunstâncias da vida, estava ali, naquela situação. Era, de alguma forma, meu vizinho. Uma pessoa que, como qualquer outra, tinha uma história. E, curioso, passei a aproveitar aquela minha rotina para incluir mais um item no meu roteiro: a resenha com o Pituca.

Não demorou muito para se abrir. Nasceu e foi criado no Catete. Casou-se cedo, com uma mulher por quem se apaixonou perdidamente. Teve filhos e construiu uma confortável vida. Mas aí acabou o amor. O dela. O dele, não. E aí tínhamos um buraco negro. Fim das contas: a esposa o abandonou. E levou as crianças. Com tudo e com ninguém ao mesmo tempo, encontrou companhia no copo, sempre com aqueles funestos dois dedinhos de cana.

A rua acabou por se tornar o seu lar. O amor próprio correu pelos ralos, com os quais passou a conviver tão de perto. Restou-lhe alguma nobreza, que se manifestava claramente quando não tinha os neurônios embebidos no álcool.

Tinha pena. Busquei convencê-lo a tentar algo que o salvasse daquela situação. Nada adiantou. Restou-me respeitar e manter aquela convivência que me fazia bem. Mais do que um amigo, ganhei um protetor. Não importasse a hora em que voltasse à casa. Vagabundo não se criava comigo graças ao Pituca, que ficava de prontidão com um reluzente canivete na mão esquerda — notei aí que ele era canhoto.

Havia se passado alguns anos. Virei estagiário do JB. Às vezes, ficava na redação até o fechamento. Mais ainda: esperar as rotativas começarem a cuspir as edições do matutino do dia seguinte. E tratava de pegar algumas edições. Uma pra mim, claro. Mas levava também pro porteiro, pra minha mãe, pro papagaio….

Pituca, malandro e bom observador, notava aquele pilha de jornais no meu banco do carona.

– Meu filho, desde que saí de casa nunca mais li um jornal, ouvi um rádio… Não sei mais de nada. A única coisa que vejo é que as notas de dinheiro estão mudando toda hora… Nem sei mais quem é o presidente… o último de que me lembro era daquele que tinha cara de brabo e nome de alemão. Será que você podia me arrumar um jornalzinho desse pra mim? Eu sei ler — falou orgulhosamente.

Transformei, a partir de então, aquele pedido numa ordem. E numa missão diária. Pituca leu jornais praticamente todos os dias, pelo menos até o dia em que tive de mudar de apartamento, em 2009. A partir dali, não mais o vi. Soube esta semana que ele partiu de vez. Certeza de que o encanto e a doçura daquele homem encontraram recanto melhor do que este que ora nos acolhe.