Embora a cultura tenha influenciado nossas expectativas sobre futebol, apontar culpados entre os fãs e entidades esportivas não é uma boa solução. Antes, precisamos tornar o futebol feminino mais atraente.

Deborah Bizarria
Jun 7 · 3 min read

A Copa do Mundo de futebol Feminino tem ganhado cada vez mais espaço no mundo dos esportes, batendo recorde de bilheteria com 720 mil ingressos vendidos. No Brasil, será transmitida pela rede Globo pela primeira vez e grandes marcas, como Guaraná Antártica, o Boticário, GOL e Lay’s, se juntaram em uma campanha para aumentar o apoio de patrocinadores ao esporte. Apesar dos avanços, ainda não é o suficiente para os defensores da modalidade.

Seleção Braisleira Feminina

Embora o machismo e a ideia de que “futebol é coisa de menino” tenham lá sua parcela de culpa¹, é difícil sustentar esse argumento como causa única da predileção da modalidade masculina sobre a feminina. Na verdade, há evidências que mostram que o jogo demanda fisicamente muito mais das mulheres que dos homens, o que tornam as partidas femininas “mais lentas” em comparação com o que estamos acostumados a ver no futebol masculino.

Um estudo publicado em 2013 por Paul Bradley, cientista esportivo da Universidade John Moores, comparou aspectos do desempenho de partidas entre jogadores masculinos e femininos que competem na Liga dos Campeões da UEFA. Ao confrontar a distância percorrida nos minutos mais intensos do jogo, é possível observar uma diferença de 30% e, algumas vezes, de até 200% entre os sexos. Bradley também descobriu que as jogadoras tinham, em média, pontuações mais baixas do que os jogadores em alguns testes fisiológicos.

Em outro estudo, a pesquisadora Keiko Sakamoto da Univeridade de Tsukuba fez um estudo no qual avaliou o chute dado por jogadores de futebol de ambos os gêneros. Seu estudo conclui que atletas do sexo feminino podem ter técnicas de transferência de energia da coxa para a perna mais baixas do que atletas do sexo masculino, impactando no desempenho em campo. Sakamoto vai além e aponta onde o melhor preparo técnico pode aumentar o desempenho das jogadoras.

Essas evidências explicam bem porque a Seleção Brasileira Feminina ser vencida pela equipe masculina Sub-15 do Red Bull Brasil não é algo de se estranhar. O futebol masculino tem se desenvolvido há muito mais tempo e, por isso, é natural que tenha sido ele a moldar o que os fãs do esporte esperam de cada jogo: velocidade e intensidade nas partidas.

Porém, isso também não quer dizer que as mulheres estejam fadadas a ficar em segundo plano no que concerne o futebol profissional. Um grupo de pesquisadoras Norueguesas advogam por mudanças no formato do jogo para que o futebol feminino seja tão dinâmico e atraente quanto masculino. Como apontado pelas pesquisas, os distintos estilos de jogo são consequências das diferenças antropométricas/fisiológicas, nada mais lógico, portanto, que adaptar algumas regulamentações para cada sexo.

É importante lembrar que empoderar mulheres nos esportes não deve ficar restrito ao futebol. Deveríamos, também, apoiar esportes no quais mulheres já são os maiores destaques. Dentre eles podemos evidenciar a notoriedade de nossas esportistas na Ginástica Artística e no Hipismo, ambos esportes que passaram muito tempo considerados como “masculinos” e, mesmo assim, as mulheres têm se destacado neles a nível olímpico.

Ainda assim, se queremos promover o futebol feminino, é fundamental pensar em soluções que sejam benéficas não só para as atletas mas também para espectadores e, consequentemente, para os patrocinadores e as ligas.

Notas:

  1. Para além da cultura em geral, no Brasil, legislações preconceituosas que coibiam a prática feminina de futebol entre 1941 e 1979 fizeram com que o futebol feminino como modalidade organizada se desenvolvesse mais tardiamente. Talvez, sem esse tipo de interferência, o estilo das mulheres de jogar futebol já estivesse mais evoluído e difundido.

Editado por Iris Paiva. Graduada e mestranda em História pela UNESP/Franca, leitora assídua e amante da escrita.

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Deborah Bizarria

Written by

Mentora no Students For Liberty e Liderança do Lola (Ladies of Liberty Alliance)

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