A era da neurorrealidade está chegando

Por Redação

A interface cérebro-computador poderá revolucionar a forma como interagimos com o mundo ao nosso redor (Crédito: Shutterstock)

Você já ouviu falar em neurorrealidade? A expressão, ainda desconhecida do grande público, provavelmente será muito utilizado nos próximos anos. Contudo, para compreender em que consiste esse recém-emergente campo de estudo, precisamos retroceder um pouco no tempo.

Realidade virtual

A realidade virtual (VR) não é uma invenção tecnológica recente, mas sua febre mundial começou nos anos 90, quando foram lançadas uma série de jogos e máquinas arcade. Na época, os jogadores começaram a usar óculos especiais, que permitiam uma experiência imersiva em tempo real.

Apesar do boom nos anos 90, muitas pessoas atribuem o lançamento do Oculus Rift, em março de 2016, como o marco inicial da era da realidade virtual. Isso porque foi o primeiro sistema a alcançar o mercado consumidor e, ao mesmo tempo, fornecer o tipo de experiência que os usuários esperavam.

Seja (ou não) o Oculus Rift o marco inicial da era da realidade virtual, é inegável que as aplicações da VR “explodiram” nos últimos anos. Especialistas encontraram formas inovadoras de tornar as experiências virtuais mais imersivas e, sobretudo, mais reais.

Um modelo do Oculus Rift (Crédito: Engadget)

Mas, apesar de todos os progressos na área, ainda somos capazes de distinguir o real do virtual. Ao imergir na VR, podemos até acreditar que estamos em mundo diferente. Mas, após alguns segundos, nos damos conta de que tudo não passa de uma fabricação.

Por mais convincente que seja a tecnologia de VR hoje, pesquisadores concluem que, enquanto dependermos de headsets ou controles hápticos, sempre seremos capazes de distinguir o ambiente virtual do mundo real durante as experiências imersivas.

Por isso, como sintetiza Joy Lyons, diretora de tecnologia da empresa OSSIC, o hardware ideal para criar uma nova realidade não é um headset, por mais avançado que seja. Mas, sim, um chip no cérebro.

Em suma, antes de podermos criar um mundo verdadeiramente indistinguível do real, precisamos deixar a era da realidade virtual para trás e entrar em uma nova era — a era da neurorrealidade.

Neurorrealidade

A neurorrealidade é uma realidade impulsionada por tecnologias que interagem diretamente com nossa mente, por meio da interface cérebro-computador (BCI, do inglês brain-computer interface).

Longe de ser um vislumbre de ficção científica, a BCI é muito real e avança a passos largos. A tecnologia já está sendo aplicada em tratamentos de pacientes com Parkinson, epilepsia e outras doenças neurodegenerativas.

Até o momento, os resultados são surpreendentes. Um dos casos emblemáticos é o de Nathan Copeland, o homem tetraplégico que conseguiu sentir o toque em uma mão robótica através de eletrodos implantados em seu cérebro. O fato ocorreu nos Estados Unidos, no ano de 2016.

Copeland sentiu o toque em uma mão robótica através de eletrodos cerebrais (Crédito: UPMC / Pitt Health Sciences)

Especialistas estimam que os avanços da BCI levarão a uma nova era na evolução humana. Essa tecnologia têm o potencial de revolucionar a forma como tratamos doenças, aprendemos e nos comunicamos.

A BCI poderá revolucionar a forma como interagimos com o mundo ao nosso redor — e algumas empresas já estão investindo esforços para co-construir o recém-emergente campo da neurorrealidade.

EyeMynd

Fundada pelo físico Dan Cook em 2013, a EyeMynd pretende criar um sistema de VR em que poderemos navegar por mundos virtuais apenas com nossos pensamentos.

O sistema desenvolvido pela EyeMynd não é invasivo e, portanto, não exige qualquer tipo de implantação cerebral. Ao invés disso, o usuário acoplaria sensores EEG em sua cabeça para rastrear suas ondas cerebrais. Você já imaginou jogar Pong apenas com sua mente? Confira o vídeo a seguir:

Cook acredita que computadores estão se tornando rápidos o suficiente para que possamos detectar e interpretar todos os sinais do cérebro em tempo real. Para ele, em até 10 anos seremos capazes de conectar nossas mentes à VR. E, quando isso acontecer, será uma experiência sem igual:

Será uma experiência muito mais satisfatória e permitirá um nível muito maior de imersão. Você pode esquecer seu corpo humano vivo e apenas se concentrar no que está acontecendo na sua frente. — Dan Cook

Kernel

Ao contrário do que se possa imaginar, a EyeMynd não é a única empresa que está trabalhando na conexão duradoura entre o mundo digital e o neocórtex humano para aprimorar a experiência de VR.

A empresa Kernel, fundada pelo empresário Bryan Johnson, busca aumentar a inteligência humana e a qualidade de vida. Johnson investiu US$ 100 milhões do próprio bolso no empreendimento para desbloquear o poder do cérebro humano e tornar nosso código neural programável.

Bryan Johnson investiu US$ 100 milhões do próprio bolso para fundar a Kernel (Crédito: Getty Images)

A Kernel está aumentando seu time de neurocientistas e engenheiros de software com o objetivo de tornar nossos cérebros mais conectados, rápidos e inteligentes. Ao conectar o neocórtex com a nuvem, o ser humano seria capaz de aprimorar suas funções cognitivas e a capacidade de memória.

Em um futuro próximo, a empresa poderia não apenas produzir experiências imersivas como conectar nossos cérebros com a mente de outras pessoas e com inteligências artificiais emergentes — algo similar ao que está ocorrendo com os dispositivos móveis na Internet das Coisas.

Neuralink

No início deste ano, Elon Musk fundou a Neuralink, uma empresa com o objetivo de desenvolver tecnologia de ponta para conectar o cérebro humano ao mundo digital. A ideia é criar, por meio de redes neurais, uma interface cérebro-máquina para impulsionar nossas habilidades cognitivas.

O procedimento consiste na implantação de pequenos eletrodos no cérebro, que poderiam fazer o download/upload de nossos pensamentos. A técnica nos possibilitaria criar simulações computacionais indistinguíveis da realidade, nas quais sentiríamos o vento, o calor, o toque, etc.

Para Musk, distinguir o real do virtual será um desafio no futuro (Crédito: Analytics India)

Com a Neuralink, a mesma parte do seu cérebro estimulada quando experimentamos uma pizza na vida real poderia ser simulada para nos proporcionar a mesma sensação na neurorrealidade — como se realmente estivéssemos mordendo uma fatia de pizza.

Musk acredita que veremos uma fusão mais próxima entre a inteligência biológica e a inteligência artificial no futuro. Quando esse dia chegar, distinguir o real do virtual será um enorme desafio.

Para onde estamos indo?

Descobrir a tecnologia para realmente fazer isso não é tão simples. Antes de superar os obstáculos relacionados à tecnologia, os especialistas terão de desenvolver um mapa abrangente do cérebro humano e de todos os nossos neurônios.

Esse, talvez, seja o maior obstáculo, pois, como lembra o físico teórico Michio Kaku, a mente humana é uma das forças mais poderosas e misteriosas do mundo, e o cérebro, pesando apenas um quilo e meio, é o elemento mais complexo do sistema solar.

Ainda não temos todas as respostas. Anos de pesquisa serão necessário até que possamos desenvolver dispositivos para implantação em seres humanos. De todo modo, é inegável que a pesquisa da BCI está progredindo rapidamente e aplicações surgirão com cada vez mais frequência.

Há duas décadas, a experiência de realidade virtual proporcionada hoje pelo Oculus Rift estava estava fora do alcance. Agora, podemos facilmente adquirir o aparelho e usá-lo em nossa própria residência. E, o melhor de tudo: os preços estão caindo a taxas notáveis, tornando a tecnologia acessível a todos.

Ao que tudo indica, em muito breve seremos capazes de conectar nossos cérebros diretamente com máquinas. Quando isso irá ocorrer? Ainda não sabemos. Mas empresas como a EyeMynd, Kernel e Neuralink nos oferecem um vislumbre de quão longe a tecnologia poderá nos levar.

Fonte: Futuro Exponencial