A revolução ocultada

O papel dos fatores imateriais / André-Yves Portnoff

Neste artigo, André-Yves Portnoff, diretor do Observatório sobre a revolução da inteligência da Futuribles, nos relativiza a importância atribuída à produtividade tal como mensurada atualmente pelos indicadores econômicos. Pretende mostrar, notadamente, que há todo um lado da revolução digital que não é levado em conta pelos atuais indicadores de produtividade: essa “revolução ocultada” (iniciada, aliás, muito antes da onda digital), fundada em fatores imateriais, mais qualitativos que quantitativos, apresentada aqui sucintamente. Tanto em termos de gestão de recursos humanos, quanto de organização interna das empresas e gestão de suas relações externas, de promoção e inovação, etc., o digital oferece inúmeras oportunidades que não são apreciadas ao seu justo valor nos indicadores clássicos, muito embora constituam, para as organizações, reais fatores de crescimento e saúde econômica a longo prazo.

Quando nos referimos aos avanços tecnológicos e ao seu impacto sobre a produtividade, do quê, exatamente, estamos falando? Já demonstra a própria história do Império Romano que importa distinguir as técnicas disponíveis de sua exploração efetiva. Roma dominava a tecnologia dos moinhos de água e dispunha, graças aos engenheiros alexandrinos, dos conhecimentos necessários para inventar a máquina a vapor e desencadear a revolução industrial com 15 séculos de antecedência. Mas os aristocratas romanos preferiam moinhos acionados por escravos e, dispondo de uma reserva ilimitada de força motriz humana, não tinham o menor interesse por motores: durante muito tempo, as legiões estiveram aptas a fornecer o número de escravos necessários. De modo que a contribuição dos moinhos de água para a produtividade europeia se manteve insignificante durante um milênio; a Europa se quedou estagnada até a revolução tecnológica e econômica do século XII, baseada na difusão e no uso civil de técnicas até então negligenciadas, ou utilizadas sobretudo pelos militares . A produtividade romana e a história do Império foram marcadas, portanto, menos pelo progresso técnico do que pelos valores que legitimavam a escravidão.

Se dois milênios atrás certos fatores imateriais já eram mais determinantes que os avanços técnicos disponíveis, dos anos 1950 para cá eles o são mais ainda. Pois, fato crucial ocultado pela evidência da explosão digital, passamos da revolução industrial para a era do imaterial. Thierry Gaudin e eu descrevíamos em 1983 essa “revolução da inteligência” marcada pela prevalência de fatores imateriais — conhecimentos, visões, valores, paixões, e também medos, ignorâncias — sobre os recursos financeiros e materiais.

O trabalho não é mais medido em horas

O trabalho criador de valor mudou de natureza, já não é essencialmente físico. É composto de know-hows, de vontade de colocá-los em prática e de capacidade de estabelecer relações operantes com os outros de modo a construir uma inteligência coletiva suficiente e a vender suas produções. Esse trabalho não é mais medido em horas, o que falseia as abordagens estatísticas. Segmenta-se em três partes: o tempo de presença no local legal e nas horas regulamentares; o tempo, fora desse horário, que se aceita dedicar a comunicações profissionais; e o terceiro, o mais importante, que é aquele em que ocorrem as ideias de progresso, o que não se contabiliza. A globalização da concorrência e as constantes mudanças do contexto obrigam a uma evolução contínua da oferta. Isso implica em mobilizar criatividade e experiência em todos os níveis hierárquicos, a não ser que se busque um crescimento de curto prazo e exclusivamente financeiro. Nesse caso, pode-se prescindir da criatividade do pessoal, mesmo ao risco de incorrer na destruição da empresa, em benefício de alguns acionistas.

Isso vem pôr em causa o modo como os economistas determinam o “fator trabalho” no cálculo do crescimento econômico. Quanto à “produtividade global dos fatores”, esta deveria englobar fatores qualitativos, e não mais quantitativos. Mais que nunca, o “como” são empregados os recursos conta mais que o “quanto” eles são despendidos. Um estudo publicado em 2012 mostrou claramente que as empresas que investiram mais dinheiro no digital não são necessariamente as que mais lucraram com ele. Os fatores determinantes revelam ser imateriais, e estão ligados à organização, à visão dos dirigentes, à sua vontade de favorecer as colaborações horizontais em ações coerentes com uma estratégia de longo prazo.

Esse mesmo estudo indica que a maioria das grandes empresas explora mediocremente o potencial oferecido pelo digital. Nada de novo debaixo do sol. Já em meados dos anos 1980, Hervé Sérieyx revelava que a competitividade da Toyota se devia ao seu modo de gestão, e não ao seu investimento em robôs e automatização, inferior àquele realizado pelas empresas de Detroit, ou pela Peugeot e Renault. São as decisões dos atores no nível micro que determinam, portanto, os resultados que os macroeconomistas — às vezes distanciados demais do terreno — procuram mensurar.

A intensidade capitalística: a ser revisitada

A irrupção do digital vem reforçar isso tudo. Num mundo cada vez mais interconectado, o grande público, não raro, se antecipa às empresas na apropriação das novas possibilidades. O impacto econômico da internet é difícil de ser medido, mas isso não é motivo para negligenciá-lo. O digital altera, notadamente, a noção de intensidade capitalística, reduzindo os custos de transação que, segundo Ronald Coase, determinam o tamanho mínimo que as empresas devem alcançar para serem competitivas. É possível, atualmente, criar uma empresa viável com um investimento menor, caso esta estabeleça uma rede de colaborações externas. O tamanho útil não é mais o perímetro legal da empresa, e sim, o de suas parcerias e influências. A construção das redes de colaboração é amplamente facilitada pela internet.

A blockchain permitiria ir mais além, no ver de Yves Caseau e Serge Soudoplatoff8 , uma vez que faz despencar parte dos custos de organização — o que repõe em causa tanto as empresas como o atual aparato político. De modo mais geral, a Internet desestabiliza os intermediários por não criar valor suficiente para justificar sua existência aos olhos das partes envolvidas, donde novos modelos econômicos, transitórios ou não, como o da Uber, virem transtornar o tecido econômico. As destruições criativas anunciadas por Schumpeter destroem os que não inovam bem, e a tempo…

As redes, se facilitam a exteriorização das atividades alheias ao core business de uma empresa, também levam, inversamente, a interiorizar uma série de funções: todos nós assumimos, a todo momento, tarefas antes distribuídas entre secretários, impressores, fotógrafos, documentalistas, funcionários dos correios… Donde a vacuidade das comparações de preço e produtividade entre objetos que mudaram de natureza. Acaso cabe comparar o custo de um telefone celular que permite agir à distância, efetuar transações, compartilhar fotos, trabalhar, jogar, buscar informações ou correspondentes, com o custo dos telefones fixos de ontem, dos serviços postais, dos guichês bancários, dos serviços de documentação, do Minitel cor-de-rosa? Não se pode comparar o que existe ao que não existia. Limitemo-nos a analisar uma explosão de novas possibilidades e, mais que nada, observemos como elas estão sendo e serão exploradas.

Dois efeitos de rede antagônicos

A Internet, no que amplia drasticamente as interações entre pessoas, objetos, ideias, é passível de nos conduzir a uma era de criatividade sem precedentes, um novo Renascimento, com inovações em todas as áreas, inclusive políticas, vindo fortalecer a democracia. A conexão em rede planetária, se não entravada por agressões à neutralidade da Internet e sua parcial privatização, induz efeitos antagônicos. O primeiro favorece os “pequenos”, cidadãos, empresas, cidades, e preserva sua independência e suas diferenças, com a expressa condição de que joguem a carta das alianças no longo prazo. O segundo efeito beneficia os atores que tomaram a dianteira em relação à concorrência e conduz a situações de quase monopólio, a de uma Microsoft ontem, de uma Google hoje, até que outra ruptura tecnológica venha redistribuir as relações de força. O futuro depende em larga medida do equilíbrio entre esses dois efeitos, e, portanto, da clarividência e energia dos diferentes atores que irão explorá-los.

Nesse contexto, entramos numa sociedade da ubiquidade de ação e da imediaticidade, na qual o tempo e as distâncias não são em absoluto abolidos, mas adquirem um novo significado. Em economia territorial, cabe agora raciocinar mais em termos de fluxo do que de estoques, e levar em conta não apenas as proximidades físicas, mas também as proximidades digitais que os territórios empreendedores estão aptos a tecer em escala planetária.

O cenário de todos os desastres

A macroeconomia, ao invés de se aferrar aos números, deveria incorporar a revolução do imaterial e suas consequências. Deveria mostrar que os valores egoístas e a visão curto-prazista que subjazem ao paradigma ultra financeiro provocam desastres. Esse paradigma contagioso, vetor de um neotaylorismo, neutraliza o potencial de inovação com uma gestão não motivadora dos homens, com a destruição do ecossistema dos fornecedores, com a recusa em investir na inovação para maximizar os lucros de dirigentes que dependem da evolução em curtíssimo prazo da ação em Bolsa.

Isso é evidente na área da saúde. A “Big Pharma” tem inovado cada vez menos, e não porque os conhecimentos andam menos produtivos, mas porque uma óptica de curto prazo obriga a manter modelos de inovação… pouco inovadores, e privilegia os lucros imediatos de uns poucos em detrimento do interesse geral. A generalizar-se essa tendência, iremos de catástrofe em catástrofe, econômica, social, política, sanitária e tecnológica. Um cenário FukushimaMediator mais Daech-Trump e Mao-Mussolini.

Corre-se o risco de ficar míope quando não se atenta para o que acontece no terreno e não se considera a capital influência das opções de organização e gestão dos homens sobre a competitividade das empresas e países. Isso foi amplamente demonstrado nos trabalhos de pesquisadores tão diversos como Alain d’Iribarne, Pierre-Yves Gomez, Alex Edmans, Hubert Landier, Thomas Philippon, para citar apenas esses, assim como nos de Hervé Sérieyx e nos meus. A “felicidade no trabalho” tem um simpático sucesso de mídia. Mas é logo esquecida quando se trata de tomar decisões à frente dos grandes grupos ou do Estado, e os eminentes economistas a quem caberia esclarecer os políticos no poder orientam-nos como se de fato existissem revoluções tecnológicas, mas nenhuma revolução do imaterial. Um erro de era.

Este artigo foi retirado da edição de agosto de 2018 do Futuribles em Português — uma inciativa do Plataforma Democrática, projeto que a Fundação Fernando Henrique Cardoso realiza em parceria com o Centro Edelstein de Pesquisas Sociais.