fetiche, tabaco e post-punk depressivo

À luz do quase finalizado cigarro eu observo distraído as sombras no banheiro mal-iluminado. Os versos de “Well I Wonder” embalam meu privado e curto momento de introspecção no cômodo trancado enquanto os velhos pensamentos autodestrutivos me visitam para completar a festinha. Que coisa linda, bicho.
Eu me questiono se há um fetiche nisso tudo. A escuridão, a fumaça quente do tabaco, a música depressiva no ambiente, tudo soa como parte de uma orquestrada peça para cortejar e homenagear a suposta “beleza” da melancolia.
“A tristeza vai durar para sempre”, Van Gogh disse para seu irmão certa vez. Outros grandes artistas já flertaram com o sentimento e extraíram de alguns demônios privados suas maiores obras. Vidas brindadas com a desesperança que trazia consigo um potencial infinito de criação.
Talvez na tola ilusão de enxergar virtudes em tais momentos que resida meu fascínio pela consternação profunda e todos os ritos ligados à mesma. Um delírio de “compensação” do fardo, creio.
Eu abraço a tristeza, então. Fico acolhido em seus braços gélidos, encantando-me com a possibilidade dos momentos de felicidade que só podem existir por conta da melancolia inerente ao ser humano. Afinal, como diz a canção que tocava enquanto eu fumava meu último cigarro: “gasping — dying — but somehow still alive” (“ofegando — morrendo — mas de alguma forma ainda vivo”, em belo e triste português).