O quê aprendemos com a última temporada de moda?

Política, diversidade e colaboração

Deborah Mello
Nov 13 · 7 min read
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Se você veio até este texto com o objetivo de descobrir as principais tendências de moda da última temporada, já vou te dizendo que você não vai encontrar isso aqui. A expectativa de saber qual a cor ou a estampa da próxima estação deveria ser considerada ultrapassada, já que a moda vai muito além disso, e os desfiles também. Se olharmos para os desfiles apenas com o objetivo de entender tendências, eles se tornam rasos e sem propósito no mundo que vivemos hoje. Para transformarmos a moda em uma indústria mais justa e coerente é preciso deixar essa ideia opressora para trás e enxergar os desfiles como um reflexo do mundo que a moda se encontra. Por isso, resolvemos trazer quatro questionamentos que surgiram durante a última temporada de moda.

Tanya Taylor: “incentivar o voto é mais importante do que um desfile nesse momento”

Ao invés de apresentar um desfile na New York Fashion Week, a estilista Tanya Taylor criou uma série de vídeos chamada “Things that take longer than registering to vote” (Coisas que demoram mais do que se registrar para votar). O vídeo diz que a moda pode esperar, mas se registrar para votar não pode. Além disso, também mostra diversas celebridades usando roupas da marca e fazendo atividades diárias que demoram mais do que se registrar para votar. Entre elas, Hillary Clinton aparece brincando com o seu cachorro e Mindy Kaling aparece regando suas plantas.

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Diferente do Brasil, nos Estados Unidos o voto não é obrigatório, e nas eleições de 2016 apenas 56% dos eleitores foram às urnas. Tanya Taylor não foi a única marca que abordou esse tema durante a semana de moda. O estilista Christian Siriano também apresentou várias peças em seu desfile que traziam a palavra “VOTE” escrita nelas. Além das apresentações na NYFW, muitas outras marcas americanas também estão criando campanhas, produtos e parcerias para incentivar o voto e algumas delas até declararam que vão fechar suas lojas para que os seus funcionários possam votar.

O posicionamento político das marcas tem se tornado cada vez mais importante, já que a polarização vivida hoje torna cada vez mais difícil fingir que nada está acontecendo. No caso de Tanya Taylor, essa não foi a primeira vez que a marca se posicionou em relação às eleições presidenciais americanas. Em 2016, ela já havia criado uma camiseta em apoio a campanha da candidata Hillary Clinton. Em entrevista ao site Fashionista, a estilista afirmou que os vídeos também são uma forma de provar que o posicionamento político não prejudica os negócios, afinal, a marca continua vendendo muito bem, obrigada.

Na verdade, o oposto pode ter um efeito negativo, já que cada vez mais a sociedade está cobrando posicionamento das empresas acerca de questões sociais. Segundo uma pesquisa realizada em 2018 com o público americano, 66% dos consumidores querem que as marcas assumam posições sociais e políticas. Quando falamos de marcas com foco em sustentabilidade, isto é ainda mais importante. Muitas empresas já reconheceram que sustentabilidade não se faz de forma isolada. Políticas públicas e lideranças políticas comprometidas são imprescindíveis. Nesse sentido, devemos ver cada vez mais as marcas usando suas plataformas para uma comunicação que vai além do marketing de produtos.

Raf Simons e Miuccia Prada: a importância da colaboração na moda

Raf Simons e Miuccia Prada estrearam na semana de moda de Milão como co-diretores criativos da Prada. O encontro entre dois dos estilistas mais adorados da moda foi com certeza o evento mais aguardado da última temporada. Mas ao invés de olharmos para essa colaboração e tentarmos decodificar o que isso significa para a Prada, queremos entender o que isso significa para a indústria como um todo.

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Por muitos anos, foi perpetuado o conceito de estilistas estrelas, os gênios por trás das criações mais “revolucionárias” da moda, responsáveis por desenvolverem coleções inteiras praticamente sozinhos. E apesar dos trabalhos colaborativos estarem se tornando cada vez mais comuns, nas marcas mais tradicionais, como a Prada por exemplo, o estilista estrela e genial ainda é o modus operandi. Em muitas marcas isso é, inclusive, uma estratégia de marketing. Um exemplo clássico desse tipo de mentalidade é o estilista Karl Lagerfeld, que ficou por muitos anos à frente das marcas Chanel e Fendi.

Mas ao manter seus deuses do Olimpo, a moda só perde. Além de não reconhecer o trabalho de todos os outros profissionais envolvidos na concepção, produção e venda de uma coleção, a moda ainda perde ao não ter narrativas mais abrangentes e plurais. Por isso, é importante que existam mais trocas de ideias entre criadores, bem como compartilhamento de responsabilidades também. Dessa forma, colocar dois estilistas tão consagrados quanto Raf Simons e Miuccia Prada para dialogarem e trabalharem juntos não poderia causar outra coisa senão espanto e comoção.

Entretanto, é muito importante ressaltar que quando falamos de Simons e Prada estamos falando de duas pessoas extremamente influentes e que possuem espaços similares de imagem e poder. Para termos um avanço de fato, precisamos de mais colaborações com pessoas que não fazem parte desse grupo seleto de profissionais da moda, quando essas colaborações forem mais comuns, aí sim teremos um avanço mais significativo. Não podemos pensar em sustentabilidade se mantermos as rodas de conversa fechadas, e para que a gente realmente consiga construir uma outra moda, nós precisamos de uma perspectiva mais plural e transversal.

Versace: está na hora de pararmos de celebrar o atraso

Durante a semana de moda de Milão, a marca italiana Versace desfilou sua coleção de Primavera 2021, e pela primeira vez foram escaladas três modelos curvy no casting do desfile. Alva Claire, Precious Lee e Jill Kortleve roubaram a cena e foram o assunto mais comentado do desfile. As três modelos postaram fotos em suas contas do Instagram comentando o quanto estavam orgulhosas deste momento histórico. De fato, elas estavam deslumbrantes e merecem sim ser celebradas e se sentirem orgulhosas, porque infelizmente ainda é uma conquista para uma modelo curvy desfilar em uma marca como a Versace. Mas quem não deve ser celebrada por isso é a Versace.

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Na mesma semana do desfile, a cantora Lizzo também foi anunciada como a capa da Vogue americana, sendo assim a primeira mulher gorda e negra a ser capa da revista em 128 anos de publicação. Ao anunciar a capa, Lizzo disse em seu Instagram que ser a primeira negra em qualquer coisa parece um atraso. E realmente é triste pensar que estamos em 2020 e isso ainda é tratado como “grande notícia”, quando na verdade deveria ser algo totalmente comum.

Não podemos olhar para esses dois momentos e enxergá-los como históricos. Seria precipitado também falar em avanços. Por hora, eles apenas revelam o quanto a moda está atrasada. Está atrasada em atender as demandas da sociedade e está atrasada em enxergar o seu próprio público para além da imposição de produtos, corpos e estilos. O questionamento que fica é: estamos vendo mudanças ou estamos vendo a estratégia de usar pessoas como token?

Dior: não somos mais capazes de diferenciar a estética do ativismo de um protesto de verdade

E o último questionamento que essa temporada de moda nos trouxe aconteceu no desfile da Dior durante a semana de moda de Paris. A Dior é uma marca cheia de contradições em seus discursos. Ela é uma das poucas marcas tradicionais a terem uma mulher como diretora criativa, a italiana Maria Grazia Chiuri, mas ao mesmo tempo, assim como a Versace fazia até esse ano, se recusa a escalar modelos com corpos mais diversos para seus desfiles. Além disso, desde que Chiuri assumiu a direção criativa da marca em 2016, sendo a primeira mulher no cargo, ficou bem claro que seu foco era o feminismo, mas aquele feminismo que pertencem apenas às mulheres brancas, magras, altas e com carteiras recheadas.

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Desde 2016, a estilista tem se mostrado adepta de uma certa “estética do ativismo”, que já foi abordada de diversas maneiras pela marca. “Sejamos todas feministas”, lembra dessa? Mas no último desfile da marca francesa, que aconteceu nessa temporada de moda em Paris, o ativismo ultrapassou a estética quando uma protestante da organização Extinction Rebellion invadiu a passarela segurando uma faixa que dizia “Somos todos vítimas da moda”. As pessoas que assistiam não conseguiram identificar se aquilo era um protesto ou se era parte do desfile. Até mesmo Antoine Arnault, chefe de comunicação e imagem da LVMH (conglomerado dono da Dior), disse acreditar que o protesto fazia parte do show.

Essa situação mostra muito bem como a indústria da moda é eficaz em silenciar seus oponentes de uma forma muito sutil. A moda incorporou os protestos tão bem em suas narrativas que consegue neutralizar qualquer tipo de ameaça. As pessoas estão tão acostumadas a ver modelos vestindo camisetas com slogans ou segurando cartazes de protesto que, quando um protesto de verdade está acontecendo, a indústria da moda simplesmente aplaude, assumindo ser sua própria criação.

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