Nutmeg: a revista de futebol escocês com 200 páginas de texto, texto e mais texto

O editor Ally Palmer fala sobre aposta no impresso e o projeto editorial: ‘As palavras e os escritores são a parte mais importante’

Primeira edição da Nutmeg, que veio ao mercado editorial em 2016 para dar à Escócia uma publicação futebolística de alto nível (Crédito: Divulgação)

Se você gosta de futebol, muito provavelmente já pegou na mão uma revista sobre o assunto, seja do pai, de um amigo ou mesmo na banca quando foi comprá-la. Em média, revistas de futebol não costumam — ou costumavam — se alongar por mais de 100, 120 páginas. A leitura mesmo só começa depois de algumas folhas com as propagandas do carro modelo cross e do relógio que tem um compartimento para guardar chicletes (quem lembra?). Agora imagine uma publicação com o dobro de páginas a que estamos acostumados e sem aquela enxurrada de anúncios, com praticamente 200 páginas dedicadas ao texto. E realmente dedicadas ao texto. Essa publicação que mais parece um livro é a Nutmeg, uma revista trimestral da Escócia que chegou ao mercado em 2016 com o desejo de suprir a falta de um veículo de mídia que contasse as boas histórias da bola em território escocês.

A inspiração para a Nutmeg vem de uma publicação da vizinha Inglaterra, a The Blizzard, focada na qualidade do texto e de seus respectivos autores. “Mas ao ler e curtir a Blizzard senti que havia uma falta de artigos sobre futebol escocês. Ainda que o mercado na Escócia seja pequeno, com uma população de pouco mais de 5 milhões de pessoas, a paixão do fã de futebol pelo jogo é enorme. E também não há uma publicação como a Nutmeg na Escócia”, diz Ally Palmer, editor da revista em entrevista feita por e-mail.

Ao saber que a entrevista seria publicada no Brasil, Palmer conta que esteve no país em 2000 para a implementação do jornal Valor Econômico, lançado em abril daquele ano. Ele é sócio de uma consultora editorial chamada Palmer Watson, que trabalhou na elaboração do conceito gráfico do Valor, em São Paulo. “Que cidade! Nunca consegui assistir a um jogo, mas joguei futebol com alguns dos caras do jornal… E meu time venceu. Eu possivelmente tenha marcado um hat-trick”, brinca o escocês. A experiência de anos no campo do design explica a ousada opção em não ter na capa da Nutmeg nenhuma foto ou ilustração, apenas o número da edição e uma pequena lista com o conteúdo a ser desbravado pelo leitor no interior da revista.

Ao folhear antes de efetivamente ler o conteúdo, percebe-se que a capa transmite um recado: imagens são secundárias, ainda que haja espaço para lindas fotos, como as de um ensaio sobre o primeiro dia da temporada pelos estádios do país, e algumas poucas ilustrações. A revista se dedica a esmiuçar o futebol local e, entre outras coisas, suas relações com a comunidade. Uma dessas demonstrações está em um artigo sobre como o futebol, de maneira geral, mudou de cara com a entrada da sociedade escocesa — agarrada à industrialização — na chamada era pós-industrial, e como a geografia dos campeonatos se tornou distinta a partir disso. Há também a explicação de como que o “tiki-taka”, como popularmente ficou conhecido o futebol dos times do Guardiola e da seleção da Espanha, foi originado na Escócia há mais de 100 anos. Material de profundidade cuja leitura requer fôlego, recompensado com textos que valem a atenção por alguns bons minutos.

“As palavras e os escritores são a parte mais importante da Nutmeg. Também não queria — e isso talvez esteja errado — que a Nutmeg parecesse com uma típica publicação de futebol. A capa diz logo de cara que é algo diferente”, reforça Palmer sobre a importância dada ao texto
Capa da segunda edição: sem foto de jogadores, sem ilustração, somente a indicação da edição e o que o leitor vai encontrar nas páginas da revista (Crédito: Divulgação)

Para criar o modelo de negócio, Ally Palmer e o pessoal da revista contaram com a colaboração dos amigos da The Blizzard, que abriram as portas para a Nutmeg seguir não só os passos editoriais dos ingleses, mas também o modelo de sustentação financeira do projeto, iniciado via crowdfunding no qual conseguiram levantar pouco mais de 14 mil libras. Basicamente, a Nutmeg conta com um sistema de assinaturas e a venda das edições separadas no site. Integrantes do Guardian Sports Network, grupo de parceiros esportivos do jornal britânico The Guardian, eles publicam alguns poucos artigos no site do diário, assim como no escocês The Scotsman. Essas iniciativas, porém, são feitas mais para gerar repercussão e espalhar a notícia de que a Nutmeg está por aí do que gerar retorno financeiro a partir disso. Na página da revista na internet, nenhum artigo é publicado, ou seja, a aposta é mesmo no produto físico da publicação. Como disse anteriormente Palmer, o veículo trabalha com o alvo apontado para os pouco mais de cinco milhões de escoceses, número baixo comparado a outras revistas de língua inglesa que, além de cobrir o futebol local, lançam seus olhares para o que rola no mundo da bola, atingindo portanto mais gente ao redor do globo — online e fisicamente, como a Four Four Two e a World Soccer, por exemplo.

Apesar do desafio de fazer com que pessoas optem pela leitura em papel em um mundo cada vez mais virtual, Palmer acredita no sucesso da Nutmeg e na missão de tratar o futebol da Escócia como algo maior e mais amplo que o famoso clássico Celtic x Rangers. “Eu venho do ambiente dos jornais e ainda que a indústria esteja sofrendo, ainda acredito no impresso. E acredito que uma publicação como a Nutmeg, que tem uma abordagem diferente em relação ao jogo, terá um espaço na mídia escocesa. Somos dominados por dois clubes gigantes: Celtic e Rangers, e eles tendem a dominar a mídia por aqui. Portanto estamos tentando rebalancear isso, mesmo que os assuntos que cobrimos sejam muito determinados por quem escreve. Vemos a Nutmeg como uma plataforma para os escritores trabalharem de uma forma que eles não conseguiriam em outra mídia”, afirma o editor.

“Nós também queremos dar aos leitores uma abordagem bem diferente e relaxada em relação à leitura. Um sentimento de tirar o pé do acelerador, que funciona como antídoto para a overdose de informações do século 21"

Muitas páginas de texto, texto e mais texto depois, como manter o conteúdo interessante e, consequentemente, o leitor preso à leitura para que saboreie com gosto a revista até o fim? “Suponho que variedade de artigos e um amor especial pelo assunto falarão mais alto. Sou torcedor de um clube pequeno da Escócia chamado Ayr United. Estamos atualmente na segunda divisão. Mas também estou interessado em todos os outros times. Então qualquer história, bem contada, deveria ser interessante. Se você só está interessado em um time e só naquele time, então a Nutmeg não é para você”, finaliza Palmer.

Fica a dica: a Nutmeg não é uma leitura para saber quem é a última contratação do seu clube ou quantos carros o Cristiano Ronaldo tem na garagem. É uma leitura para quem quer boas histórias, pouco importa se elas são escocesas. Afinal, já diria o outro na propaganda daquele banco que você não vai ver anunciando na Nutmeg: o futebol é muito mais que futebol.


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