Cruyff — O operário da genialidade

O eterno craque holandês concebeu o jogo como algo simples. Para ele, o futebol nada mais foi que o exercício da simplicidade

O eterno camisa 14, por Igor Bertolino do De Classe

Johan Cruyff e Eduardo Galeano foram dois frasistas brilhantes. Cada um na sua, usaram as palavras para eternizar suas ideias. Amantes do futebol, falaram bastante a respeito dele, mas com uma diferença marcante entre suas visões, e isso nada tem a ver com o fato de o holandês ter jogado bola e o uruguaio não.

A distinção está no propósito individual. Galeano pensou sobre o jogo. Se debruçou sobre os fatos para tentar criar a melhor versão deles, algumas mais românticas, outros mais realistas e não menos belas, como a de Maradona.

Contou, como poucos, o passado da bola, deixando para nós leitores uma espécie de carimbo definitivo do futebol, que confirma porque ele foi, segue sendo e será sempre tão apaixonante.

Cruyff se dedicou a pensar o jogo. Foi engrenagem e cérebro de mudanças profundas. Trabalhou conceitos e uma maneira geral de concebê-los que deu resultados a ele e a outros. Legado é a palavra, e desse legado fomos muito felizes quando Pep Guardiola, nutrido dos ensinamentos do mestre, nos mostrou a melhor versão do que Cruyff queria para o esporte na forma do Barcelona de Messi, Xavi e Iniesta.

De família futeboleira, deixou o ventre de Dona Nel com uma bola debaixo do braço e o dedo em riste, indicando ao obstetra qual o procedimento correto a partir dali. Muito provavelmente, pediu ao médico que o aproximasse da mãe para que pudessem, os dois, tirar o melhor proveito da situação. Associados eram melhores do que sozinhos. Afinal, já jogavam juntos há nove meses. Entrosamento.

Criado numa família humilde, entendeu que o esforço era compensador desde cedo. Conheceu o Ajax pois sua mãe trabalhava no clube, o pai não perdia um jogo e a família tinha uma vendinha a quadras do antigo estádio.

Uma vez lá dentro, aproveitou para mostrar que podia ajudar. Passou boa parte da infância limpando as chuteiras dos craques que admirava. E nunca se viu menor por conta disso. Pelo contrário, esse período forjou seu caráter.

Foi ainda criança que aprendeu a tornar obstáculos em vantagem. Cruyff diz que a rua lhe ensinou muito nesse quesito. Virou o melhor companheiro de ataque do meio-fio, pois parou de vê-lo como um problema, fazendo com o cimento lindas tabelas e iludindo marcadores como anos depois passaria a fazer nos campos, com pernas alheias e hábeis no lugar do rígido meio-fio.

O aprendizado da rua sintetiza de forma precisa a abordagem de Cruyff no futebol. Ele foi o maior idealizador do jogo simples, e portanto, tão bonito. Pode parecer estranho falar isso, pois a Laranja Mecânica passa uma impressão de ter sido complicada, engenhosa. Não era tão assim. Pelo menos não na cabeça de Cruyff, que é quem executava e regia.

Passe, domínio, movimentação, aproximação, aprimoramento dos fundamentos, paixão pelo que faz. E a bola, instrumento básico das ações.

Atacar com ela, defender com ela. Se eu a tenho, você não a tem. O futebol é o que é porque tem um esférico que muda de pés e transfere o nosso olhar, sem transferir a atenção.

Quando os bons têm o domínio dela, só deixamos para piscar nos intervalos, aí piscamos incessantemente para que não sobre nada depois. Do contrário, bocejamos e esbravejamos. A atenção já foi pro saco. Coisa chata essa de quem não quer a bola para brincar.

Foi assim que Johan Cruyff concebeu o futebol. Tanto o que ele jogou como o que ele fez jogarem, independentemente do canto de mundo que possa ter sido influenciado por sua forma de enxergar o jogo.

Até no que é considerado o auge de sua ousadia, nada mais fez do que andar no limite do livro de regras. Cobrou um pênalti sem chutar, passando a bola a um companheiro, que devolveu a ele para que marcasse. Ninguém entendeu nada. Ele entendeu tudo. Porque tudo o que tinha de saber sobre o lance é que aquilo era totalmente legal, nas normas e na estética.

Naquele momento, em que a individualidade do batedor solitário é colocada diante da individualidade do goleiro, optou por ser coletivo e tornar tudo mais fácil. Dois homens contra um goleiro infeliz. Gol.

Johan Cruyff exercitou a simplicidade até torná-la o jogo dos gênios.

Este é o quarto texto da série inspirada nos perfis de craques mundiais que Eduardo Galeano escreveu em seu livro “Futebol ao Sol e à Sombra”. Craques que marcaram a história das Copas do Mundo e que irão marcar presença no Futebol Café durante o Mundial da Rússia. Textos publicados: Obdulio; Garrincha; Maradona; Yashin; Müller