“Ah, o empreender”

É bom parar e tomar um fôlego…
Quem tem empresa, trabalha com home office ou simplesmente tem o benefício de alguma flexibilidade de horário já passou por uma das seguintes situações…

a) Numa roda de amigos… “vamos programar aquela viagem pra julho? Eu tenho férias no inverno e tu… bom, tu pode tirar férias quando quiser né?”

b) 3 da manhã: “Putz, esse final do episódio foi foda. Vamos assistir mais um pra ver se o cara morreu? Amanhã tu podes chegar mais tarde né?”

c) Naquele happy hour prolongado, os amigos falam “Bora tomar a saideira (saideira de número 5). Afinal tu é patrão e pode, né?”

E por aí vai…

O que dizer numa hora dessas heim?

Só quem passa pelo que nós passamos sabe como é difícil essa situação. E o volume de pessoas que está migrando para esse formato de trabalho ultimamente tem crescido muito — não é um dado estatístico, não espere isso de mim, é apenas uma percepção. Vejo que há alguns anos, essa é uma tendência de mercado (ao menos no meu ramo)… as pessoas gradativamente estão perdendo o interesse de vestir a camiseta de outras empresas pra vestir a sua própria e um volume bem grande de novos negócios tem surgido daí.

Vide a explosão dos co-workings, co-livings, co-offices e tantos outros co’s. Grandes empresas cheias de gente criativa estão desperdiçando potencial de pessoas que tem ideias geniais mas que em função da burocratização, da necessidade de um lucro astronômico para manter uma estrutura gigante e um quadro de funcionários ainda maior, estão se sentindo sem voz dentro de suas companhias. Foi o que me levou a abrir o meu próprio negócio e a fazer o máximo possível pra mante-lo pequeno (acredite…) — muito mais que isso, fazer com que as pessoas que estão nele se sintam à vontade para tornarem-se defensoras das mesmas ideias que as “minhas” ou agregarem suas ideias.

obviamente, com muito café…

E é nesse ponto que chegamos ao problema do conceito clássico de que o “empresário” tem tempo de sobra. Eu também achava que teria! Achava que ia poder ter férias onde e quando quisesse, dormir nos horários de minha escolha e trabalhar no local que eu achasse legal no dia que eu quisesse. Ledo engano… como ouvi em algum podcast, hoje sou feliz em dobro, mas trabalho o triplo.

Ser empreendedor “bem sucedido” (…taí um bom tema pra outro post) sem a segurança de um grande investidor ou família rica, é sinônimo de não descansar — às vezes até se finge que está descansando, mas na verdade a cabeça não desliga nunca. Não me entenda mal — relaxar eu relaxo, mas desligar, jamais. Penso que se não for desse jeito, não há como a empresa durar e permanecer. Criar uma cultura e manter uma estrutura, por menor que seja, é um trabalho constante que não deve ser deixado de lado jamais e ao contrário do que se pensa, não dá pra escolher a hora e o local das férias. A folga vai vir quando chegar o momento e você tem que ter a sapiência de esperar… e principalmente, de explicar aos seus amigos, amores e familiares sobre o quanto eles estão redondamente enganados — ou você está, se você é do tipo de empresário que sucumbe a todas as tentações de ter mais tempo pra fazer o que bem quer e trabalhar menos.

Esse papo tá mais pra consultório do que para um post, pois sei que muito dos meus anseios são em função de uma “suave” mania de controle minha, mas hey, se você está lendo até aqui é porque se identificou com estas situações.

Aprendi a duras penas que empreender não é ter tempo de sobra, é ter pouco tempo pra fazer tudo aquilo que é necessário. É sentir-se responsável pelo arroz com feijão de todos aqueles que dependem do teu negócio — seja a tua família, seja teus colaboradores (e suas famílias). É equilibrar todos os desejos e anseios da vida pessoal com os desejos e anseios de que seu negócio dê certo. E lembremos que pra fazer os teus desejos pessoais tu precisas do dinheiro, que só chega após cumpridos os anseios e desejos, igualmente imperativos, da empresa. Esse equilíbrio é a chave.

Nostalgia (temporária)

As vezes a saudade de ter o décimo terceiro no final do ano e aquelas merecidas férias, (mas daquelas de ligar o “foda-se” e passar 30 dias sem nem mesmo olhar emails) resolvem bater, mas entendo que isso é parte de nós seres humanos — uma memória seletiva que dependendo do teu dia e humor, só apresenta as coisas boas. Quem nunca lembrou só da parte massa de um relacionamento e esqueceu das brigas? Quem nunca lembrou de uma adolescência cheia de descobertas e curtidas mas esqueceu dos conflitos (e das espinhas)? Mas sim, é necessário um esforço para lembrar das memórias ruins — um dia escrevo sobre elas e minha experiência no mercado de trabalho antes de empreender.

Aliás, fazendo uma reflexão e um exercício de empatia, penso que a situação do empreendedor, da falta de tempo e dos desejos e anseios de equilibrar vida pessoal e profissional não são apenas questões do empreendedor, mas questões do homem/mulher moderno. Todos nós buscamos aproveitar mais e ter mais, o que depende de nossas atividades diárias, do nosso comprometimento e empenho (ok, há centenas de outros fatores aqui). Ser empreendedor não é diferente. Pra dar certo, exige muito esforço. No mínimo o dobro pois, como dizem, “Se na carteira assinada o salário é de “x” para o empregador o custo é “2x”.

Pense nisso.