O movimento, que começou na Inglaterra, comemora 5 anos // Divulgação

Fashion Revolution: Por que a indústria da moda continua com um pé pra fora?

A Fashion Revolution Week acontece na mesma semana da SPFW e não há diálogo entre os eventos —ignorar que o jogo está mudando só arrisca colocar a relevância das marcas na berlinda.

Há 5 anos, o movimento global Fashion Revolution surgiu como uma resposta ao desabamento do Rana Plaza, prédio então responsável por abrigar confecções subcontratadas de grandes varejistas globais, em Dhaka, Bangladesh. Considerado um dos maiores acidentes industriais da história, o Rana Plaza deixou mais de mil mortos e outros milhares de feridos. Todos os anos, no dia 24/04, aniversário do acidente, o Fashion Revolution se articula, de forma descentralizada, em todos os continentes para continuar pressionando por mudanças na indústria da moda.

Sob o questionamento “quem fez minhas roupas”, o movimento conseguiu mobilizar parte da indústria da moda e da sociedade para o enfrentamento das condições de trabalho precário na cadeia de fornecimento. Ao lançar luz sob essa problemática, conscientizando pessoas e marcas sobre a importância de enxergar para além da roupa, o Fashion Revolution realmente é parte crucial da transformação em curso da moda. Presente em mais de 90 países, é praticamente impossível estar de alguma forma envolvido com moda e não saber de sua existência — e importância.

Por mais que haja divergências de interesses entre a indústria e o movimento, é de causar espanto como ainda há quem não se engaje de alguma forma nessa data — para moda, o Fashion Revolution Day é, também, uma forma de posicionamento; se manter em cima do muro permite subentender não-responsabilidade e interesse com essa crescente demanda da sociedade.

Pelo não-engajamento subentende-se, igualmente, um apego ao velho modus operandi da moda, ou seja, aquele que se mantém alheio às questões pautadas e, vez ou outra, mata pessoas.

A São Paulo Fashion Week, maior semana de moda da América Latina, acontece, esse ano, nas mesmas datas da Semana Fashion Revolution e não há nenhuma interação entre os eventos. Igualmente, marcas importantes e de grande visibilidade, que estão pautando sustentabilidade, no Brasil, criam narrativas paralelas e não se envolvem, fugindo de responder a pergunta “quem fez minhas roupa?”.

Talvez isso aconteça porque grande parte da indústria realmente ainda não saiba responder a esse, aparentemente simples, questionamento. Em um sistema de subcontratação sem fim, o desconhecimento se tornou regra. Mas isso não quer dizer ser necessário (e até mesmo coerente) se ausentar do debate — a Semana Fashion Revolution é uma oportunidade de abrir diálogo entre indústria e sociedade, criar pontes de interação para além das campanhas e dos produtos, e entender como ambos, juntos, podem construir uma moda mais digna para com as pessoas e mais responsável para com o planeta.

Mesmo se varejistas de moda e as marcas desfilando no SPFW ainda não saibam sobre suas cadeias de fornecimento, abrir o jogo e compartilhar as rotas traçadas para chegar lá também é uma forma de se envolver genuinamente no debate, mostrando interesse e vontade de colaborar para que a moda realmente prospere — ignorar que o jogo está mudando só arrisca colocar a relevância de marca na berlinda. O “não passarão” está chegando para a moda com uma rapidez mais próxima do que imaginamos e não haverá forma das marcas se esquivarem das responsabilidades perante a sociedade.