Pep Guardiola: A Evolução - Entrevista com Carlos Eduardo Mansur, autor do posfácio

Jornalista de O Globo diz que livro desconstrói alguns mitos sobre o técnico catalão e revela pedido especial de Phillipp Lahm a Pep

Livro conta minuciosamente o trabalho de Guardiola nas duas últimas temporadas no Bayern e fala também da escolha pelo City (Crédito da arte: Bruna Rebouças Clara)

Quando Guardiola Confidencial chegou ao mercado editorial brasileiro em 2015 causou uma pequena revolução por aqui, quase como uma representação das próprias revoluções que o treinador promove nos clubes em que trabalha. Primeiro pelo acesso que o leitor brasileiro teve a um personagem tão importante para o futebol contemporâneo — e até então fechado — como é Pep Guardiola. Segundo porque a literatura futebolística ainda engatinha no Brasil e a obra de Martí Perarnau, originalmente chamada Herr Pep, marcou um antes e depois na nossa aproximação em relação às relevantes leituras de futebol em língua inglesa e espanhola, principalmente.

Agora o leitor interessado no tema tem a chance de conhecer ainda melhor a mente e o trabalho do hoje técnico do Manchester City com o lançamento de Pep Guardiola: A Evolução, lançado em português pela Editora Grande Área, que assim como fez com Guardiola Confidencial, segue trazendo títulos interessantes para as prateleiras das livrarias brasileiras. Diferenças deste livro para o primeiro? Quem conta é Carlos Eduardo Mansur, jornalista de O Globo que escreveu o posfácio da edição brasileira e conversou com o blog a respeito do novo trabalho de Perarnau e o que os leitores poderão encontrar em suas páginas.

“Acho que ele (Perarnau) mergulha muito num detalhamento maior da filosofia de jogo. Aprofunda mais essa questão. Tem outras coisas que me chamaram muita atenção. Principalmente desfazer alguns mitos em torno do personagem (Guardiola), e esse livro acaba desconstruindo de maneira muito eficiente”, diz Mansur, em entrevista ao Futebol Café.

Para o jornalista, um dos principais méritos do autor na desconstrução desses mitos que cercam Guardiola é a forma como Perarnau mostra que sua passagem por Munique não foi uma via de mão única nas contribuições do treinador ao clube, mas também o contrário. “O livro conta como ele modifica o Bayern e como o Bayern modifica ele, faz ele agregar repertório. Desconstrói essa imagem de ele ser um sujeito que vai numa direção só. O que ele não abre mão são princípios básicos: a ofensividade, ter a bola, ser protagonista, ter um compromisso com o espetáculo”, segue Mansur.

Outro aspecto que segundo o posfaciador chama atenção é ver como Pep Guardiola reforça suas convicções mesmo nas derrotas. A principal cobrança em relação ao seu trabalho na Alemanha foi a de a equipe bávara não ter conquistado a Champions League em nenhuma das três temporadas em que o técnico esteve no comando do time. Mesmo assim, Perarnau retrata como esse fracasso aos olhos dos críticos não mudou em nada a concepção de futebol de Pep, levada posteriormente ao Manchester City. “No meu posfácio eu destaco que uma semana depois do City cair para o Monaco, tem um jogo contra o Liverpool e o Liverpool precisava muito mais de uma vitória do que o City. E o jogo termina com uma pressão sufocante do City, obsessiva em busca do gol. O que prova que mesmo depois de um revés ele não quer pagar o preço de não ser ousado”, conta o jornalista.

Capa de Pep Guardiola: A Evolução, lançado recentemente em português pela Editora Grande Área (Crédito: Divulgação/Grande Área)

Em Guardiola Confidencial, quem teve a oportunidade de lê-lo conheceu algumas passagens fantásticas e curiosas do treinador, como a conversa em Nova York com o enxadrista Garry Kasparov e o dia em que Guardiola chamou Messi tarde da noite em seu escritório para explicar ao argentino a função de falso 9 que ele exerceria no jogo do dia seguinte, o 6 a 2 do Barcelona sobre o Real Madrid no Santiago Bernabéu. Dessa conversa nasceu a transformação de Messi em um craque da direita do campo para o melhor jogador do mundo pelo centro do ataque, com liberdade de se deslocar.

No livro recém-publicado, uma anedota revelada por Mansur ilustra como Perarnau joga para escanteio mais um mito que circulou a respeito do trabalho do catalão em Munique: o de que a ideia de jogo não era muito bem aceita pelas principais lideranças do Bayern. Em Pep Guardiola: A Evolução, o autor relata de perto o processo de amadurecimento da forma de jogar da equipe nas duas últimas temporadas de Pep no clube e como isso ficou de legado para os jogadores em termos de conceitos, resultando em uma nova visita ilustre ao escritório do técnico como aconteceu com Messi em Barcelona. Desta vez, contudo, por iniciativa de um atleta e não dele.

“Os jogadores estavam absolutamente com ele, entenderam toda a exigência de intensidade, do treinamento de um sistema tático complicado como era. Antes do fim da sua passagem — e o pessoal (da editora) vai ficar bravo comigo de eu estar contando isso — o (Philipp) Lahm pede que ele continue, vai à sala dele e pede que continue. Evidentemente existiu o conflito em relação à opinião pública, a diferença de estilos entre as partes, essa cobrança por uma final de Champions. O choque cultural gerou resistências, isso é natural. Aos poucos ele vai mostrando como esses dois estilos vão se fundindo numa experiencia extremamente fascinante”, conta Mansur, explicando a mescla entre o estilo de Cruyff trazido pelo catalão e o estilo de Beckenbauer, uma escola totalmente diferente de futebol, incorporado por ele.

Pergunto ao jornalista se ele vê a possibilidade de um dia trabalhos jornalísticos como o de Martí Perarnau com Guardiola serem feitos no Brasil, com a observação minuciosa dos processos de profissionais daqui. Mansur não se vê muito otimista com a ideia: “O futebol brasileiro quase que impõe que personagens fascinantes sejam menos fascinantes. Como não se treina, como técnicos caem como em nenhum lugar do mundo, você reprime ousadias e cada vez mais parte para o conservadorismo”. Para ele, esse fator também engloba um problema de estilo de futebol. “Até porque impera uma ideia de que você se resguarda jogando um futebol mais reativo. Você vê muito mais o Campeonato Brasileiro dominado por quem marca forte, contra-ataca, por quem ataca o espaço do que quem constrói o jogo”, pensa.

Outra questão determinante para o colunista de O Globo é a relação de constante conflito entre os clubes, seus dirigentes e os respectivos treinadores. “Como treinadores se sentem tão pouco à vontade nos seus cargos, tão instáveis, é muito difícil alguém que tenha construído uma autoridade, um reconhecimento tamanho que possa ter iniciativas como essa sem questionamento do clube… Quase sempre a convivência entre treinador e clube termina em litígio”, afirma.

Com os dois livros escritos por Perarnau, o leitor de futebol consegue hoje criar uma imagem muito mais precisa de Pep Guardiola. De seu trabalho, suas ideias, suas convicções e também seus erros. Agora no Manchester City, uma nova fase de sua carreira abre os horizontes para observações. “Ele vinha de clubes com identidades de futebol bem marcadas, e o City é uma tela em branco, ele vai ter uma liberdade muito maior”, finaliza Mansur.

Que essa tela em branco possa ser também um incentivo para mais um brilhante trabalho de Martí Perarnau. Mas vamos dar tempo ao tempo. Enquanto isso, devoremos as páginas de Pep Guardiola: A Evolução.