30 anos de massacre da Paz Celestial
Wang Dan
Wang Dan é presidente da Associação pela Reforma Constitucional Chinesa e fundador do think tank Dialogue China. Em 1989, foi um dos líderes das manifestações estudantis na praça da Paz Celestial (Tiananmen).

Para avaliar a importância histórica do dia 4 de junho de 1989, é interessante considerar uma pergunta hipotética: se o movimento pela democracia que levou os manifestantes à praça da Paz Celestial há 30 anos tivesse sido bem-sucedido, como a China estaria hoje? Responder a essa questão implica definir o significado de “sucesso” para os participantes do movimento. Sobre isso há inúmeras concepções equivocadas, como a que fundamenta uma pergunta frequentemente feita pelos mais céticos: “Se vocês tivessem assumido o poder, teriam se saído melhor do que o Partido Comunista?”
Na verdade, essa provocação se baseia numa falsa premissa. Os estudantes que ocuparam a famosa praça de Beijing entre 15 de abril e 4 de junho de 1989 nunca mencionaram substituir o Partido Comunista da China (PCC) nem se propuseram a assumir o poder. Independentemente dos acontecimentos de 4 de junho, nunca houve uma possibilidade real de os líderes estudantis se tornarem líderes da nação. Especular se esses líderes teriam se “saído melhor” do que o PCC — uma tática comum para colocar em dúvida o movimento pró-democracia — , portanto, reflete uma ignorância a respeito do movimento e seus objetivos.
“Sucesso” significa alcançar os objetivos pretendidos. As posições políticas do movimento pró-democracia de 1989 foram anunciadas pela primeira vez no abaixo-assinado que representantes dos estudantes, eu incluído, submeteram a membros do governo no encontro de 18 de abril de 1989 no Grande Salão do Povo, que fica ao lado da praça da Paz Celestial (Tiananmen). As demandas listadas naquele abaixo-assinado incluíam, entre outras coisas: publicação dos salários e todas as outras formas de remuneração dos líderes do governo; permissão para publicações privadas e liberdade de imprensa, com o fim da censura por um período determinado; aumento de verbas para a educação; reconhecimento dos erros e acertos do ex-secretário geral do PCC, o reformista Hu Yaobang (1982–87), cuja morte, em abril de 1989, desencadeou os protestos da praça da Paz Celestial; e repúdio veemente tanto da campanha contra a “liberalização burguesa” que se seguiu à saída de Hu como da campanha de combate à “poluição espiritual”, incluindo a reabilitação de cidadãos que sofreram injustiças durante essas campanhas. À medida que o movimento evoluiu, surgiram novas demandas políticas, em geral alinhadas às demandas do abaixo-assinado.
Para definir o sucesso do movimento pró-democracia de 1989, portanto, proponho um enfoque diferente: as duas condições impostas pelos estudantes que entraram em greve de fome em 13 de maio. Essa ação transformou o movimento estudantil em um movimento democrático popular e inspirou uma base nacional de apoiadores a se unir em torno das demandas dos participantes daquele ato. As duas condições eram: (1) que o governo estabelecesse prontamente um diálogo substantivo e concreto, em pé de igualdade, com a Delegação de Diálogo formada entre as universidades de Pequim; e (2) que o governo reconhecesse de maneira justa o valor do movimento estudantil e sua natureza patriótica e democrática.
Discutir a questão “e se o movimento pró-democracia de 1989 tivesse sido bem-sucedido?”, significa considerar o que poderia ter acontecido se o governo tivesse reconhecido o movimento estudantil como patriótico e estabelecido um diálogo com seus membros. Na minha visão, tal reviravolta teria produzido no curto prazo três efeitos principais:
1. Um movimento pró-democracia bem-sucedido teria fortificado a facção reformista interna do PCC, representada por Zhao Ziyang (que se tornou secretário geral após a saída de Hu e que também acabou sendo expulso do partido no final de junho de 1989). Sabe-se que Zhao era o líder do PCC mais propenso a empreender reformas econômicas orientadas ao mercado e, também, o membro do alto escalão do partido com a mente mais aberta. Tivesse ele adquirido mais poderes para implementar políticas públicas, certamente teria defendido a ampliação de medidas pró-mercado. Sinais dessa trajetória eram visíveis em medidas como a lei de falência, inicialmente implementada em 1988. Em outras palavras, um movimento pró-democracia bem-sucedido não teria mergulhado a China no caos e, sim, imprimido maior dinâmica no processo de reforma econômica.
2. Tivesse o movimento pró-democracia de 1989 sido bem-sucedido, as reformas políticas iniciadas em 1988 — em particular a ampliação da liberdade de imprensa — teriam avançado com amplo apoio popular. Isso significa que as reformas econômicas teriam caminhado em um ambiente propício, dotado de mecanismos que permitissem a participação da sociedade. Atualmente, até mesmo o PCC reconhece que a expansão do papel do “controle pela opinião pública” é o único caminho para conter de fato a corrupção que se alastra pelo país. Tivesse Pequim começado a ampliar a liberdade de expressão lá em 1989, propinas e self-dealing não teriam se impregnado no sistema chinês como acontece atualmente.
3. Sucesso para o movimento pró-democracia teria estabelecido um precedente para o diálogo entre o governo da China e sua sociedade. De fato, o relatório político de 1987 do 13º Congresso Nacional do PCC, publicado sob a liderança de Bao Tong (um aliado de Zhao que foi preso pouco antes da repressão na praça da Paz Celestial), estabelecia um processo de consulta e diálogo com a sociedade como o foco dos planos de reforma do partido. Quando os estudantes clamavam por diálogo, na prática ecoavam essa demanda por reforma política.
Wang Dan
Um dos principais dissidentes pró-democracia da China, Wang Dan nasceu em Pequim em 1969. Entrou para a Universidade de Pequim em 1987, onde organizava regularmente encontros do “Salão Democrático”. Em 1989, tornou-se um dos organizadores do pioneiro movimento pró-democracia daquele ano. Em maio, participou do início das greves de fome na praça da Paz Celestial. Na sequência da repressão em Tiananmen, que o Partido Comunista da China (PCC) deflagrou no início de junho para pôr fim ao movimento pró-democracia, foi incluído na lista dos 21 fugitivos “mais procurados”. Foi preso em Pequim em 2 de julho e enviado à Prisão Qincheng. Em 1991, foi sentenciado a quatro anos por “instigar propaganda antirrevolucionária”. Solto em 1993, continuou sua oposição ao PCC e foi preso novamente em 1995. Em 1996, foi condenado a onze anos por “conspirar para derrubar o governo”. A pressão internacional que se seguiu levou à sua soltura em 1998, seguida do exílio nos Estados Unidos. Em 2008, concluiu seu doutorado em História do Leste Asiático pela Universidade Harvard e, desde então, é pesquisador-visitante da Universidade de Oxford bem como professor e pesquisador da Universidade Nacional Tsing Hua e na Universidade Nacional Chengchi, ambas em Taiwan. É presidente da Associação de Amigos dos Acadêmicos Chineses, membro do conselho da New School for Democracy e fundador e diretor-executivo da Dialogue China, um think tank com sede em Washington, DC. É membro do comitê de direção da Asia Reform and Democracy Alliance. Entre seus livros está Wang Dan Yu Zhong Hui Yi Lu [Memórias da prisão de Wang Dan], publicado em chinês em 2013.
Atualmente, a perspectiva de tal convergência entre o governo chinês e seu povo desapareceu, e a sociedade perdeu completamente a confiança no governo. Essa é a principal razão pela qual tantos conflitos sociais recentes acabam em violência. No delicado processo de reforma, com pressões vindas de cima e de baixo, a estabilidade social depende de manter um canal aberto para o diálogo entre governo e sociedade. Apenas por meio do diálogo as duas partes podem trabalhar juntas para garantir uma transformação suave e constante. A experiência de Taiwan oferece o melhor exemplo. Se o movimento pró-democracia de 1989 tivesse sido bem-sucedido, a base social para a introdução das reformas na China teria sido amplamente fortalecida.
Obviamente, o sucesso do movimento pró-democracia de 1989 teria provocado outros efeitos políticos, econômicos e sociais profundos, que teriam se desenrolado gradualmente ao longo do tempo. As consequências mencionadas acima são as mudanças mínimas que seriam esperadas no curto prazo. Em suma, se o movimento pró-democracia de 1989 houvesse sido bem-sucedido, a China teria entrado mais rapidamente no caminho do desenvolvimento de mercado, e as reformas econômicas que se seguiriam teriam sido implementadas dentro de uma estrutura de democracia política. Um cenário democrático, com todas as limitações e incentivos políticos decorrentes, teria provavelmente mitigado o aumento da desigualdade social que acompanharia a ampliação da economia de mercado, evitando que alcançasse os níveis observados na China atualmente. Ademais, o desenvolvimento teria acontecido por meio de um processo de constante diálogo entre o governo e a população, contribuindo para o crescimento e o fortalecimento da sociedade civil. Não é essa a China que gostaríamos de ver hoje?
Conclusões práticas
Saindo dos cenários hipotéticos, qual foi o impacto real do movimento pró-democracia de 1989 na China desde a repressão de 4 de junho? Acredito que o movimento influenciou o desenvolvimento posterior da China sob, pelo menos, três importantes aspectos.
Primeiro, o movimento pró-democracia de 1989 foi um movimento iluminista. Os anos 1980 eram uma era de idealismo, na qual intelectuais, na esperança de impulsionar a democratização da China, dedicavam-se a disseminar suas ideias sobre democracia. Na maior parte da década, no entanto, esse trabalho iluminista ficou apenas no papel. Assumiu a forma de ensaios, palestras, entrevistas e tradução de estudos estrangeiros em ciências sociais. O movimento iluminista dos anos 1980 (por vezes chamados de “o novo movimento iluminista”, para distingui-lo do movimento reformista Quatro de Maio do início do século 20), atingiu seu ápice no fim da década, e o movimento pró-democracia de 1989 pode ser considerado seu clímax.
A característica distintiva daquele clímax era a busca da democracia por meio de ações cívicas reais. Em 1989, o protagonismo estudantil, apoiado por pessoas de todos os estratos sociais, garantiu que o conceito de democracia se espalhasse por toda parte até que se tornasse a demanda comum de toda a população. Por esse exato motivo as autoridades chinesas, mesmo após a repressão violenta do movimento pró-democracia, passaram a içar nos anos seguintes a bandeira da democracia e dos direitos humanos. No discurso oficial dos anos 1980, a democracia era considerada um conceito ocidental e burguês, mas, nos anos 1990, termos como “direitos humanos” passaram a fazer parte da constituição chinesa. Essa mudança refletiu a enorme pressão da opinião pública que se fez sentir em 1989.
Segundo, o movimento desempenhou um papel fundamental na preparação de talentos para o desenvolvimento da sociedade civil chinesa e para a onda seguinte de ativismo pró-democracia. Antes de 1989, “dissidente” era uma denominação incomum na China. Embora muitas pessoas estivessem insatisfeitas com o sistema ditatorial de partido único, não havia maneiras de se identificar e se orientar explicitamente. O movimento pró-democracia de 1989 levou muitos defensores da democratização a começar a se definir como membros de uma oposição política e assumir pessoalmente a missão de dar continuidade ao espírito de 1989. Nos anos 1990, um número significativo de dissidentes começou a emergir.
Muitos dos defensores de direitos que sacudiram a China nos anos recentes participaram originalmente do movimento pró-democracia de 1989. Aquele movimento fomentou de fato uma nova força política composta de cidadãos modernos. A formação da sociedade civil é uma parte crucial da base para a futura democratização da China, e a geração de pessoas chamadas à ação pelo espírito de 1989 representa o coração de uma sociedade civil emergente.
Terceiro, o movimento pró-democracia de 1989 estabeleceu os princípios para a cultura política e uma mentalidade de democratização da China. Um dos obstáculos para a democratização da China tem sido nossa cultura política tradicional, que fomenta uma confiança excessiva no governo — ou seja, estimula os indivíduos a dependerem do Estado em vez de se enxergarem como donos do país. Depositam todas as esperanças no Estado e esperam que este sirva ao povo. Essa abordagem deixa pouco espaço entre o indivíduo e o Estado que, por sua vez, consegue facilmente violar direitos individuais. Ao mesmo tempo, a pouca distância entre os indivíduos e o Estado significa também que a sociedade civil tem pouco espaço para se desenvolver.
Quando os estudantes tomaram as ruas em 1989, suas ações estavam, em certa medida, dentro da cultura política tradicional da China. Pode-se considerar que esses estudantes estavam seguindo os passos do movimento Gongche Shangshu de 1895, que organizou um abaixo-assinado demandando que o Estado realizasse reformas. No entanto, a repressão violenta pelo governo do movimento pró-democracia de 1989 transformou profundamente a relação entre o indivíduo e o Estado chinês.
Descobrimos, para nossa surpresa, que até mesmo o governo aparentemente de mente aberta dos anos 1980, ao sinal de ameaça, tentaria preservar seus poderes a todo custo, incluindo um retorno ao uso da violência. A perda generalizada de confiança no governo levou à apatia política dos anos 1990, que persiste até os dias de hoje. Em certa medida, essa apatia pode ser vista como um estágio na evolução da mentalidade pública. Ao menos agora o Estado tem dificuldade de promover sua ideologia, e a lacuna entre o indivíduo e o Estado começou lentamente a se ampliar — acontecimentos que são pré-requisitos para a futura transição democrática da China. É por isso que vejo o movimento pró-democracia de 1989 como o início da constituição da sociedade civil da China.
De fato, o povo chinês pagou um alto preço por isso. A repressão violenta pelo governo comunista do movimento pró-democracia deixou não apenas uma ferida profunda em nossa nação, mas também um legado de medo que inibiu uma resistência popular ao totalitarismo. Depois de 1989, o apoio à reforma política foi quase completamente aniquilado e, consequentemente, o progresso da China no caminho da democratização ficou muito aquém do de outros países em desenvolvimento. Tudo isso foi a consequência da supressão do movimento pró-democracia de 1989. Não devemos nos esquecer disso.
Um infeliz ponto de inflexão
Ao mesmo tempo, podemos observar que 1989 foi um divisor de águas na história contemporânea da China. A China de até então e a China atual, sob muitos aspectos, estão em polos opostos. O Estado e a sociedade que se desenvolveram na China desde os anos 1990 exibem três características que representam um profundo afastamento do passado. Penso que essas características também são um resultado da supressão violenta pelo governo do movimento pró-democracia de 1989, e que serão fortes influências no futuro desenvolvimento da China.
A primeira característica é a inclinação predominante de colocar a economia acima de tudo. Após as Guerras do Ópio de meados do século 19, que deram início a um período de interferência estrangeira e instabilidade política, conflitos caóticos e violentos tornaram-se fatores determinantes para a evolução social na China. Após o PCC assumir o poder em 1949, com Mao Zedong no comando, o desenvolvimento foi liderado pela luta de classes. Mesmo durante o período após 1977, quando o sucessor reformista de Mao, Deng Xiaoping, assumiu o poder, a reforma política possuía o mesmo nível de prioridade que a reforma econômica. Ao longo do último século da história da China, foi somente a partir de 1989 que o desenvolvimento econômico se tornou a única métrica de progresso. Atualmente, a lógica econômica determina tudo, do desenho de políticas a julgamentos de valor. Isso criou um desequilíbrio no desenvolvimento da China que, por sua vez, deu origem ao aumento da instabilidade social. A elevação dos objetivos econômicos sobre os sociais remonta à supressão do movimento pró-democracia: a repressão de 1989 não apenas suprimiu a disposição da sociedade para demandar reformas políticas como também deixou o governo apreensivo sobre até mesmo tocar em assuntos políticos.
A segunda característica é uma atitude geral de derrotismo entre as pessoas, em especial na elite. Antes de 1989, a preocupação com o desenvolvimento da China era generalizada entre os intelectuais e na sociedade urbana, e as pessoas estavam dispostas a expressar suas opiniões sobre questões nacionais e sociais. Estudantes universitários foram inspirados a ocupar as ruas por sua crença compartilhada de que cada indivíduo carrega consigo parte da responsabilidade pelo futuro da nação. Mas a violenta repressão em 1989 e o desenvolvimento desigual nos anos subsequentes fez com que Estado e sociedade se tornassem cada vez mais distantes um do outro; as pessoas tornaram-se politicamente apáticas, e a elite mudou seu foco do desenvolvimento nacional para ganhos pessoais. Esse sentimento generalizado de derrotismo era raro após as Guerras do Ópio. Seu surgimento após 1989 reflete o profundo impacto da violência estatal na mentalidade coletiva do povo chinês.
A terceira característica é uma deterioração profunda da moral e da ética da sociedade. No discurso público, padrões morais e éticos elementares não mais predominam. Visões incompatíveis com as preocupações mais básicas com o outro, como “é justo matar duzentas mil pessoas em nome do desenvolvimento” são hoje relativamente aceitas, e uma vasta gama de atitudes e crenças cínicas entraram na moda. Esse estado de coisas é também consequência da repressão de 1989: quando o idealismo perde fôlego, pode dar lugar ao cinismo e à descrença.
Essas três características, que emergiram a partir de 1990, influenciaram fortemente o desenvolvimento subsequente da China e põem em dúvida a perspectiva de futuro do país. Isso também é parte da significância histórica de 4 de junho.
Por fim, preciso reconhecer que o que aconteceu em 1989 afetou profundamente minha própria vida. Por causa de meu papel nesse capítulo da história da China, hoje não sou mais livre para rejeitar minha responsabilidade na promoção do progresso social e não estar à altura de certas expectativas. Como um estudante comum, poderia ter optado por uma vida pessoal ou pública, mas agora não tenho escolha senão me expor continuamente à opinião pública. É difícil dizer se esta minha sina é uma bênção ou um fardo, mas sinto que devo aceitá-la.
Ademais, se me deparasse novamente com a mesma escolha, acredito que tomaria as mesmas decisões que tomei em 1989. Quando se é jovem, abraçar ideias sociais não é uma questão de escolha racional, mas algo mais parecido com uma necessidade emocional. É uma emoção considerável, mas pode ser efêmera; quando ficamos mais velhos, torna-se mais difícil viver as paixões da juventude. Mas a vida humana é finita, e não gostaria de abrir mão da oportunidade que tive de dedicar parte da minha experiência de vida à luta por ideais sociais e por um futuro melhor para a China. Por isso não tenho absolutamente nenhum arrependimento pelo preço que paguei. Esta é a vida que escolhi.
Este artigo foi retirado da edição de outubro de 2019 do Journal of Democracy em Português — publicação do Plataforma Democrática, uma iniciativa da Fundação FHC e do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais.

