A Democracia como valor universal

Discurso de Bill Clinton no seminário “Por uma governança global democrática”, que marcou a inauguração da Fundação Fernando Henrique Cardoso, em 22 de maio de 2004.

Senhor Presidente Cardoso, sinto-me honrado por estar aqui hoje. Como sabe, eu o tenho não somente como amigo, mas também como um espírito congênere e alguém que prestou um grande serviço ao seu país e ajudou o mundo durante o tempo em que foi Presidente do Brasil.

A democracia tem sido efetivamente um valor universal na sua vida. Sua crença na democracia levou-o ao exílio, trouxe-o de volta para ser preso, custou-lhe os direitos políticos e civis. No final, o senhor foi contemplado pelos serviços que prestou ao seu país como Ministro da Fazenda e, depois, como Presidente. Os dois temos muitas coisas em comum, inclusive a experiência de enfrentar uma crise financeira, de ajudar a começar o movimento global pela Terceira Via, aglutinando pessoas que acreditam na governança democrática, na economia global de mercado e no desenvolvimento da capacidade de todos para dela participar. Tenho testemunhado sua liderança no Clube de Madrid desde que concluímos nosso mandato e antecipo prazerosamente tudo o que ainda poderemos fazer juntos.

Valorizo sobretudo o senhor sempre ter entendido que nação alguma, nem o Brasil nem os Estados Unidos, é suficientemente grande, forte e poderosa para eximir-se da disciplina da economia global. O senhor atraiu mais investimentos estrangeiros e privatizou indústrias-chave de maneira cuidadosa, e também procurou dotar as pessoas comuns de capacidade para participar da nova economia.

Os benefícios de sua atuação ainda se farão sentir por alguns anos: o assentamento de quase 600 famílias camponesas sem terra; o programa Bolsa-Escola e outras reformas educacionais; o fato de o Brasil ser o único país em desenvolvimento que propicia acesso universal às drogas antivirais para portadores de HIV. Tudo isto merece a admiração e o reconhecimento dos amigos da democracia no mundo inteiro.

Parece-me emblemático da natureza do mundo moderno, além de muito positivo, o seu sucessor, o Presidente Lula, estar hoje na China. Devo acrescentar, por motivos que logo explicarei, que me sinto feliz por ele ter dado continuidade ao seu compromisso com a estabilidade econômica e por ter avançado na reforma da previdência social, entre outras. Os Estados Unidos têm um compromisso de longa data — e, segundo espero, plenamente compartilhado pelos dois partidos americanos -, com o êxito da democracia brasileira. Somos o maior parceiro do Brasil nas importações e exportações. Temos mais investimentos aqui do que até mesmo no México, nosso vizinho, e cerca de cinco vezes mais do que temos na China.

O senhor mencionou, Presidente, alguns dos problemas da democracia. Comecemos pelo lado positivo, para depois abordar os desafios. Em 1900, havia 55 nações no mundo; hoje são quase 200 . Naquele ano, nenhuma delas tinha sufrágio universal nem sistemas multipartidários concorrentes. Nem mesmo o meu país, que, de alguma forma, tem sido uma democracia desde o século XVIII, adotava o sufrágio universal.

Durante meu mandato como presidente, um número maior de pessoas vivia, pela primeira vez na história, sob um governo de sua própria escolha, e não numa ditadura. Hoje, 120 das 192 nações existentes são democracias baseadas em eleições, abrangendo quase dois terços da população mundial. Um dado surpreendente, se atentarmos para a China, a maior nação de todas, que não é uma democracia. E o alcance da democracia se revela ainda mais extenso, se considerarmos que, mesmo na China, em mais de 900 vilas pequenas os prefeitos são eleitos competitivamente. Somente nas grandes cidades os prefeitos são nomeados. E mesmo a essas cidades a democracia está chegando. Na última vez que estive na China como presidente, fui a Xangai, onde o prefeito nomeado pelo governo central e eu participamos juntos de um programa de rádio. Era um daqueles programas em que os ouvintes telefonam fazendo perguntas, como os incontáveis programas desse tipo que temos nos Estados Unidos. Eu estava muito interessado em saber o que os ouvintes teriam a dizer como membros de uma cidadania recém-dinamizada. Algumas perguntas dirigidas a mim eram previsíveis e tinham a ver com nossas relações comerciais, diferenças no que tange os direitos humanos e coisas semelhantes. O mais interessante foi, em primeiro lugar, o prefeito ter recebido mais telefonemas do que eu. Em segundo lugar, que um número extraordinário de telefonemas foi para reclamar dos congestionamentos de tráfego em Xangai.

Pensei, então: se os chineses estão preocupados com congestionamento de tráfego e se sentem livres para reclamar com o prefeito, a democracia está a caminho. E isso é uma boa notícia!

Se perguntarmos àqueles que estiverem escrevendo a história do século XX sobre o período em que o senhor e eu exercemos nossos mandatos, praticamente ninguém apontaria como o acontecimento mais importante o fato de mais da metade da população mundial estar, pela primeira vez, vivendo sob governos de sua própria escolha. Mas era essa a realidade. Como não constituía um problema, não gerava manchetes.

Uma outra coisa que ocorreu na última década do século XX, e que considero quase tão importante para a saúde das democracias no longo prazo, foi a explosão de organizações não-governamentais — as ONG -, fruto do reconhecimento de que, em sociedades de mercado, os governos não conseguem resolver todos os problemas e de que é preciso organizar grupos da sociedade civil para manter seus governos honestos e preencher os espaços aonde os governos não podem chegar para solucionar os problemas. Isso foi um fato extraordinário!

Quando o Presidente Cardoso assumiu a liderança do Clube de Madrid e, depois, decidiu estabelecer uma fundação aqui na sua carreira pós-presidência, ele se tornou uma ONG. Não costumamos pensar assim, mas, um dia, há mais ou menos um ano e meio, eu estava fazendo a barba em Nova York e, ao me olhar no espelho, exclamei: “Sim, senhor! Eu sou uma ONG!”. Por que é importante ser uma ONG? Porque uma democracia é mais do que eleições em que a maioria governa. Isso é muito importante. Uma democracia é onde vigoram os direitos da minoria e as liberdades fundamentais -liberdade de expressão, de associação, de imprensa, de religião. E é onde se estabelecem limites ao governo, a fim de impedir abuso de poder.

Nos aspectos em que o governo é, por definição, limitado e os direitos da minoria são respeitados, as organizações não-governamentais se tornam ainda mais importantes.

Lembro-me sempre do processo de paz na Irlanda do Norte, do qual tive a honra de participar. Permitam-me voltar um pouco no tempo, em benefício daqueles que porventura não estejam familiarizados com a situação.

Em essência, o problema na Irlanda do Norte envolvia os seis distritos mais setentrionais da ilha da Irlanda, que faziam parte do Reino Unido. Neles, a maioria dos irlandeses é protestante de tradição escocês-irlandesa, mas uma grande minoria é católica. A maior parte desses católicos queria fazer parte da República da Irlanda.

Lutaram muito tempo e, por 30 anos, sofreram bastante com o terrorismo. Milhares morreram, tanto na Irlanda como no Reino Unido. O acordo de paz firmado estipulou que teriam um governo da maioria e, com isso, os católicos não lançariam bombas para forçar uma situação contrária nos seis distritos, mas a minoria teria direitos e participaria da tomada de decisões e dos benefícios econômicos. Com isso, os protestantes irlandeses abriram mão da possibilidade de se valer de sua condição de maioria para massacrar a minoria e discriminá-la. Ainda estou convencido de que, nos últimos 10 anos, o caso da Irlanda foi a melhor e mais explícita demonstração da incorporação dos requisitos de uma democracia moderna na lei. Isso explica por que a paz tem sido preservada na Irlanda, a despeito de todos os problemas.

Quais são as chances da democracia, hoje?

Em primeiro lugar, há sempre o perigo, em novas democracias, de que a maioria esqueça que a democracia inclui os direitos da minoria. Temos visto isso, ocasionalmente, entre alguns dos nossos amigos, na Venezuela. Vemos um pouco disso em alguns Estados da antiga União Soviética. Vimos isso nos Bálcãs, de uma forma medonha e terrível, com os grandes conflitos com os quais me envolvi durante meu mandato como presidente.

É um trabalho à moda antiga relembrar as pessoas que a democracia é mais do que o governo da maioria, pois nela há lugar para os direitos da minoria, as liberdades individuais e o papel das organizações não-governamentais.

Acima de tudo, convém lembrar que muitas pessoas que viviam em regimes não-democráticos e se sentiam impotentes, vítimas de humilhação e de abuso, sempre achavam que, se a democracia chegasse ao seu país, elas poderiam criar uma nova sociedade, melhor, mais harmoniosa e próspera. Mas, quando se olha para as novas democracias que surgem em meio à globalização, em que o dinheiro e a tecnologia se caracterizam pela mobilidade, com suas vantagens e desvantagens, nota-se que, mesmo se os elementos estruturais da democracia forem apropriados e firmemente alicerçados, ainda restará a questão da capacidade.

O Estado de Direito será suficiente, ou serão as políticas suficientemente corretas não só para atrair investimentos, mas também para promover a justiça social e a igualdade?

E os países que simplesmente não têm condições de tomar sozinhos tais iniciativas?

A capacidade da democracia de propiciar uma vida melhor para seus cidadãos é a questão mais importante hoje e a que representa a maior ameaça para a própria democracia e para o mundo em desenvolvimento.

Sobre isso, gostaria de falar um pouco. Vivemos numa época caracterizada, pela maioria das pessoas, como a era da globalização. Ou talvez digam que é a era da economia global, a era da economia da informação global, da transição de uma era predominantemente industrial para uma era predominantemente tecnológica. Mas, se pensarmos bem, veremos que esse é apenas um aspecto da questão. Vivemos nu-ma época caracterizada pela interdependência econômica e social, com todas as suas conseqüências. A meu ver, interdependência é uma noção muito melhor para descrever o mundo moderno, um termo muito melhor do que globalização, que tem um certo conteúdo econômico. Mas somos interdependentes de muitas outras maneiras. Alguém solta um espirro em Hong Kong e isso produz uma quarentena contra a gripe do frango, em Toronto, no Canadá.

Quando estive aqui, em minha visita de Estado, fui ao Rio e, lá, Pelé e eu fomos visitar uma escola numa favela, onde os alunos estavam ligados à internet, em contato com alunos de uma escola nos Estados Unidos. Tenho um primo que mora no Noroeste do meu país e que joga xadrez duas vezes por semana com um parceiro na Austrália. Eles decidem, em rodízio, quem é que vai ficar acordado até tarde da noite.

No dia 11 de setembro de 2001, porém, quase 3.100 pessoas de 70 países, que tinham ido para os Estados Unidos em busca de uma interdependência positiva, foram mortos pela Al Qaeda, que utilizou as forças da interdependência. Como foi que a Al Qaeda matou aquelas pessoas? Seus afiliados tiraram proveito das fronteiras abertas, da facilidade de viajar, de imigrar, do acesso à informação e à tecnologia para transformar aviões em armas de extermínio em massa. O ocorrido naquele 11 de setembro e a epidemia da gripe do frango são uma demonstração da interdependência, da mesma forma que o são aquelas crianças do Rio que falavam com outras crianças nos Estados Unidos pela internet ou a dinâmica do sistema financeiro global.

Essencialmente, segundo creio, a primeira metade deste novo século se desenrolará como um conflito entre as forças positivas e negativas da interdependência. Creio que a interdependência é uma condição inerentemente instável e que o mundo se encontra em estado de desequilíbrio. Aqueles de nós que estamos em condições de tirar proveito disso, por possuirmos instrução e por compreendermos como o sistema funciona, estamos bem situados, salvo se depararmos com as forças negativas. Mais da metade da população mundial, porém, vive com menos de dois dólares por dia. Um bilhão de pessoas vive com menos de um dólar por dia. De cada quatro pessoas na terra, uma não tem acesso a água limpa. Dez milhões de crianças morrem diariamente devido a doenças infantis evitáveis. De cada quatro mortes neste ano, uma será causada por Aids, tuberculose, malária ou infecções relacionadas com a diarréia. Quase todas as vítimas serão crianças que nunca tiveram água potável para beber. Trata-se de uma armadilha também para a democracia, porque, embora talvez vivam em sociedades livres, essas pessoas não acreditam que seu voto tem o mesmo valor que o voto de outras pessoas. Não consigo perceber que sua habilitação política tenha tido um impacto positivo em suas vidas.

Acrescentaria, ainda, que isso representa o maior desafio para a democracia. Como poderemos passar de um mundo interdependente para uma comunidade mais integrada, tanto internamente como além das fronteiras nacionais? O que quero dizer por comunidade integrada? É aquela em que os benefícios e as responsabilidades são partilhados. Eles incorporam um conjunto de valores comuns, inclusive os valores da democracia. Fomos todos criados iguais; o poder reside nas pessoas; e ninguém é dono da verdade absoluta; por isso, temos melhor proveito quando trabalhamos todos juntos. Isso pode parecer óbvio neste belo auditório, porque suponho que a maioria das pessoas aqui presentes se encaixam nesta nova era da informação global. Mas é importante não esquecermos aquelas pessoas que vivem não muito distantes daqui e as que existem em grande número pelo mundo afora em idênticas condições.

O empreendimento democrático teve grande importância nos últimos 50 anos. Por ocasião da fundação das Nações Unidas, ao término da Segunda Grande Guerra, promulgou-se a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foi a primeira vez na história que reconhecemos a possibilidade de uma comunidade global e a universalidade dos direitos humanos, sem os quais a democracia não pode ser considerada a melhor forma de governo. Vimos lidando com isso há apenas 50 anos, e foi somente em 1989 que houve possibilidade de assegurar essa universalidade, quando caiu o muro de Berlim e o comunismo cedeu lugar a sociedades livres. A meu ver, não estamos nos saindo muito mal. Sei que está na moda ser pessimista. Porém, se analisarmos onde estamos agora, em comparação a onde estávamos há 50 ou até mesmo há 20 anos, não acho que estejamos tão mal. É perfeitamente claro, no entanto, que nós — e aqui eu me incluo — éramos um tanto ingênuos em achar que, se conseguíssemos que todo mundo aderisse à democracia num mercado livre global, todos os problemas enfrentados pelas pessoas sob governos opressores seriam rapidamente resolvi- dos. Isto simplesmente não aconteceu.

Creio que os adversários da globalização estão errados em querer retroceder os ponteiros do relógio. Os números são eloqüentes. O sistema global de comércio e investimento já tirou mais gente da pobreza nos últimos 20 anos do que em qualquer período comparável da história da humanidade. Os números nem sempre impressionam porque as mais altas taxas de natalidade ocorrem nos países mais pobres. O sistema econômico sozinho não tem sido capaz de superar outros fatores. Nenhum sistema econômico pode superar um mau governo, nem pode forçar as pessoas a aplicar o seu dinheiro nisso ou naquilo, ou obrigá-las a emigrar. Mas a resposta não é voltar atrás. O sistema econômico global está funcionando. A resposta é reconhecer não ser possível um sistema econômico global sem uma política social global, sem um compromisso global com a educação e com a saúde. Não é possível construir uma comunidade global integrada com base apenas na democracia nacional e na economia global.

Mas acho que sabemos como prosseguir. O Brasil já mostrou como levar as crianças pobres à escola, mas ainda há 130 milhões de crianças no mundo que nunca foram à escola. Cada ano de escola faz aumentar 10% a 15% a renda anual das pessoas nos países pobres, para o resto de suas vidas. E seu custo é quase zero. Não custaria nada aos países ricos colocar todos aqueles 130 milhões de crianças na escola. Custaria muito menos do que os gastos de defesa ou de guerra. Deveríamos fazer isso.

E, se acreditarmos na democracia, muito mais motivo teremos para fazê-lo, porque toda pessoa que educarmos será, por definição, um cidadão melhor, que terá maior interesse em manter a democracia em seu país.

Na área de saúde, me restringirei à Aids porque é o assunto com que tenho mais familiaridade. Há cerca de 45 milhões de portadores de HIV no mundo e cerca de 25 milhões já morreram. Atualmente, há seis milhões de pessoas acometidas de Aids, mas apenas 400 mil estão recebendo medicamentos. Trata-se de uma situação aflitiva. Sabemos que os medicamentos podem manter as pessoas vivas e até mesmo permitir-lhes uma expectativa de vida normal.

Das 400 mil pessoas que estão recebendo medicamentos, dentre os seis milhões que deles precisam, 130 mil estão no Brasil. Isso é algo esplêndido para os brasileiros e uma grande homenagem ao senhor, Presidente Cardoso, e a todas as organizações não-governamentais e grupos nacionais que o senhor ajudou a financiar, cerca de 1.500 programas de prevenção. A forma como o Brasil enfrentou a Aids e o HIV é um exemplo magnífico de sucesso da democracia.

Não entrarei em detalhes, mas deveria haver bastante publicidade disso no mundo inteiro, por se tratar de uma política nacional que abrange medicamentos, prevenção, educação, atenção às populações das grandes cidades ou dispersas nas remotas regiões amazônicas … É extraordinário!

Na África, dos quatro milhões de pessoas que necessitam de medicamentos, apenas 50 mil os estão recebendo. Tentei fazer o que pude. Conseguimos baixar o preço dos medicamentos genéricos, de cerca de 500 dólares para 140 dólares anuais. Há pouco, assinei acordos para que esse custo seja aplicado no mundo inteiro, com a participação da Organização Mundial da Saúde e de outros grupos internacionais. Acabamos de firmar um acordo com a China para, juntos, estabelecermos lá uma infraestrutura como a que existe aqui, a fim de realizar o trabalho de prevenção e propiciar tratamento.

Estou fazendo o possível por intermédio de minha ONG. Mas o que quero frisar é que isso é algo que poderia ser feito em todo o mundo. Não exige muito dinheiro e emitiria um sinal sobre a importância da democracia em áreas críticas. Deve ser do conhecimento de todos que as taxas relativas à Aids que mais crescem no mundo, hoje, são as da antiga União Soviética, em todas aquelas frágeis novas democracias. Como as pessoas ali poderão acreditar que a democracia é melhor do que a ditadura se seus sistemas de saúde estão se desintegrando e se ninguém fornece medicamentos para que as crianças possam viver? O segundo lugar onde as taxas de Aids crescem com mais rapidez é o Caribe, às portas dos Estados Unidos e onde estou trabalhando.

Como poderemos ser vistos como um modelo para o século XXI se virarmos as costas para nossos vizinhos mais próximos e deixarmos suas crianças morrerem? O terceiro lugar, onde o crescimento das taxas é mais rápido, é a Índia, onde há agora mais casos do que na África do Sul, ao que parece. Na maior democracia do mundo, como poderemos lidar com a perspectiva de ter 50 milhões de casos de Aids? O quarto lugar é a China. Estive com muitos soropositivos na China, inclusive com uma pobre mulher que tinha perdido o filhinho infectado por uma transfusão de sangue. Ela morava na zona rural e fez o que todo mundo ali faz para ganhar dinheiro e melhorar de vida: mudou-se para as cidades litorâneas. Ela sonhava em freqüentar a universidade para poder dar uma vida melhor ao filho. E a única maneira de ganhar dinheiro para pagar a universidade era doar sangue. Ela estava vendendo seu sangue aos hospitais das grandes cidades.

Se virarmos as costas para essa situação, como poderemos afirmar aos chineses que eles viveriam melhor se fossem mais democráticos, quando nós, que temos o dinheiro, o poder e a capacidade para ajudá-los, não o fazemos?

Não estou falando isso apenas porque o Presidente Cardoso é meu amigo.

A verdade é que o Brasil é o único país dentre as economias emergentes que está fazendo a coisa certa em relação à Aids. O único!

Não há outro exemplo, com a possível exceção de uns poucos países da África e do Sudeste da Ásia, que não têm recursos para medicamentos mas fazem um trabalho brilhante de educação e prevenção. Uganda, Camboja e Tailândia têm tido muito bons resultados, e alguns outros países têm-se saído bastante bem.

Mas somente o Brasil poderia tirar a nota 100. E isso não é culpa dos outros países em desenvolvimento. É culpa dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos. Como podemos sair por aí, fazendo esses discursos ressonantes e pomposos acerca das delícias da democracia, e deixar essas crianças morrerem, como se elas na- da significassem, quando o custo de socorrê-las é zero?

O terceiro ponto que gostaria de enfatizar é que, tanto dentro de nossas fronteiras como além delas, temos de fazer mais para a capacitação econômica. Ainda não fizemos nada do que precisaríamos para criar uma vasta classe média nas democracias emergentes. Mencionarei apenas dois ou três aspectos. Se os Estados Unidos estiverem concedendo anualmente dois milhões de empréstimo a microempresas, para pessoas pobres em lugarejos no Leste da Ásia, na África e na América Latina, deveríamos pensar em conceder 20, 30 ou 50 milhões.

O grande economista sul-americano Hernando de Soto, pioneiro em seu país no programa de legalização da posse da terra, está agora atuando em todo o mundo. Atualmente, eu o estou ajudando em Gana, procurando lograr resultados naquele país. Soto acha que os Estados Unidos se tornaram um país rico, com uma extensa classe média, porque ali as pessoas pobres têm facilidade para provar que são donos de seus ativos e, com base nisso, obter crédito das instituições financeiras. Ele tem sido muito convincente quanto à necessidade de melhorar a legislação e as práticas mundo afora. O Egito, por exemplo, é um dos lugares que tentei ajudar. No Cairo, 85% das pequenas empresas são informais. Não porque os donos não queiram pagar impostos, mas porque, ali, a legalização de um negócio leva quase dois anos.

As pessoas que querem abrir uma padaria, por exemplo, simplesmente não têm tempo nem dinheiro para a legalização.

Portanto, no que se refere à educação, à saúde e à capacitação econômica, acredito que países e pessoas ricos em democracias emergentes precisam fazer muito mais para que elas possam funcionar.

O último aspecto que gostaria de ressaltar é que o próprio sistema internacional precisa tornar-se mais democrático. E o senhor, Presidente Cardoso, atuou muito nesse sentido no Clube de Madrid. Ao atentarmos para o FMI, constatamos que a Bélgica tem muitas vezes mais votos do que o Brasil. Perguntamo-nos, então, se podemos esperar que as democracias se mantenham, se o sistema internacional não se tornar mais democrático. Empenhei-me em tornar a Organização Mundial do Comércio mais aberta e transparente. Se as instituições internacionais quiserem promover a democracia, elas precisam praticá-la, pois isso fará com que as pessoas honestas se vejam como parte da solução.

Os Estados Unidos ainda têm o programa na China, do qual muito me orgulho, pois teve início durante meu mandato como presidente. Procurei ajudar os chineses a melhorar o Estado de Direito em seu país. Eles disseram: “Está bem. Não vamos aceitar seu sistema eleitoral, mas reconhecemos que nossos tribunais não são suficientemente adequados. Reconhecemos que as pessoas que comparecem perante nossos tribunais acham que não são muito bem tratadas”. E estamos trabalhando juntos, tentando estabelecer um sistema jurídico decente. Ainda estamos trabalhando. Ainda viajamos à China todo mês a fim de ajudá-los. Temos de democratizar as instituições internacionais para que elas possam realizar mais trabalhos dessa natureza.

Estou convencido de que a democracia é a única forma de governo que faz sentido numa sociedade global, na qual um grande número de peças diferentes interage e ninguém é suficientemente inteligente para possuir a verdade a respeito de tudo. Nada mais faz sentido. A democracia sozinha, porém, não funcionará, a não ser que assegure os direitos das minorias e as liberdades fundamentais e que as pessoas sintam que a democracia será capaz de fazer algo por elas. Isso requer melhorias tanto no seio das sociedades democráticas — o que, por sua vez, requer que os países ricos façam mais pelos pobres — como nas instituições internacionais, que precisam tornar-se mais democráticas.

No cômputo final, estou muito otimista. Os acontecimentos adversos no mundo sempre conquistam as manchetes. Mas devemos ser otimistas, porque foi somente a partir de 1989 que a significativa maioria da população mundial passou a viver numa democracia pela primeira vez. Nossos maiores adversários na Guerra Fria, a Rússia e a China, se reconciliaram com outros povos e agora atuam como seus parceiros. Existe hoje um grau de cooperação internacional econômica e social sem precedente. Há pelo menos o reconhecimento de que os países ricos têm uma dívida para com os pobres em relação a saúde, educação e outras áreas. Além disso, dispomos de muito mais informação sobre quais estratégias funcionarão, desde que lhes dediquemos recursos, tempo e esforço. No fundo, não temos outra opção. Qualquer outro curso de ação é insensato. Lembro-me de que, antes de os Estados Unidos terem entrado na Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill havia dito que estava convencido de que os Estados Unidos acorreriam para ajudar. Quando lhe perguntaram por que pensava assim, ele disse que era porque os Estados Unidos sempre faziam a coisa certa, depois de esgotar todas as outras opções.

Muitos de nós ainda estamos tentando esgotar outras opções. Mas, se atentarmos para a situação do mundo hoje e compará-la à de 50 anos atrás, por mais receosos que estejamos em relação aos problemas com o terrorismo, já não estamos aflitos diante da possibilidade de um conflito nuclear capaz de incinerar o planeta em questão de horas.

No final das contas, portanto, devemos ser otimistas. O momento é de mais ação. Quando não sabemos o que fazer, temos uma desculpa. Mas quando sabemos o que fazer, não há mais desculpas. Nós sabemos o que fazer. Estou convencido de que as ONG têm um papel importante a esse respeito e espero que o Presidente Cardoso e eu sejamos duas dessas ONG. Podemos continuar a agir com energia e a fazer a nossa parte.

BILL CLINTON foi Presidente dos Estados Unidos (eleito em 1992 e em 1996). Atualmente, atua em causas internacionais por meio da “Clinton Foundation”, entidade criada por ele para tratar de temas como prevenção da AIDS e luta contra o aquecimento global.

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