Em defesa das mulheres no terror.

Sidney Prescott, Scream 3.

O gênero do terror é um gênero machista. Desde sempre. Desde o período em que as lendas eram contadas em volta da fogueira por camponeses e em que grande parte das histórias se perderam, até nascer o gênero propriamente dito no século XVIII. Sempre foi.

Mas não precisa ser para sempre.
Stephen King escreveu uma vez que o autor do terror é um agente da norma. O terror, por diversas vezes, agiu a partir e em defesa da normalidade, e o que era considerado subversivo era errado e merecia punição.
Digamos que, se há um tipo correto de moralidade feminina a se seguir, qualquer atitude diferente é transgressora. Mulheres, então, muito mais do que homens, são as que sofreram no gênero do terror.
E não digo que sofreram porque os monstros as perseguiam e porque elas eram mortas e desnudadas nas narrativas, mas porque o meio do terror — entre produtores e entre fãs — é um meio machista. Você não vê um homem correndo assustado de um perseguidor e ficando nu no meio do caminho, você não vê um homem em uma cena com uma roupa de dormir transparente. As mulheres sim.

O horror, como gênero, tem seu surgimento aproximadamente no século XVIII, de acordo com o próprio Lovecraft em seu ensaio O horror sobrenatural em literatura. Quando paramos pra observar essas histórias do século XVIII, o que mais encontramos é a ideia de “donzela em perigo” para representar as mulheres. Há uma mudança no início do século XIX e outra figura passa a ser apresentada e fica conhecida por femme fatale. São as femme fatale e as “donzelas em perigo” que vão ditar onde essas mulheres se inserem como personagens nas histórias de horror do século XVIII, XIX e boa parte do século XX. O horror, por muitas vezes como qualquer outra produção cultural, diz muito do período em que elas foram produzidas.

Com uma ampla produção de filmes de horror, o século XX conseguiu reunir algumas características dos dois maiores estereótipos dos dois séculos anteriores e fizeram um tipo de personagem que seria utilizado exaustivamente em narrativas de terror. A femme fatale e a “donzela em perigo” foram reunidas e contribuíram para construir o que ficou conhecido como scream queen (o que não significa, porém, que os dois estereótipos anteriores ficassem desaparecidos, porque quando se trata de estereótipo feminino eles sempre aparecem hora ou outra).

As scream queens se tornaram o maior estereótipo feminino do horror do século XX. Mulheres muito bonitas, que cometeram algum ato subversivo contra a moralidade instituída (como sexo com seus namorados, ou serem moças com certa independência comportamental ou econômica) e acabavam sendo punidas por isso, e a punição surgia na forma de algum monstro ou figura mascarada, sendo salvas por algum homem muito heroico e másculo. Ou nem sempre elas eram salvas, porque precisavam aprender uma lição. Novamente: agente da norma.

Jamie Lee Curtis, após sua atuação em Halloween no papel de Laurie Strode, se tornou uma das mais conhecidas scream queens, sendo sempre citada quando é esse o assunto. Só que: o que muitos consideram ainda hoje um elogio, só fortalece um estereótipo que não ajuda em nada o lugar das mulheres nos filmes de horror.

Barbara Crampton, atriz que esteve em filmes como Re-animator (1985) e From Beyond (1986), ambos do diretor Stuart Gordon e inspirados nas obras de H.P. Lovecraft, falou que prefere não ser chamada de scream queen, pois diminui o mérito do que elas [as atrizes] tentam fazer.

O grande problema, ao longo desses anos, é que as scream queens foram enormemente sexualizadas, servindo somente para a) estarem nuas ou semi nuas em cenas de eróticas; b) serem perseguidas pelo vilão. Embora seja um termo que ficou amplamente reconhecido entre os fãs de terror, não é um termo que deveria ser perpetuado. É sofrimento feminino como forma de compor uma narrativa, onde muitas vezes nem existe essa necessidade.

O universo dos fãs de terror como qualquer outro lugar de fãs é bem complicado, principalmente pra mulheres. Ser mulher nesse meio, vendo outras mulheres sendo usadas para serem qualquer tipo de objeto de cena, estando ali pra correr, ser pega e ser morta, torna tudo mais difícil. Não fosse isso, você ainda é posta à prova 24/7 e obrigada a saber qual era o tipo de sangue preferido do Drácula pra poder fazer parte da patota (o que é muito difícil saber, já que a descoberta dos tipos sanguíneos foi depois da publicação de Drácula. Só temos certeza de que o tipo preferido dele era o feminino, pois vejam bem).

No final do século XX, querendo contrariar esses tipos femininos, surgem algumas personagens importantes para uma geração de meninas fãs de filmes de terror. Buffy, nossa caçadora de vampiros preferida, surge em um momento importante para esse novo movimento: é uma mulher, e ela luta, e ela não está em posição de perigo constante tendo que ser sempre salva por um homem, e principalmente sobrevivendo na escola/colégio/faculdade/primeiro emprego, com todos os problemas que esses locais podem nos trazer. Nos filmes, um grande nome que aparece como referência para alterar essa imagem de dama em perigo/sexualizada/scream queen ainda um ano anterior à Buffy, é Neve Campbell com a incrível Sidney Prescott da franquia Pânico, dirigida por Wes Craven. Sidney é uma mulher com um passado trágico, que tenta levar a vida e se vê, por quatro filmes, em situações péssimas de vingança, traição, inveja e tudo de pior na vida de uma moça, mas ela luta contra tudo isso enquanto briga contra o péssimo vilão Ghostface. Não posso deixar de pensar que isso se deu, principalmente, por conta de personagens anteriores à elas, como Ellen Ripley de Alien, ou Agente Scully de Arquivo X, exemplos fortíssimos que contrariam uma grande parte de estereótipos femininos.

Atualmente, graças a um esforço de diversas mulheres incríveis, temos um pouco mais de espaço nas narrativas de terror. Temos mulheres escrevendo, temos mulheres dirigindo, e temos mulheres atuando em papéis que não apresentam esses estereótipos. Babadook, de 2014, é um filme dirigido por uma mulher, Jennifer Kent, e teve um grande alcance de público. No final de 2015 foi lançado A girl walks home alone at night, um filme dirigido por Ana Lily Amirpour, sobre uma garota vampira e que consta em grande parte das listas de melhores filmes de vampiros, ou de melhores filmes de terror de 2015. A antologia XX, lançada em 2016, conta com 4 histórias protagonizadas e dirigidas por mulheres, que chegou recentemente à Netflix e que merece ser vista, talvez seja o mais recente exemplo. Dar chances à esses filmes, essas histórias, esses livros feitos por mulheres é importante para demonstrar que estamos abertos pra isso. É importante dar essa atenção, falar sobre, recomendar, e até mesmo criticar. É importante dar visibilidade para quem está fazendo e está tentando, ainda mais em um meio que é originalmente agressivo com a gente.

Infelizmente, nada disso significa que estamos ótimas em relação à representatividade dentro do gênero do terror. Não estamos. Encontrar esses trabalhos é um esforço enorme, e quase nunca eles tem o verdadeiro respeito ou atenção (ou investimento, que é importante). É preciso reconhecer também que mesmo quando as coisas tentam ir pra um lado diferente, ainda acontecem erros, pequenos clichês que precisam ser melhorados (e têm sido). Falando bem a verdade, ainda há pouquíssimas mulheres produzindo, dirigindo, trabalhando e sendo simplesmente aceitas nesses locais e principalmente nesse gênero, e é algo que precisa ser apoiado. Dificilmente mulheres recebem incentivo dentro do gênero do terror. Falta muito, muito mesmo. Mas as transformações são lentas, e conforme nós mudamos nosso pensamento, eu acredito que as coisas possam mudar também.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.