Por um natal menos canalha

Ou "a felicidade não está debaixo do pinheirinho"

Há três anos eu deixei de trabalhar com propaganda. E um dos momentos que eu menos gostava da minha vida de publicitário era o famigerado final de ano. Entre as buscas nos bancos de imagens pelas melhores opções de bolas, árvores e guirlandas, escrevi muitos textos, alguns deles muito bons, falando de sonhos, compreensão, amor, açúcar, tempero e tudo o que há de bom. Textos bonitos, como as Meninas Superpoderosas, mas canalhas, como o Macaco Louco.

Acúcar, tempero e tudo o que há de bom :)

Todo redator publicitário escreve em nome de alguém. Isso não é novidade e, muito menos, demérito da profissão. Traduzir em texto e conceito os objetivos difusos das empresas é uma atividade dificílima. Mais difícil ainda é a tarefa de gerar empatia entre marcas e consumidores, até porque a atividade de trocar trabalho e tempo de vida por bens que estarão obsoletos no próximo ano, convenhamos, não é uma atividade empática. E no Natal menos ainda.

Há alguns dias atrás perguntei para um amigo professor qual era a marca do seu sapato, que eu havia achado parecido com as botas Commander, um clássico dos anos 80. Ele virou a sola e estava escrito abaixo um nome que fazia conexão entre “sapato” e “terapia”. Entre risos com a situação, comentamos que possivelmente o mais próximo de uma relação terapêutica que podemos ter com um par de sapatos, por mais confortáveis que eles sejam, é o fato de tirá-los dos pés no final do dia.

A liberdade não é uma calça azul velha e desbotada. A felicidade não é um líquido preto. O espírito de natal não é uma propaganda de supermercado.

Em tempos de dieselgate (escândalo que envolveu a Volkswagen) e marcas desgastadas por estratégias, digamos assim, pouco verdadeiras de storytelling, parece um tanto óbvio que as pessoas não querem mais a canalhice das meias verdades. A construção de relações de empatia entre marcas e pessoas não está mais nas mãos dos escritores de slogan, mas sim naqueles que decidem que tipos de produtos e serviços irão oferecer e quais as relações humanas serão estabelecidas entre gestores, funcionários, fornecedores e consumidores, enfim, entre as pessoas.

Estamos, felizmente, deixando para trás, aos poucos, as letras miúdas dizendo que as pilhas não estão incluídas e que as imagens são meramente ilustrativas. O consumidor que se preocupa com a origem da matéria-prima dos produtos e as condições de vida dos trabalhadores que fabricam seus objetos de uso, simplesmente não aceita mais marcas meramente ilustrativas. Por essas e outras, ao invés de pedir uma mensagem de final de ano emocionante para o criativo da sua agência, quem sabe você não o convida para exercitar essa mesma criatividade no intuito de ajudá-lo a construir uma empresa melhor?

Feliz Natal.

Texto originalmente publicado no jornal Ahora de 22 de dezembro de 2015.
Créditos da imagem: Steve Rhodes. via Compfight cc