Até quando vamos robotizar o amor?

Por Roberta Ramos

Fomos programados, ao longo da vida, para pensar o amor dentro da lógica de programação

Amor. Quando decidi falar sobre esse tema, não sabia ao certo se deveria classificá-lo como clichê ou como tabu. Hoje, acredito que seja apenas um conceito que se perdeu, e que precisa ser ressignificado.

E então, vamos falar de amor?

Cenário atual

Estamos vivendo um período de acelerado desenvolvimento tecnológico. Softwares que nos auxiliam em nosso dia-a-dia chegam a nossos aparelhos sem avisar, começamos a utilizá-los, por vezes meio que sem escolha, e logo não sabemos mais viver sem!

Sim, estamos vendo de perto a entrada da tecnologia na curva ascendente, que em breve se tornará vertical, do crescimento exponencial.

Estamos vivendo um período de acelerado desenvolvimento tecnológico (Crédito: Shutterstock)

Com a tecnologia, alguns termos como Machine Learning, Internet das Coisas, programação cognitiva e inteligência artificial viram rotina em nossas conversas. E, com elas, a consciência de que as máquinas estão aprendendo e desenvolvendo uma experiência de aprimoramento contínuo, emulando as sinapses cerebrais.

Esse super desempenho, pouco a pouco, vai sendo utilizado como sinônimo de produtividade no mercado de trabalho e, é claro, empregos vão sendo substituídos por máquinas.

Algumas profissões deixam de existir e novas começam a surgir. E não há capacitação para essas novas funções… E não há definição de como as coisas funcionam… ou de como será o futuro!

Em uma tentativa de encontrarmos um espaço nessa realidade tão confusa e incerta, entramos num estado de resistência, de negação. Começamos, então, a levantar hipóteses facilmente refutadas, de que robôs nunca substituirão humanos em determinadas áreas.

Arte, música, poesia… Como seria possível? E logo nos chegam notícias com as mais recentes descobertas, mostrando que sem saber, isso já acontece há mais tempo do que imaginamos.

Nosso diferencial, o amor

E nessa ânsia por encontrar algo que seres humanos possuem e que máquinas não poderão substituir, comecei a pensar sobre amor. Não seria ele o responsável pelas conexões mais empáticas, diversas e sensíveis? Gosto de pensar que sim.

Mas sabe o que fazemos com o amor? Talvez esse único sentimento que nos diferencia dos robôs? A resposta infelizmente é esta: nós robotizamos o amor! Fomos programados, ao longo da vida, para pensar o amor dentro da lógica de programação. Essa lógica se baseia em premissas e condicionantes.

Até quando vamos robotizar o amor? (Crédito: Shutterstock)

Ou seja: eu amo, mas como isso me faz sentir, depende da reciprocidade ou não desse amor.

O amor, por causas não tão difíceis de entender, acaba sendo visto, em determinado momento de nossas vidas, como sinônimo de fraqueza e vulnerabilidade. Pensamos menos no que sentimos, e mais no quanto somos retribuídos. Endurecemos.

Definindo amor

Mas para tentar embasar minha filosofia de boteco, fui atrás de definições de amor nas fontes mais tradicionais. E para minha surpresa, o amor parece ter sido reduzido ao chamado “amor romântico” e pela busca por um parceiro de vida.

Seguindo a busca, encontrei algumas definições que me pareceram mais alinhadas com aquilo que eu pensava. São de pensadores ainda desconhecidos, eu admito, mas que, se permitirem que suas inocências perdurem, e que não se permitam contaminar por nossa lógica atual, têm condições de ressignificar esse sentimento tão importante.

O primeiro deles foi o Terry, de 4 anos, que disse que o amor é aquilo que faz vocês sorrir quando está cansado. Nossa, como eu concordo com o Terry. Por tantas vezes realizei um trabalho que me levou a exaustão física, ainda que, ao mesmo tempo, me trouxesse leveza ao coração.

As crianças têm condições de ressignificar o amor (Crédito: Shutterstock)

Já a Rebeca, de 5 anos, diz que amor é quando você perde um dente, mas mesmo assim não deixa de sorrir, pois seus amigos vão continuar te amando mesmo se tiver faltando uma parte sua. Me emociona tal definição. Além de relacionar amor e amizade, a Rebeca entende que o amor que ela recebe não é dela, e independe de “em quantas partes” ela estiver.

Mais direta, mas não menos assertiva, foi a Mary Ann, de 4 anos. Ela diz que amor é quando seu cachorro lambe sua cara mesmo depois de você tê-lo deixado sozinho o dia inteiro. Se essa não é a melhor definição de amor incondicional, o que é?

E por fim, ainda trago a visão super-romântica da Karen, de 7 anos, que diz que quando você ama, seus cílio sobem e descem e pequenas estrelas saem de você.

Me perguntei em que momento da vida alteramos o algoritmo do amor em nossos cérebros, corações ou vísceras (me perdoem os românticos, mas eu particularmente considero o amor um sentimento visceral). Mas fui além.

Encontrei na Wikipedia, a nossa enciclopédia colaborativa, grande fonte de pesquisa da era digital, uma definição mais empática e próxima daquilo que eu acredito. Lá diz, entre outras coisas, que amar é desejar o bem a alguém ou alguma coisa.

Amar é desejar o bem. Essa definição fez sentido pra mim. Mas de novo, fui além.

A monja Jetsunma Tenzin Palmo diz que frequentemente confundimos amor com apego. E quando nos apegamos a algo ou alguém, temos medo de perder. E assim sendo, quando perdemos, sofremos.

A monja explica, então, a diferença entre eles. Segundo ela, o apego diz: eu te amo, e por isso, quero que você me faça feliz. Enquanto que o amor genuíno diz: eu te amo, e por isso, quero que você seja feliz. Sem mais.

Esse cara, Manoj

Mas antes de continuar, eu preciso falar de um cara: Manoj Fenelon.

Bem, Manoj era um dos palestrantes em um conjunto de palestras sobre futurismo que eu assisti no ano passado. Na sua bio constava ex-diretor de tendências da Pepsico, o que, é claro, é um título de pompa.

Para Manoj, nós temos a capacidade de encontrar qualquer resposta (Crédito: The Do School)

No entanto, Manoj estava em meio a cientistas da NASA, caras que imprimem 3D no espaço, malucos que estão trabalhando na cura de doenças através da nanotecnologia, impressão 3D de casas, entre outros. O caso é que ele não gerou lá muita expectativa.

E como é bom quando nos surpreendemos! O Manoj pesquisa, e já escreveu um livro sobre o poder das perguntas. Segundo ele, temos a capacidade de encontrar qualquer resposta, mas ainda temos dificuldade para fazer a pergunta certa.

Como exemplo, questionou o grande empenho de energia direcionado à colonização de Marte. “Por que queremos tanto ir a Marte? O que faremos lá? O mesmo que aqui ou melhor? Se sabemos fazer melhor do que o que fazemos aqui, por que ir a Marte? Por que não mudar o que estamos fazendo com o planeta Terra?”.

Foi um soco no estômago. Manoj foi o cara que, com muita sensibilidade, deu propósito a tudo o que estávamos fazendo e estudando havia quase dois anos.

Propósito

Propósito. Outra palavrinha do momento. A razão pela qual algo é feito ou criado. Hoje muito falamos disso. Qual nosso propósito pessoal? Qual o propósito da minha empresa? Como empreender com propósito?

Bom, eu acredito que, independente do propósito individual de cada um, juntos temos uma missão. Somos a única geração que mistura não nativos digitais com nativos digitais (pessoas que nasceram com banda larga em casa).

Independente do propósito individual de cada um, juntos temos uma missão (Crédito: Shutterstock)

E justamente por falarmos todas essas línguas, e por estarmos vendo a mudança acontecer, nós temos um propósito em comum: somos a nova Liga da Justiça. Juntos, precisamos mudar essa sociedade adoecida na qual vivemos.

E mudança não acontece a força. Ninguém muda por ninguém. Mudamos quando entendemos que podemos ser melhores. Mudamos quando somos inspirados a mudar.

E o que inspira mais do que o amor?

Redefinindo amor

Amar é desejar o bem — é o que diz a Wikipedia. E como enciclopédia aberta e colaborativa que é, adiciono outras duas definições a esta. Amar é fazer o bem (afinal, amar não é dizer). Amar é transformar em bem.

Eric Fromm, um psicanalista alemão, diz que o amor é a única resposta satisfatória ao problema da existência humana. Eu concordo com ele! Amor não é fraqueza ou vulnerabilidade. Amor é força e inspiração.

Para Eric Fromm, o amor é a única resposta satisfatória ao problema da existência humana (Crédito: Shutterstock)

E como inspiração que é, acredito que se eu conseguir impactar uma pessoa, um leitor ou leitora, a amar, e essa uma pessoa conseguir impactar uma pessoa, e essa uma pessoa conseguir impactar uma pessoa… Criamos um exército do bem. Um exército do amor. Que cresce exponencialmente!

O coração não é como uma caixa que você preenche. Ele se expande quanto mais você ama. Eu sou diferente de você. E não é por isso que eu te amo menos. Na verdade, é por isso que eu te amo mais.

Essa frase é da Samantha, o Sistema Operacional protagonista do filme Her. É, talvez as máquinas nunca sejam capazes de amar. Ainda assim, parece que temos muito o que aprender com elas sobre o assunto.

Fonte: Futuro Exponencial