Apertou? Chama o China
Por Felipe Ferreira
O ano era 2008. O Atlético Esportivo Araçatuba, clube que se encontra atualmente inativo, tinha que lidar com salários atrasados e problemas estruturais. Diante do panorama desanimador, o homem responsável por manter um clima agradável entre os atletas do elenco para assim permitir ao Tigrão que tomasse o melhor rumo no Campeonato Paulista da Segunda Divisão, que é a quarta na prática, foi Rogério Ferreira Pinto, vulgo China.
Araçatubense de nascimento, China chegava para treinar o time depois de viver uma experiência de bastante sucesso e proveito no futebol angolano, onde foi campeão da divisão de acesso. Mas foi na equipe de sua cidade natal foi que o treinador começava a escrever um dos capítulos de maior sucesso e superação de sua carreira.
Diante de um elenco que contava com atletas de enorme potencial, como o atacante Jackson, que virou Jackson Five no Flamengo de Guarulhos e se transferiu para o São Caetano neste ano, o lateral Rodrigo Biro, destaque do Paulistão pelo Penapolense e atualmente na Ponte Preta, e o volante Sérgio Manoel, que compõe o elenco do Coritiba, o técnico sentiu na pele todos os problemas já citados, mas, de maneira heroica, foi capaz de levar o Atlético ao vice-campeonato.
Chegou 2013. Depois de ser campeão da Segundona em 2012 junto a Votuporanguense, China não conseguiu dar continuidade ao bom trabalho em Votuporanga e ainda passou sem sucesso por Novorizontino e Tupã — o que foi, de certa forma, decepcionante, já que havia uma grande expectativa em torno do treinador nos tais times.
Enquanto o ex-treinador do Tigrão rodava o interior colecionando decepções, as coisas de Araçatuba iam de mal a pior. Agora, era a tradicional Associação Esportiva Araçatuba, a AEA, quem representava a cidade na quarta divisão do Paulistão, e o início do Canário foi promissor, ao engrenar uma sequência invicta e despertar um sentimento de satisfação em seu torcedor que não era desperto há muito tempo.
De repente, porém, tudo começou a desandar. Às vésperas de um confronto contra o Ilha Solteira, Lelo, técnico da equipe até então, brigou com os diretores, foi embora e, junto com ele, praticamente todos os jogadores foram junto. China foi chamado às pressas, chegou, mandou um time com nove jogadores a campo e venceu a partida de maneira épica por 3 a 0, mas já surgia uma nova crise para se administrar, tão ruim quanto a superada cinco anos atrás.
Passado o confronto em questão, a AEA precisava se reestruturar, remontar o elenco e, o pior, sem dinheiro em caixa, já que algumas das empresas que prometeram apoio deram para trás, os gestores que vinham comandando o projeto de 2013 acabaram saindo também, os salários começaram a atrasar e até problemas relacionados à alimentação dos jogadores começaram a surgir.
Tamanha turbulência teve que ser administrada por China, que foi responsável por ir atrás do apoio da prefeitura de Araçatuba, que visibilizou novas parcerias para o Canário. O treinador remontou o elenco trazendo muitos atletas sem custo algum aos cofres da equipe e, pouco a pouco, foi auxiliando os mandatários que restaram a lidar com uma parcela das dívidas. Tudo isso enquanto a competição estava parada para a bendita Copa das Confederações.
Passado o mês de pausa, o torneio recomeçou e a dúvida sobre o futuro da Associação Esportiva Araçatuba foi sanada em grande estilo: com uma vitória por 3 a 1 no clássico regional com o Bandeirante de Birigui, fora de casa, que selou com duas rodadas de antecedência a classificação do clube araçatubense para a segunda fase.
Na penúltima rodada da primeira fase, realizada neste fim de semana, a AEA conheceu sua primeira derrota no campeonato (1 a 0 contra o Fernandópolis). O resultado, porém, não abalou a confiança do torcedor, que já sabe: se a coisa apertar, basta chamar o China que ele resolve.
Publicado originalmente no futvivo.wordpress.com em 15 de julho de 2013.