Onde o mau senso impera


Por Felipe Ferreira

O ano era 2012. A tão querida Associação Esportiva Araçatuba, a AEA, retomava as atividades profissionais depois de cinco anos e despertava no araçatubense fã de futebol um grande sentimento de confiança, além, claro, de alegria. Inicialmente com o projeto sendo administrado fora das quatro linhas por Waldir Peres, ex-goleiro de São Paulo, Corinthians e seleção brasileira, que viria a abandonar a barca dois dias antes do início da competição daquele ano por motivos até hoje não muito bem esclarecidos, as coisas naquele ano não saíram como se esperava, com um time fraquíssimo, uma campanha ridícula e uma vergonhosa aula de falta de organização.

Apesar de as coisas não terem ido muito bem, o fato de acompanhar o time naquele ano trouxe a mim uma das experiências mais marcantes que já tive ao longo de meus 16 anos e alguns meses de vida, que veio a me chamar muito a atenção porque, enquanto grandes centros dispõem de uma estrutura da mais moderna e excelente aos jogadores, outros ainda perduram na miséria. Em tempos de Bom Senso FC e protestos desencadeados nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro com jogadores cobrando melhores condições de trabalho, fica claro uma coisa muito importante: onde o mau senso ainda impera, o bom senso ainda está longe de chegar.

Era uma tarde de terça-feira qualquer. O clima quente de Araçatuba se fazia presente (mais de 30°C no termômetro e sensação térmica de 50°C). Havia ligado para Waldir Peres, que comandava a AEA na época, e marcado uma entrevista com ele no estádio para que pudesse completar um trabalho de escola que vinha desenvolvendo a respeito do time.

Chego ao estádio e não encontro o ex-goleiro no local em que havíamos combinado, já ficando mais do que perceptível que ele não apareceria por ali. Eis que surge uma figura por lá, um tanto quanto tímida, e nisso inicio um diálogo:

– Oi. Tudo bem? Estava aqui esperando o Waldir Peres, sabe dele?

– Opa, então, eu acho que ele só vai vir aqui mais tarde. Era urgente o que você queria falar com ele?

– Era mais ou menos, havia marcado uma entrevista com ele para um trabalho de escola. Estou escrevendo sobre a AEA. Sabe de alguém que possa me ajudar já que ele pelo jeito me deu cano?

– Pô, cara, que show! Então, eu sou jogador do time, estou treinando para ver se fico para jogar o campeonato e trazer esse time de volta às glórias. Se eu puder ajudar com algo… Ah, eu sou o Eli.

– Dá pra ajudar… E muito! Eu sou o Felipe. Você pode me responder algumas perguntas? E, outra pergunta: você não é o jogador que vinha jogar aqui que já tinha passado pela base do Inter e tudo mais?

– Claro que posso, vai ser uma honra. Sim, sou eu sim, passei um tempo lá, mas acabou não dando muito certo.

Depois de algum tempo de boa conversa quanto às experiências da curta carreira do jovem defensor, ele me convidou para que fossemos para o local do estádio onde estavam os alojamentos para que pudesse realizar a entrevista com ele e outros atletas.

O caminho era escuro, sem iluminação elétrica decente — apenas uma lâmpada incandescente presa a um único fio pendurado ao teto iluminava ao ambiente. Passamos por lá conversando, com eu observando aquilo tudo atônito e o atleta tratando tudo com a maior naturalidade possível, como se já tivesse passado por alojamentos em condições tão precários como aquele ou até piores.

Passado esse caminho, subimos uma escada claramente mal concluída com cara de que ruiria à primeira pisada. De lá, chegamos ao quarto onde eles estavam. Um cubículo minúsculo, com três beliches, uma cômoda e sem ar condicionado e nem mesmo espaço para qualquer outra coisa. Para amenizar o forte calor araçatubense, restava apenas um ventilador de teto de qualidade bem questionável que não ajudava muito.

Entrevista vai, entrevista vem… E a conversa com Eli e outros quatro jogadores, que não viriam sequer a permanecer na equipe para a disputa do campeonato, deixou claro uma coisa: todos eles tinham conhecimento das condições precárias em que viviam, reconheciam que não era fácil, mas acreditavam que, para realizar o sonho de fazer sucesso no futebol, eram experiências totalmente válidas.

Encerrada a entrevista, ainda os acompanhei até uma lavanderia tão precária quanto tudo presenciado naquela tarde, onde eles mesmos lavavam parte de suas roupas, e, lá, um varal improvisado com as chuteiras de todos voltada para o sol representava muito bem aquilo lá que eles esperavam: o sol raiando devidamente para eles, transmitindo uma claridade decente e diferente daquele corredor iluminado por uma mísera lâmpada vagabunda.

É de se aplaudir a mobilização do Bom Senso FC, mas para se cobrar mudanças no calendário é preciso lembrar, antes de qualquer coisa, que há jogadores que, muito mais do que desejarem mudanças no calendário, querem apenas uma condição de vida adequada dentro dos clubes. Não se pode esquecer que o mau senso impera, seja em Araçatuba ou em tantas outras cidades do interior paulista e em centenas de outros alojamentos e vestiários de estádios Brasil afora.

Publicado originalmente no futvivo.wordpress.com em 17 de novembro de 2013.