Quando o jornalismo entrou em campo e alertou o futebol sobre a homofobia

Revista dedicou uma edição para discutir o tema e levou o debate aos campos da Espanha com campanha que envolveu clubes

Revista Panenka decidiu colocar na marca do pênalti um tema tão marginalizado no mundo do futebol: a homofobia (Crédito: Futebol Café)

No dia 20 de junho de 1976, um jogador tchecoslovaco mudou o futebol. A final da Eurocopa entre Tchecoslováquia e Alemanha havia acabado empatada em 2 a 2, tendo de ser decidida nos pênaltis. Com a disputa igualada em três penalidades para cada lado, os tchecos converteram o quarto mas o alemão Uli Hoeness — hoje presidente do Bayern de Munique — desperdiçou sua cobrança. Aí chegou a vez de Antonín Panenka. O tchecoslovaco foi para a bola e, com uma cavadinha, superou a muralha alemã Sepp Maier para dar ao seu país o título europeu e eternizar seu nome na história com um gesto de ousadia que viraria uma marca no futebol. Desde então, todo pênalti cobrado com cavadinha ganha na Europa a alcunha de pênalti “à Panenka”. Pode-se dizer que Antonín foi um homem de coragem.

E foi essa coragem que inspirou os fundadores de uma revista espanhola a fazer a homenagem ao rebelde tchecoslovaco colocando seu nome na publicação. A Panenka, revista futebolística de Barcelona fundada em 2011, diz ter a rebeldia, o risco e a ruptura do gol de Antonín como espírito de seu jornalismo. Uma boa demonstração desse atrevimento está na edição de número 57 (de dezembro de 2016), inteiramente sobre a questão da homofobia no futebol. Um tema que passa longe dos estádios, das discussões entre torcedores e também da imprensa de forma geral.

O racismo, por exemplo, já foi assunto encampado inclusive pela FIFA. E ainda que hajam manifestações discriminatórias durante jogos e também nas redes sociais, a mobilização para a conscientização sobre racismo é muito maior que a mobilização para criar um ambiente favorável aos gays dentro do mundo da bola. Por quê?

Panenka foi atrás das respostas. “Tínhamos há meses a ideia de explicar os motivos pelos quais o futebol seguia sendo um esporte tão fechado na hora de abandeirar os direitos dos homossexuais. Sobretudo na Espanha, pois a homossexualidade se normalizou em diversos âmbitos como no poder judiciário, na política e inclusive no exército, e é um país que lutou através de leis para fomentar essa igualdade”, diz Roger Xuriach, coordenador da Panenka, em entrevista ao Futebol Café.

A edição traz um material amplo que discute a questão da homofobia em vários aspectos: tem uma entrevista com o ex-jogador da seleção francesa e gay assumido Olivier Rouyer, que diz nunca ter recebido uma demonstração de apoio do meio do futebol depois de se assumir, há depoimentos do alemão Thomas Hitzlsperger, que também jogou pela seleção de seu país e se assumiu homossexual depois de encerrar a carreira, além de uma matéria que questiona a falta de grandes protagonistas mundiais — como a FIFA, órgão máximo do esporte — na luta contra a discriminação e uma reportagem extensa que trata da intolerância da Rússia, sede da próxima Copa do Mundo em 2018, com os gays, intolerância legitimada por leis severas contra manifestações homoafetivas, entre outros textos.

Reproduções de algumas das matérias encontradas na edição #57 da Panenka, de dezembro de 2016 (Crédito: Panenka)

Os depoimentos de Rouyer e Hitzlsperger são de figuras que já saíram do armário anteriormente e não há nenhuma revelação de jogadores que tenham se declarado gays exclusivamente para a revista. Segundo Xuriach, buscar esse tipo de conteúdo não era a intenção de Panenka: “(Nossa intenção) Era criar o cenário mais saudável possível para, se quiserem fazê-lo, que façam sem medo. Mas não vamos nos enganar: é um tema que incomoda e que habitualmente os jogadores preferem evitar”.

Além de clubes, federações e personalidades do futebol, há um outro personagem importante na equação para tornar o ambiente futebolístico menos hostil à causa: o público. No Brasil, torcedores dividem opiniões sobre discussões, por exemplo, a respeito dos gritos de “bicha” nos estádios. As caixas de comentários de sites e as redes sociais oferecem um vasto material de intolerância quando o tema é abordado. De acordo com a revista, o retorno dos leitores espanhóis foi muito positivo.

“Isso acabou nos oferecendo a percepção de que era necessário fazer essa edição. Os coletivos LGBT nos ajudaram muito e, creio, conseguimos colocar o foco em uma problemática muito descuidada e que necessita de auto-falantes para conseguir uma normalidade desejada”, afirma Xuriach.

Contudo, a grande sacada de Panenka com o tema da homofobia foi uma ação que extrapolou as páginas da revista e chegou nos campos do futebol profissional, alertando todos sobre a importância de se discutir o assunto com a participação das grandes figuras do jogo. A revista enviou braçadeiras de capitão com a bandeira arco-íris, símbolo do orgulho LGBT, para todos os clubes de primeira e segunda divisão. A ideia era que os capitães usassem em algum treino e pudessem postar a imagem nas redes sociais, criando alguma repercussão. Contudo, o Eibar sugeriu ir mais além e disse que gostaria de usar a braçadeira em uma partida oficial de La Liga. A partir da iniciativa do clube, Panenka estendeu a proposta a todos e muitos times abraçaram a ação.

Braçadeira arco-íris, enviada aos clubes da primeira e segunda divisão (Crédito: Panenka)

Na 14ª rodada da primeira divisão, Osasuna, Sevilla, Eibar, Leganés, Granada, Espanyol e Las Palmas tiveram seus capitães com a braçadeira arco-íris no braço. Na segunda divisão, Girona, Reus, Real Oviedo, Huesca, Sevilla Atlético, Mallorca, Cádiz e o Rayo Vallecano se juntaram à iniciativa. Outras instituições históricas do futebol espanhol que disputam outras divisões, como o Real Murcia, o Mérida, Recreativo Huelva e o Extremadura também apoiaram o projeto da Panenka.

Clubes aderiram à iniciativa da revista, como o Rayo Vallecano, que historicamente luta por igualdade no futebol, e o Eibar (Créditos: Rayo Total e SD Eibar)

Nessa mesma rodada de La Liga, Barcelona e Real Madrid se enfrentaram e informaram à revista que não poderiam aderir sem a tutela da LFP (Liga de Fútbol Profesional). “A LFP nos comunicou que não queriam apoiar a ação. Dessa forma, todos os clubes que se somaram a ela fizeram por vontade própria”, afirma o coordenador da Panenka.

Mesmo sem o apoio dos dois maiores clubes espanhóis — talvez os maiores do mundo — e da Liga, a revista se viu satisfeita com o resultado da ação. Afinal, o que tinha começado como uma ideia de pauta virou uma edição inteira e chegou aos campos profissionais do país, em uma ação protagonizada pelos clubes e seus capitães em jogos televisionados para todo o mundo, além da grande repercussão nas redes sociais.

Quando pergunto a Roger Xuriach sobre o que Panenka conseguiu mudar com todo o projeto, ele diz não saber se de fato conseguiram promover alguma mudança. Mas crê que os leitores se sensibilizaram mais a respeito do tema. E reafirma a satisfação pelo alcance da ação. “Uma das coisas que mais nos orgulhou foi ver que em um torneio de crianças os capitães de cada equipe participante usaram a braçadeira arco-íris. Esse é o caminho: educação pela igualdade desde pequenos, pois assim como iniciamos a dar conta de que em um vestiário convivem negros e brancos ou cristãos e muçulmanos, também é preciso normalizar que possa haver heterossexuais e homossexuais. E levá-lo com normalidade. Acreditamos que há um caminho por recorrer”, encerra.

E realmente há. Mas a partir da iniciativa, outros veículos, outras pessoas e o próprio futebol puderam perceber a força que esse esporte tem para encampar uma mensagem de mudança sobre o tema. Ninguém estava preparado para um pênalti como o de Antonín em 1976. Ele precisou de coragem — e um pouco de loucura — para quebrar essa barreira. Esperamos que Panenka tenha quebrado outra, a de falar sobre a homofobia no futebol e como o mundo da bola pode e deve se tornar um ambiente melhor e mais tolerante com todos, independentemente da raça, do credo e da orientação sexual de cada um.

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