A Amazônia e a ecologia

Artigo escrito por Fernando Henrique Cardoso no jornal Folha de S. Paulo em 9 de março de 1989

O Senado decidiu criar, por iniciativa do senador Passarinho, uma comissão de inquérito sobre “a questão da Amazônia”. Em boa hora.

Quando criança ouvia contar muitas histórias sobre o Amazonas, filho que sou de mãe amazonense. O “inferno verde”, os relatos de Agassiz, encheram minha imaginação infantil com o fascínio e o temor da selva.

Há décadas passadas seria impensável a “destruição da Amazônia”. A floresta impenetrável desafiava o homem, concentrado em poucas e populosas cidades às margens dos rios. A exceção eram os seringueiros que penetravam nas trilhas e os indígenas que faziam parte da paisagem verde. Nem os mascates desafiavam o domínio avassalador da selva: seus botes roçavam as margens dos rios e igarapés, sem profanar a barreira natural das árvores.

Tão remoto era tudo aquilo e tão intocável a selva que fizeram época as histórias da Fordlândia, quando o homem foi derrotado pela natureza. Os aglomerados urbanos, dispersos na vastidão da planície, distavam dias uns dos outros, rio acima ou abaixo. Nunca me esquecerei das histórias que contava meu pai, exilado depois da Revolução de 1924 na fortaleza de Óbidos, entre Belém e Manaus, sobre as não se quantas vezes que “subiu o rio” para ir a Manaus e os jacarés e cobras gigantescas que viu. A viagem durava dias a fio nas “gaiolas” — enormes barcaças que levavam os passageiros e eram perseguidas por nuvens de mosquitos.

Pois bem, tudo isso é passado remoto. Ao golpe de incentivos fiscais, a mata, nas bordas, deu lugar a pastagens, muitas delas em solo arenoso e impróprio. Os seringueiros são perseguidos e mortos pelos posseiros e grileiros, como na saga de Chico Mendes. Jogam-se detritos venenosos nos rios para garimpar o ouro. Aqui e ali, uma grande exploração mineral em bases mais racionais tenta extrair riqueza do subsolo guardado pela mata.

Nesse quadro, os ecologistas gritam, no mundo todo, contra as queimadas e derrubadas, os indígenas protestam contra as inundações que as barragens farão em suas terras e a população amazônica, aflita, fica entre a cruz e a caldeirinha. Querem e têm o direito de ver sua região integrada ao desenvolvimento econômico e temem que ao fazê-Io, virem os vilões do futuro. Pior ainda, vêm perplexos, que a discussão passou a ser “internacional”: só se dá dinheiro para projetos que não aumentem o “efeito-estufa” ou que não agridam o meio ambiente.

Nesse contexto, nem cabe o preservacionismo ingênuo que desconhece as necessidades das populações locais e do país, nem a xenofobia manipulada pelo oficialismo, que confunde o imperativo universal de preservação das condições de reprodução da humanidade e da natureza com “intervencionismo estrangeiro”.

Espero que a comissão do senado possibilite uma apreciação equilibrada da questão amazônica. Que a devastação é intolerável, não há dúvida. Que é preciso ocupar e explorar racionalmente a região é indiscutível, pois, em caso contrário, haverá a ocupação destrutiva.

E não há dúvida também quanto à falsidade das teses “internacionalistas”: nem elas são para valer, nem, se o forem, podem ser sequer consideradas.

Vamos, pois, substituir o nacionalismo de ocasião que ronda o país por uma verdadeira consciência nacional, comprometida com um desenvolvimento econômico que não destrua as bases da vida e que reconheça a dimensão do desafio ecológico que, hoje, se desdobra em escala mundial.

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