Um imortal (genial e inigualável) tricolor

O destino não dorme em serviço. Se tínhamos de perder Paulo Sant´Ana, que fosse logo depois que tivesse terminado mais uma partida do seu querido Grêmio FBPA. E assim foi feito: um dos maiores sujeitos a quem conheci despediu-se definitivamente cerca de 40 minutos depois de seu clube do coração ter vencido mais uma peleja. Tinha que ser assim. Uma morte regada pela alegria de mais um triunfo obtido em canchas brasileiras.
Epílogo melhor para uma vida vivida acima de tudo com o coração não há. Considero-me um cara de enorme sorte, por tê-lo conhecido, no auge do seu bom-humor. Espirituoso, Santa´Ana era capaz de quase nos matar de tanto rir com as suas piadas (tinha uma, do puxa-puxa, que até hoje me faz sair do controle).
À frente da máquina de escrever e do computador, era um cirúrgico cronista das vidas e coisas que envolvem o Rio Grande. Como analista esportivo, às favas com a neutralidade, era Grêmio e pronto. Foi esse cara que conheci, aqui no Rio, às vésperas de um carnaval a que ele tanto amava, pelas mãos dos enormes Cláudio Brito e Vinicius Brito.
Depois de conhecê-lo de perto, fui saber mais da sua obra. Encontrei passagens maravilhosas, como a crônica na ZH em que relatava o caso de uma senhora que levou uma multa de trânsito por dirigir com apenas uma das mãos — detalhe: ela tinha apenas uma das mãos.
São impagáveis as suas participações no Sala de Redação, da Rádio Gaúcha, em que fazia questão de provocar os colorados.
E as entradas no Jornal do Almoço? Sempre com uma verve pra lá de ferina, entrada no estúdio vestido de mosqueteiro (mascote do time do seu coração) ou falava claramente ao ídolo gremista Renato Gaúcho que tinha feito muito mais por ele do que o contrário.
Eu próprio fui citado por ele numa de suas colunas no ZH. Ele relatou a nossa conversa por telefone em que debatíamos a condição técnica de um jogador que atuou no meu Flamengo e agora estava no Grêmio: Fabio Baiano. Ele era em Porto Alegre a crítica solitária a um jogador que parecia ter caído no gosto da mídia esportiva local.
Enfim, sou altamente grato a vocês, meus queridos Britos. Assim como também cumprimento o destino por ter me feito voltar à Porto Alegre recentemente, quando tive a oportunidade de visitar o grande Sant´Ana, já numa clínica de repouso, impedido por uma doença de demonstrar toda a sua genialidade, mas não a sua sensibilidade. Colei meu celular próximo ao seu ouvido e pus a tocar a declamação de uma obra de Augusto dos Anjos, poeta a quem admiramos profundamente. Uma lágrima correu-lhe pelo olho direito apenas. Ele estava ali. Eu sabia. Como ainda está, afinal, este sim, é um imortal.
Um beijo, Ana Paula Silva Sant’ana, Inajara e demais filhos.
