Um herói, uma canção, um poeta!

O poeta Didi num dos lugares onde se sentia à vontade: a mesa do bar (Foto: Acervo Familiar)

Dia desses, passei em frente à quadra da escola de samba União da Ilha do Governador. À porta, um busto em homenagem a Aroldo Melodia, puxador da agremiação desde os primórdios e uma de suas legítimas personificações. Olhei para aquela cena e pensei: caramba, já passou da hora de o Didi receber alguma homenagem, necessariamente da cidade do Rio de Janeiro, da qual foi um ilustre personagem. Nome de rua, de praça… seja lá o que for. Importante é que fique para a posteridade essa figura tão fundamental para o entendimento da cultura popular carioca que, por conta de um infeliz preconceito social, atravessou uma vida de tantos dilemas.

Aroldo Melodia: voz da Ilha que ajudou a consagrar algumas obras de Didi

O Didi em questão, na verdade, chamava-se Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves. No nosso mundo chato e quadrado, foi advogado e procurador da República. No mundo encantado do samba, era um poeta, compositor maior da União da Ilha, e responsável por burilar algumas das mais delas joias da música popular brasileira. Estes dois personagens em um eram o resultado de um dos dilemas mais sofridos, e ao mesmo tempo bonitos, a que já pude constatar.

Estas linhas aqui são resultado de conversas esparsas que tive com mestres e amigos, que conviveram com Didi e perceberam no coração toda a batalha interna travada entre o advogado e o compositor-boêmio. Um deles, Alberto Mussa, nome magnânimo da moderna literatura brasileira e sobrinho de Didi que, para ele, era o “Tio Gustavo”. Didi era aquele tio gente-boa, que brincava com a garotada e fazia questão de passar a todos as maravilhas de ser torcedor do Flamengo. No entanto, não deixava transparecer a sua veia de sambista. Aliás, quando a família estava no contexto, ele tratava de riscar o samba do seu dicionário. Por que?

Nos seus primeiros anos, o menino Gustavo fazia parte de uma família milionária que vivia num casarão da Tijuca. A morte do avô, porém, fez a situação se inverter. E lá foram todos, morar de favor numa humilde casa na Ilha do Governador.

A Avenida Paranapuã, no Tauá: a Ilha do Governador nos anos 50

O espírito boêmio do então adolescente começou a vir à tona ali por meados dos anos 50. Tempo bom, no Rio e no Brasil. Bossa Nova, Cinema Novo, o futebol brasileiro, enfim, livrando-se da síndrome de vira-latas… Neste ambiente, Didi conheceu um de seus amores: o GRES União da Ilha do Governador. Recém fundada, a escola era pequetitinha. Sequer sonhava competir nos certames oficiais. Nascera para desfilar ali mesmo, paras as famílias que tomavam as ruas do Cacuia.

Quando a maioridade chegou, em 1955, Didi conquistou seu primeiro samba na Ilha. Foi “Epopeia do Petróleo” (para o carnaval de 1956), anos depois gravado por Jamelão, numa antologia de sambas-enredo. Ao lado de seu grande parceiro, Aurinho da Ilha, tratou de mostrar o que seria o seu cartão de visitas, com cinco vitórias nos seis primeiros anos de vida da União.

A Ilha ficara pequena para a jovem tricolor. Era hora de apresentar a bandeira do bairro no centro da cidade, ainda capital federal. E lá partiu a escola para fazer seu primeiro desfile oficial, em 1960, no Grupo 3, com “Homenagem às Forças Armadas”. Adivinhem quem eram os autores do samba-enredo…

Com o nascimento dos anos 60, nascia também o maior dilema da vida de Didi. Recém-formado em Direito, arvorou para si o dever de resgatar a antiga condição abastada da família. Expectativa ainda mais reforçada quando foi nomeado procurador da República. Um dilema surgido em razão de um fenômeno que, agora, vemos ressurgir na cidade: o preconceito ao samba e ao sambista.

Para a tradicional Família Baeta Neves, não caía bem um procurador viver no meio da boemia, e utilizar sua pena a um instrumento de arte e poesia em vez de dedicá-la à fiscalização do cumprimento da Lei. Como bem relatou Alberto Mussa, escritor da mais boa cepa e sobrinho de Didi: “Lembro que ele me dizia que, para fazer samba, precisava “se brutalizar”. Não que ele considerasse o samba coisa menor. Pelo contrário. Mas, para ele, forçado pela mãe a ser uma “pessoa importante”, a resgatar a “nobreza” familiar perdida após a morte do pai, escolher uma via significava renunciar à outra. Porque era impossível apenas “fazer” samba. A inspiração só vinha se houvesse uma entrega total — e isso envolvia rua, noite, mulheres, bebida. Didi não conseguia fazer samba sem beber”.

Ele, então, virou uma espécie de agente duplo. Aos olhos da sociedade, era o promissor e respeitado “doutor” Gustavo; na encolha, nas rodas de samba, era Didi, o poeta. E sob esta segunda faceta — para o bem da música — colheu os seus maiores frutos. Pelo menos, aqueles que serviam de bálsamo a seu coração.

Salgueiro desfila na Presidente Vargas com samba de Didi, em 1968

A fama de Didi ganhava o Rio. Portanto, não demorou muito para que se aproximasse de uma das chamadas “4 grandes”, os Acadêmicos do Salgueiro. Ao lado de Aurinho, emplacou logo de cara dois sambas-enredo na escola da Tijuca: “História da liberdade no Brasil” (1967) e “Dona Beija, a Feiticeira de Araxá” (1968).

Esta fase dupla durou até a vitória, na Ilha, com “Ritual Afro-Brasileiro” (1971). Naquele momento, prometeu à mãe que deixaria o samba e a boemia. O tal “resgate da nobreza familiar” não era somente a prioridade. Era a única opção. Foi uma decisão que serviu apenas para colocar em estado de hibernação o lado compositor, que se mantinha em ebulição, prestes a provocar uma explosão da mais linda e pura arte.

Didi fez de tudo para atender a promessa. Mesmo largando a procuradoria, manteve-se ligado ao Direito. Passou a defender causas para empresas ligadas ao ramo imobiliário. Ficou rico. Comprou casa em Botafogo, uma outra em Bacaxá… E conseguiu cumprir o objetivo de dar toda a mordomia possível a seus familiares.

Mas aí o bichinho do samba voltou a entrar em ação. Talvez, até, por influência de um de seus familiares, o próprio sobrinho Alberto Mussa: “E foi num dos almoços familiares de domingo, na casa da minha avó, que o “tio Gustavo” me pegou batucando e cantando um samba de enredo (…). Não sei se aquele almoço de domingo, quando ele me ouviu batucar um samba de enredo e me tomou como o filho que ele nunca teve, influiu na sua decisão. Mas foi exatamente depois disso que ele voltou à União da Ilha”.

“O Amanhã”, histórico enredo da Ilha, com samba de Didi

E voltou em altíssimo estilo, com “O Amanhã”, clássico do carnaval, mais tarde transformado em diamante da MPB em uma magnífica gravação de Simone. Uma curiosidade com relação a esse samba: Didi não podia concorrer, em razão do longo afastamento da ala de compositores da União. Nada que o impedisse que compor a obra e dá-la de presente ao então diretor de bateria, João Sérgio, que, oficialmente, é o signatário do samba, como nos revela o jornalista Anderson Baltar no livro “As Primas Sapecas do Samba”, que conta as histórias de Ilha, Caprichosos de Pilares e São Clemente.

A alegria atravessou o mar com um samba de Didi no desfile da Ilha de 1982

No ano seguinte, uma vitória com a sua assinatura: “O que será” (1979); a história de conquistas seguiu com mais três composições: o clássico “É hoje” (1982), “Quem pode pode, quem não pode, quá” (1984) e “Um herói, uma canção, um enredo” (1985). Nesse ínterim, foi desclassificado do concurso de 1983 por ter inscrito — sem assinatura — também um samba no Acadêmicos do Salgueiro — aliás, vitorioso: “Traços e Troças”.

Novamente de braços dados com o samba, Didi deu um bico na vida de advogado. Depois de anos de uma crise de identidade, resolveu cair dentro da folia: largou o escritório, vendeu os bens, gastou dinheiro com a farra e se abraçou definitivamente com a garrafa de bebida. Estava morto o Dr. Baeta Neves. E muito vivo o poeta Didi.

Reportagem do Globo em 24–02–1987, que revelou a história de Didi para o grande público

Houve tempo para mais uma vitória (Salgueiro, 1987 — “E por que não?) antes de um derrame que em pouco tempo abreviaria a sua existência. Dois meses depois do carnaval, partia o compositor, sepultado com as bandeiras de Ilha e Salgueiro sobre o seu caixão. Ficava o mito! Que seria honrosamente homenageado quatro anos depois, com um inesquecível enredo (e um samba composto por um dos seus grandes adversários de quadra: Franco): “De bar em bar, Didi um poeta”.

Uma fim de vida que pode muito bem ser resumido por um verso daquela obra: “Hoje eu vou tomar um porre / Não me socorre / Que eu tô feliz!”.

Ouça aqui alguns dos sambas de Didi: