Passado e construção em “Coringa” e no futebol
Por Fernanda Lima.
O que o filme do Coringa tem a ver com o futebol?
Passado e construção. É essa a minha resposta. O Coringa de Joaquin Phoenix é importante e extremamente forte justamente porque constrói a história de um dos vilões mais conhecidos do cinema. Antes dele, o que se via era só o produto final (e mais simples). Entender o passado é importante para entender o presente. Essa máxima serve para o personagem, o futebol e todas as outras coisas da sociedade. Saber da vida de Arthur Fleck faz toda a diferença na forma com que enxergamos e sentimos o Coringa e suas atitudes. As coisas se tornam mais completas, aparentemente, isso por conseguirmos dar uma volta e olhar aquele outro lado que antes não estava acessível.
No futebol também é assim. Embora haja uma onda de desqualificação do passado (político, social, cultural), continuo batendo na tecla de que entender que (quase) tudo é construção social, é essencial para mudar os rumos daquilo que não é bom, saudável hoje em dia. Nosso futebol está cheio de coisas não saudáveis, podres mesmo, que ferem profundamente a existência. Quantas vezes já ouvi — e me incomodei — com a frase “sempre foi assim”. Nem sempre foi assim e mesmo se fosse, não precisa continuar sendo.
O Arthur viveu numa confusão desde quando nasceu; mãe com doença mental, ambiente de abuso, nenhuma estrutura para que se desenvolvesse de forma saudável. Isso tem consequências. Sempre. Não foi do nada que ele decidiu fazer tudo o que fez. Nunca é do nada. A loucura dele foi construída durante a infância, adolescência e também vida adulta com todas as situações adversas que ele viveu/vivia. Foi um longo caminho percorrido e a cada passo que dava, algo aconteceu para fortificar seu adoecimento. O Coringa não nasceu Coringa.
O futebol não nasceu desse jeito que conhecemos hoje. Nasceu pior. Por incrível que pareça, as coisas melhoraram. Negros, mulheres e pobres no esporte eram inadmissíveis. A ideia de que negro, mulher e pobre eram inferiores não nasceu de uma hora pra outra, tem um passado extenso de pensamentos e práticas que foram construídos por determinados indivíduos e compartilhados até tantos outros acreditarem que era verdade. Não foi de uma hora para outra que isso mudou, muita gente teve que construir e sedimentar uma estrada para que o acesso a todos se tornasse possível. Ainda fazem isso hoje com os homossexuais, por exemplo. O poder dos homens no futebol não é natural.
Compreender isso nos faz pensar que, em algum momento das histórias, contribuímos para a loucura de alguém e/ou para a segregação de certas pessoas no esporte que tanto amamos, em um mecanismo parecido ao que as pessoas do passado fizeram. As doenças mentais, a loucura e o futebol não nasceram ontem. Há um passado e uma série de construções sociais que nos trouxeram até aqui. É preciso reconhecê-las, entendê-las e assumi-las.
